As pessoas encantam-se, ou
desencantam-se, pelas nossas folhas e pelo nosso florir. Por tudo o que
sugerimos, transparecemos – ou simplesmente parecemos. Nada – nem ninguém – é
assim tão simples. O Outono sempre vem e as pétalas não permanecem para sempre
– as folhas caem e vão. São as raízes que nos sustentam e revelam – são elas
que nos definem. É difícil lidar com todas as nossas raízes – aceita-las e
decifrá-las. Quando as flores se vão, muitos dos que nos rodeiam se perdem: até
nós preferimos, mil vezes, não ver. Mas são elas, as raízes, que nos erguem e
amparam: e, é facto, nem todas as nossas raízes são boas – muitas são as que
resvalam para o tenebroso. É preciso bem mais do que conhecê-las: é preciso,
tantas vezes, mergulhar e ir a fundo. Abrir os olhos para as mil e uma coisas
que preferíamos não saber – quanto mais admitir – sobre quem somos. É preciso
arrancar tudo aquilo que não presta, por mais que – espantosamente – isso nos
possa sustentar. É preciso deixar espaço para tudo o que é bom, e vale a pena,
crescer. É importante saber aquilo que se pode ainda ser, depois de descobrir
que já fomos o que nunca quisemos ou, sequer, imaginámos ser. Podemos sempre
aprender tudo outra vez. E na próxima Primavera não haverá florir mais bonito que
o nosso. (quem se perde no Outono geralmente não resiste a um Inverno mais
rigoroso – perde, assim, a oportunidade de desfrutar da próxima Primavera e de
tudo o que com ela nasce.)