terça-feira, 16 de setembro de 2008

Sentidos

Por vezes exigimos em demasia daqueles que são nossos. Queremos vê-los dizer aquelas palavras que desejamos ouvir. Porque no fundo fazem-nos bem. Enche-nos o peito de orgulho a certeza de que também lhes pertence-mos. A certeza de que eles também nos sentem. E é bom ouvi-los dizer isso. É, de facto. Mas não será puramente ilusório? O que uma palavra bonita pode esconder atrás de si? Como podemos ter a certeza da sua veracidade? Sim, a resposta é fácil. Não há margem para desconfianças quando as pessoas que nos dirigem tais palavras são grandes em nós. Tão grandes que nos fazem confiar nelas de olhos fechados. É verdade. Mas não será isto completamente desnecessário? No outro dia, parei por um momento. Vi-me a sorrir, com um brilho no olhar, com pura magia a fazer bater o coração… e nesse momento a resposta a essa pergunta foi imediata: Não. Para que são precisas banais e gastas palavras, quando os nossos sentidos falam a língua do coração? Há maior certeza da força que nos liga alguém, do que a cumplicidade que nasce quando estamos juntos, com as tais pessoas? Sem dizer nada fazemos magia. Fazemos magia pura e simplesmente com aquilo que sentimos.

Um olhar. Quantas palavras seriam precisas juntar para recriar a força de um olhar? Acho que nem tal coisa seria possível. Um simples olhar consegue dizer bem mais. Tanto. Tenho a certeza que mesmo se estivesse num sítio longínquo, rodeada por milhares de desconhecidos… não tenho duvidas que saberia o exacto momento em que Aquele olhar me encontraria. Sente-se. Uma força vinda não se sabe de onde, que nos prende. E não nos deixa descansar enquanto não o encontramos. Enquanto não o cruzamos com o nosso. E quando isso acontece, por mais repentino que possa ser, para nós pode durar eternidades. Perdemo-nos por entre todas as emoções que nos inundam em turbilhão. Mergulhamos o mais fundo que conseguimos naquele olhar. Bebemos da pessoa e deixamo-la beber de nós. E assim eternizamos o momento. Fazemo-lo nosso.
Serão precisas palavras quando trocamos aquele olhar cúmplice com um nosso cúmplice? Quando um simples olhar nos desvenda o que a outra pessoa está a pensar e até mesmo a sentir? Quando sabemos que ao retribuir esse olhar com um nosso, isso nos deixa com uma transparência tão frágil que nos faz tremer. Quando esse olhar, esse momento nos dá a certeza que não são precisas palavras… Que os dois olhares que se cruzaram já não existem e deram lugar a um só. Que as duas pessoas se esqueceram que o são. Se esqueceram da sua individualidade, para passarem a ser uma só. Uma só pessoa. Há magia maior?

Entrelaçar de dedos. Como é que uma coisa tão pequena pode mexer tanto, cá dentro? Quando o fazemos é porque confiamos nesse alguém. E confiamos de tal modo que podemos ir até onde esse alguém quiser, até onde nos guiar. Libertamo-nos de todas e qualquer corrente que nos possa prender. E vamos. Sem duvidas. Questões. Medos. Anseios. Vamos sem hesitar. Porque a confiança nos permite. Porque podemos fechar os olhos e ir. Sem mais nada.
Ou então damos as mãos porque queremos que seja sempre assim. Pela vida fora. Estarmos perto. Em segurança.

Um abraço. Uma pessoa que me conhece bem demais, chamava-me para me irritar ‘Ana Catarina, a menina dos abraços’ e eu ria-me porque sabia tão bem que era e é verdade. Sempre tive uma fascinação qualquer por abraços. Para mim não há coisa melhor. Não há magia maior nem mais apaixonante do que o momento em que abres os braços. Recebes e és recebido. Te entregas à outra pessoa sem restrições. E o Mundo pára. Com as pessoas certas o mundo pára. E a maior procura da tua vida é encontrar essas pessoas, que fazem o Mundo parar no momento do abraço. Pensar que essas pessoas são as que te vão segurar quando estiveres a cair, as que vão passar a vida a teu lado, é um engano. Nem sempre é assim. E a magia do abraço nasce mesmo aí, quando este te prende a pessoas que tu nunca imaginaste. E falo porque sei. Porque já o vivi uma e outra vez, sem ter pedido nada para tal. É uma sensação única quando uma pessoa que pouco te conhece, vem direita a ti de braços abertos. Quando abraças alguém, permites que a outra pessoa retire para si um pedaço teu e tu bebes um pouco da essência da outra pessoa. Passas a ser um pouco dela e a vê-la existir em ti. Só porque sim. Nem todos os abraços são assim. Nem há uma altura em que pedes à pessoa que assim seja. Porque queres. Porque ela quer. Ou porque há necessidade. Não. Esses abraços nascem, assim. Pronto. Só te resta senti-lo. Agarra-lo. Guardá-lo para sempre. Porque nunca saberás quando o vais voltar a sentir de novo. E só isto explica o facto de pessoas que até então te eram indiferentes, passarem a fazer parte de ti sem sequer te pedirem autorização. Só isto explica a certeza que nasce a seguir ao abraço. A certeza de que de repente ficaste mais e melhor. A certeza de que mesmo que nunca mais as voltes a ver, vais trazer para sempre essas pessoas contigo, num local bem junto do coração.
E ainda existem os abraços daqueles que amas e que sabes que estarão sempre do teu lado, mesmo podendo estar longe. E não são estes os mais importantes? Claro que sim. Aquele abraço que sela a união. A cumplicidade. O entendimento. O abraço que destrói muralhas e cura uma ferida chamada saudade. Que ergue castelos de areia esquecidos pelo tempo e faz do frágil, forte e resistente. Que apanha pedaços teus que foram caindo pelo caminho. Recolhe-os e reconstitui-os numa exacta perfeição. São estes abraços que te lembram sempre quem és, quando o mundo inteiro se esqueceu. São estes abraços que tornam o mais pequeno pormenor no mais importante e essencial.
Às vezes dou por mim a pensar e com a certeza de que se me abraçarem, mesmo que eu esteja de olhos fechados e o abraço for familiar, eu conseguiria distingui-lo. Só pela forma. Pela força. Pelas borboletas na barriga. Distinguiria sem hesitar. Porque esses abraços, os que ficam para sempre, não são iguais. Nunca são iguais.

E perante isto tudo resta-me a certeza de que palavras são puramente desnecessárias e nunca terão a dimensão de um olhar, um entrelaço, um abraço, um gesto, um momento. Instantes que te fazem tirar os pés do chão sem te perguntares como, sem tão pouco quereres saber porquê.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Preciosos instantes

"Pergunto-me se, no fim de contas, a vida não será pontuada por pequenos instantes preciosos, e tudo o resto não passará de intervalos entre esses instantes"

É. Também acho que sim. Que somos feitos de pequenos momentos. Pequenos instantes preciosos. Que se colam a nós e nos fazem ser. Realmente ser por dentro. São aqueles momentos que guardamos na mais preciosa caixinha que todos construímos um dia e guardamos nos confins do nosso coração para que ninguém a alcance. Sim, porque há coisas que são nossas. Simples e apenas nossas. Que só nós sabemos que guardamos. Algumas guardamos com a mesma intensidade com que as vivemos ou até com uma intensidade maior porque, à intensidade do momento junta-se a intensidade das saudades. E elas conseguem ser tão fortes. Há saudades destruidoras, mas eu esta não a considero assim.

Esta é aquela saudade tão forte que nos consegue fazer viver tudo de novo. Num simples fechar de olhos estamos ao alcance de um toque, envolvidos na magia de um sorriso, presos na força, na ternura de um abraço, vulneráveis ao sentir o bater do nosso coração rasgar-nos o peito. E depois, quando voltamos a abrir os olhos, é bom. Sentir que as coisas aconteceram, mesmo. Por maior que seja a saudade e o aperto que pode trazer com ela, nada é maior do que o brilho desses momentos. Nada é melhor do que vê-los escritos nas nuvens, vê-los perfeitos a serem escritos numa história, na nossa história. Orgulharmo-nos disso.

Nem sempre ao vive-los temos a percepção do quão importante é o momento, da intensidade da marca que deixará da nossa vida. Mas fica sempre a certeza no final do dia. Quando restamos nós. O escuro. O silencio. E quando nos deparamos com aquele sorriso. Um sorriso inteiro, que preenche. Quando olhamos para as nossas mãos e podemos sentir, ver lá um mundo por inteiro. Quando respiramos fundo ao pensar que valeu a pena. Vale sempre.

Acho que vivemos para isto. Simplesmente para sentir nascer a magia destes momentos. Senti-la em nós. Como uma força que nasce, não se sabe bem de onde. Que nos ajuda a viver nos intervalos. Que nos faz querer ser mais e melhor. Simplesmente dignos destes momentos. Eu não tenho duvida nenhuma de que vivo para esses pequenos instantes. Pequenas estrelas brilhantes que ficam cravadas no coração. Vivo para as pessoas que me proporcionam tamanha magia ou que a vivem e a respiram comigo. E agradeço-lhes tanto por cada coisa que fazem por mim. Por me fazerem sentir especial. Por estarem ao meu lado. Por me fazerem ser, simplesmente. Sem pedirem mais nada em troca.