Tive um sonho estranho hoje. Sonhei que ele tinha voltado e eu estava estupidamente paralisada por o ter de novo. A beber cada pormenor do dia-a-dia tão seus. Tão característicos, que estavam mesmo à minha frente, nítida e perfeitamente definidos.
Rejeitei inicialmente a ideia do abraço, com medo de descobrir que tudo não passava de mera ilusão. Mas o desejo e a necessidade falaram mais alto e quando o fiz, pura e simplesmente desapareceu-me nos braços. Acordei com um aperto tão grande!, mas que passou. Porque, o que ficou no fim de tudo é bom demais. Vai fazer sempre parte de tudo o que sou : )
25.04.09
Andei dias com a ideia de escrever sobre o Porto. Comecei a fazer uma descrição detalhada, mas a meio desisti. Fez-me confusão. Fiquei com a sensação de me estar a expor demasiado. Foi tudo tão forte. E a verdade é que quando penso no tempo que lá estive, parecem-me meses e não semanas. Marcou fundo. Aprendi tanto. Um mundo. E cresci, cresci tanto. Guardo tudo comigo, sem perder nada. Mas ficam principalmente momentos. Telefonemas. Pessoas.
Momentos tão grandes. Difíceis. Amargos. Únicos. Gratificantes. Que me deixam ainda hoje com um arrepio enorme e incomodativo. Ou um aperto grande e bom que me deixam de lágrimas nos olhos.
Telefonemas. Todos, todos. Mas principalmente aqueles à porta do bloco operatório. Das minhas pessoas. Em que se era nítido o nervosismo, ainda maior era a felicidade que nos inundava a todos. Senti aqueles abraços apertados de longe, tão perto.
E depois aqueles que fiz, mal me deixaram sozinha com a mãe no quarto xD ‘Dá-me aí o telemóvel’, ‘Mas tu queres ligar a quem?’, ‘À minha gente! De resto ligas tu’, ‘mas tu tens que descansar’. Oh sim claro. Farta de descansar estava eu, depois de um dia inteiro nos cuidados intensivos. E nem as dores horríveis que tinha no peito me impediram de ir pedir miminhos :’D
E a verdade é que nem eram assim tantas as pessoas que havia para ligar, uma vez que as pessoas que souberam desta aventura, foram as mínimas possíveis. E se há pessoas a quem eu me arrependo de não ter contado antes, outras há que nem deviam ter sabido de forma alguma, porque simplesmente não mereciam. Não fazem parte. Por mais que queiram e façam de conta que sim.
Ainda havia os telefonemas diários, indispensáveis. E depois outros, completamente inesperados, mas bons. Tão bons.
Pessoas. Não acho que estivesse frágil mas, se calhar até estava porque a verdade é que me agarrei tanto às pessoas. Foram mesmo importantes e algumas continuam a sê-lo.
Os médicos, obvio. Porque ao fim ao cabo, foram os meus grandes cúmplices. Tenho um orgulho imenso naquela equipa.
Os enfermeiros, cuja real importância e valor, eu só percebi verdadeiramente lá e reconheço isso. São indispensáveis. E tão multifacetados. Conseguem ser médicos. Enfermeiros. Auxiliares. Mães. Pais. Compinchas. Amigos. Cúmplices. Chatos. Palhaços. E a lista não terminava. É preciso ser-se grande por dentro para ser-se bom, para estar à altura desta profissão, que tem um valor imenso. :) Eu fiquei a achar isso.
Os auxiliares, aos quais eu subscrevo quase tudo o que disse para os enfermeiros. Mesmo.
A malta da fisioterapia, com quem eu me ria tanto.
E os doentes. Há que dizer que estava na ala de Neurocirurgia. Portanto, os únicos casos positivos que lá haviam, era mesmo o meu e o do Tiaguinho. De resto, era tudo bem grave no geral, mesmo. E se isso me dava um murro enorme no estômago ao inicio, tudo não passa de um processo de consciencialização. E ainda foram algumas as vezes que fui abrir o netter, para tentar perceber onde estaria o tumor. Qual seria o nervo e consequentemente os músculos afectados. Pergunto-me se todo o estudante de medicina será assim tão alienzado x) ou se seria apenas a minha maneira de lidar com as situações.
Ver as suas reacções. Quando as coisas, corriam bem. Mal. (Quando se perdia alguém.) e reagir também. Porque às tantas apercebemo-nos que estamos ali uns para os outros.
Destacando algumas pessoas:
A Doutora Maria José. A MINHA Dótoura! Se eu conseguir concretizar o meu sonho de ser médica e se for para algum doente, metade do que ela é para mim, juro que vou ser a pessoa mais realizada do mundo. É enorme. Gigante. Mais do que ‘a melhor médica’ é minha amiga, como ela mo faz questão de lembrar, sempre. o carinho. Admiração. Amizade. Amor que tenho por ela não tem descrição possível. A dedicação que ela mete em tudo o que faz, transcende tudo.
O Doutor Rui. Que me trata sempre por ‘cara colega’ porque sabe que não lho consigo retribuir. A admiração e o respeito que tenho por ele não mo permitem faze-lo de todo. É dos melhores profissionais que este país tem, nesta área. E consegue ser tão caricato, quando se dá a conhecer. Merece. Merece mesmo todo o reconhecimento e protagonismo que ele e o seu trabalho estão a ter. é mesmo grande.
O Doutor Volkmann. Espero que isto não vá parar a sítios errados mas, há que dizer que é o doutor alemão, quarentão mais giro que há. : D De uma humanidade extrema e de uma genialidade petrificante. A mim, deixou-me sem palavras, sempre. Orgulho desmedido nele também.
O Doutor Miguel. O porreiraço lá do sitio.
A Rita. A minha Rita. A MINHA enfermeira. A melhor do mundo. Foi ela que me instalou. Me mostrou os cantos à casa. E a partir daí foi estando sempre. E foi empatia à primeira vista. E ela foi tão importante. As nossas conversas iam sempre muito além do necessário. E eram tão boas. Tenho a consciência que aquelas conversas não se vão repetir com ninguém. Porque ela sentia tudo. Ia fundo. E fez-me sentir de uma maneira que nunca tinha sentido até então. Fez-me ver que eu até sou alguém com um tamanho considerável e não uma miniatura neste mundo de grandes gigantes. Ensinou-me tanto, com tão pouco. Deu-me força e animo quando eles se queriam escapar disfarçadamente. E o mais importante: soube ver isso. Pessoas que marcam. :)
O Joao. Grande e com cara de mau. Com quem eu bati logo o pé à chegada. ‘Bem, importa-se que vá ao centro comer uma torrada?’ ‘Mas acabaste de dar entrada no internamento. Enquanto cá estiveres não podes sair daqui.’ ‘Mas apetece-me tanto uma torrada, cheia de manteiga…’ ‘Temos pão…’ ‘Torrada…’ pega em mim e quando eu pensava que me ia mandar uma curva diz-me ‘Estás a ver isto?’ ‘Não estou a ver nada…’ ‘Miuda, temos dois corredores: um esquerdo e um direito. Eu vou pela esquerda. Tu vais pela direita. Não te vou ver sair nem entrar. Para mim, tu vais estar sempre aqui.’ : D
E era sempre ele que me tirava da cama de manhã. ‘Vá miúda, levanta-te, vamos trabalhar’ ‘Ih, oh Joao! São 11 horas!’ ‘Precisamente!’ destapava-me. Olhava com cara de má e ria-me. Ameaçava-me com tratamento de choque, caso não me levantasse, mas nunca lhe dei o gosto de o ter de usar :P
Foi também ele que dois dias depois, me pos meia hora em frente ao espelho. O meu maior medo, naquele dia. E não me largou. Às vezes pergunto se me queria dar equilíbrio ou força. Por ter noção que aquilo ia mexer demasiado cá dentro.
O Miguel. Que raras vezes vi a dizer coisas sérias. x) Entrava-me pelo quarto ‘Oh menina que só ouve Mafalda Veiga, pode parar um bocadinho para lhe fazer a cama?’ ‘Pode-me fazer a cama, claro! Mas eu posso continuar a ouvir a Mafalda.’ ‘Mas assim quando te fores embora, eu vou ficar a saber as músicas todas!’ ‘Já viu? E não é bom?’ ‘Bom, bom é o FCP’ e pronto. Lá a conversa azedava e um dizia mata e o outro esfola. E quando não íamos chatear o Tiaguinho com a mudança de clube. Sportinguista de um lado, tripeiro do outro: puto sofre! : P
A Carla. Colega do Miguel, que aparecia lá todos os dias com uma boa disposição descomunal, sempre com uma tolice na ponta da língua para animar o pessoal e que aos poucos me fui apercebendo da grande pessoa que é ‘Estou cansada, ontem estive a estudar…’ ‘A seriooo? Então e está a estudar para quê?’ ‘Para não ser burra, Aninhas’ : ) e da força grande que tinha.
Aqueles três senhores que lá estavam, que andavam sempre juntos. Tinham as conversas mais disparatadas e uma simpatia descomunal. Que, apesar de saber que fizeram um esforço descomunal, porque ali as horas das novelas da tvi eram as mais aguardadas, mesmo!, deixaram a menina ver os Globos de Ouro (ajudados pelo meu ultra beicinho e um ‘era mesmo importante’ xD)
E claro. O Tiaguinho. O meu puto. O meu menino, eu sei lá. A verdade é que, quem o vê neste vídeo, não tem noção do que ele era (e ainda bem!) e eu por muitas vezes que já o tenha tentado explicar, sei que é impossível para quem não viu, ter a mínima noção.
Confesso que fui uma cobarde no primeiro dia e me ‘escondi’ o tempo todo. Falei-lhe quando cheguei mas, o grau de distonia dele era mesmo qualquer coisa de angustiante. Eu choquei-me mesmo. Só que este rapaz é extraordinário e tem uma capacidade de cativação gigante, para quem quer que seja. E se no dia em que cheguei não o conseguia encarar, no seguinte já não o largava. Deu-me tantas lições de vida. Força. Coragem. É mesmo incrível.
Vê-lo após a cirurgia foi dos maiores momentos que já tive. Tive que me controlar tanto para manter o meu papel de ‘adolescente parva e brincalhona’ e não me desfazer em lágrimas. A diferença foi brutal. Mesmo inacreditável. E ele merecia e acima de tudo precisava tanto.
E eu acredito que ele vai melhorar muito mais, é uma força da natureza. Vai lutar e vai conseguir.
Tem a capacidade de fazer o meu coração gigante quando lhe pergunto quando o vou ver a andar e ele me responde com a maior convicção ‘está quase’ e de me fazer sentir enorme quando ao ver-me esboça aquele maior sorriso do mundo.
A mãe, sobre a qual não vale a pena falar muito. Está sempre. Faz parte. E é tudo para mim.
E é por tudo isto que todas as vezes que o Dr. Rui Vaz me pergunta se valeu a pena, eu não hesito a responder. Valeu. Sempre disse que ia valer mesmo que as melhoras não fossem nenhumas. Tentei. E vou tentar sempre. Ser operada, rapar o cabelo, fazer tudo. As vezes que forem precisas. Porque na minha vida não há espaços para ‘ses’ e quem me conhece sabe disso.
E cada vitoria. Cada passo em frente que dou é tão gratificante. E ter noçao que não são só meus, ainda torna tudo maior. São meus. Da família. Dos médicos. Das fisioterapeutas. Porque são eles que estão e lutam comigo. E ver a emoção. O brilho. Os sorrisos neles. Ter noçao que por vezes acabam por viver cada vitoria mais que eu, é incrível. O ‘não se estar sozinho’ e ter-se consciência disso não tem preço :)
Andei dias com a ideia de escrever sobre o Porto. Comecei a fazer uma descrição detalhada, mas a meio desisti. Fez-me confusão. Fiquei com a sensação de me estar a expor demasiado. Foi tudo tão forte. E a verdade é que quando penso no tempo que lá estive, parecem-me meses e não semanas. Marcou fundo. Aprendi tanto. Um mundo. E cresci, cresci tanto. Guardo tudo comigo, sem perder nada. Mas ficam principalmente momentos. Telefonemas. Pessoas.
Momentos tão grandes. Difíceis. Amargos. Únicos. Gratificantes. Que me deixam ainda hoje com um arrepio enorme e incomodativo. Ou um aperto grande e bom que me deixam de lágrimas nos olhos.
Telefonemas. Todos, todos. Mas principalmente aqueles à porta do bloco operatório. Das minhas pessoas. Em que se era nítido o nervosismo, ainda maior era a felicidade que nos inundava a todos. Senti aqueles abraços apertados de longe, tão perto.
E depois aqueles que fiz, mal me deixaram sozinha com a mãe no quarto xD ‘Dá-me aí o telemóvel’, ‘Mas tu queres ligar a quem?’, ‘À minha gente! De resto ligas tu’, ‘mas tu tens que descansar’. Oh sim claro. Farta de descansar estava eu, depois de um dia inteiro nos cuidados intensivos. E nem as dores horríveis que tinha no peito me impediram de ir pedir miminhos :’D
E a verdade é que nem eram assim tantas as pessoas que havia para ligar, uma vez que as pessoas que souberam desta aventura, foram as mínimas possíveis. E se há pessoas a quem eu me arrependo de não ter contado antes, outras há que nem deviam ter sabido de forma alguma, porque simplesmente não mereciam. Não fazem parte. Por mais que queiram e façam de conta que sim.
Ainda havia os telefonemas diários, indispensáveis. E depois outros, completamente inesperados, mas bons. Tão bons.
Pessoas. Não acho que estivesse frágil mas, se calhar até estava porque a verdade é que me agarrei tanto às pessoas. Foram mesmo importantes e algumas continuam a sê-lo.
Os médicos, obvio. Porque ao fim ao cabo, foram os meus grandes cúmplices. Tenho um orgulho imenso naquela equipa.
Os enfermeiros, cuja real importância e valor, eu só percebi verdadeiramente lá e reconheço isso. São indispensáveis. E tão multifacetados. Conseguem ser médicos. Enfermeiros. Auxiliares. Mães. Pais. Compinchas. Amigos. Cúmplices. Chatos. Palhaços. E a lista não terminava. É preciso ser-se grande por dentro para ser-se bom, para estar à altura desta profissão, que tem um valor imenso. :) Eu fiquei a achar isso.
Os auxiliares, aos quais eu subscrevo quase tudo o que disse para os enfermeiros. Mesmo.
A malta da fisioterapia, com quem eu me ria tanto.
E os doentes. Há que dizer que estava na ala de Neurocirurgia. Portanto, os únicos casos positivos que lá haviam, era mesmo o meu e o do Tiaguinho. De resto, era tudo bem grave no geral, mesmo. E se isso me dava um murro enorme no estômago ao inicio, tudo não passa de um processo de consciencialização. E ainda foram algumas as vezes que fui abrir o netter, para tentar perceber onde estaria o tumor. Qual seria o nervo e consequentemente os músculos afectados. Pergunto-me se todo o estudante de medicina será assim tão alienzado x) ou se seria apenas a minha maneira de lidar com as situações.
Ver as suas reacções. Quando as coisas, corriam bem. Mal. (Quando se perdia alguém.) e reagir também. Porque às tantas apercebemo-nos que estamos ali uns para os outros.
Destacando algumas pessoas:
A Doutora Maria José. A MINHA Dótoura! Se eu conseguir concretizar o meu sonho de ser médica e se for para algum doente, metade do que ela é para mim, juro que vou ser a pessoa mais realizada do mundo. É enorme. Gigante. Mais do que ‘a melhor médica’ é minha amiga, como ela mo faz questão de lembrar, sempre. o carinho. Admiração. Amizade. Amor que tenho por ela não tem descrição possível. A dedicação que ela mete em tudo o que faz, transcende tudo.
O Doutor Rui. Que me trata sempre por ‘cara colega’ porque sabe que não lho consigo retribuir. A admiração e o respeito que tenho por ele não mo permitem faze-lo de todo. É dos melhores profissionais que este país tem, nesta área. E consegue ser tão caricato, quando se dá a conhecer. Merece. Merece mesmo todo o reconhecimento e protagonismo que ele e o seu trabalho estão a ter. é mesmo grande.
O Doutor Volkmann. Espero que isto não vá parar a sítios errados mas, há que dizer que é o doutor alemão, quarentão mais giro que há. : D De uma humanidade extrema e de uma genialidade petrificante. A mim, deixou-me sem palavras, sempre. Orgulho desmedido nele também.
O Doutor Miguel. O porreiraço lá do sitio.
A Rita. A minha Rita. A MINHA enfermeira. A melhor do mundo. Foi ela que me instalou. Me mostrou os cantos à casa. E a partir daí foi estando sempre. E foi empatia à primeira vista. E ela foi tão importante. As nossas conversas iam sempre muito além do necessário. E eram tão boas. Tenho a consciência que aquelas conversas não se vão repetir com ninguém. Porque ela sentia tudo. Ia fundo. E fez-me sentir de uma maneira que nunca tinha sentido até então. Fez-me ver que eu até sou alguém com um tamanho considerável e não uma miniatura neste mundo de grandes gigantes. Ensinou-me tanto, com tão pouco. Deu-me força e animo quando eles se queriam escapar disfarçadamente. E o mais importante: soube ver isso. Pessoas que marcam. :)
O Joao. Grande e com cara de mau. Com quem eu bati logo o pé à chegada. ‘Bem, importa-se que vá ao centro comer uma torrada?’ ‘Mas acabaste de dar entrada no internamento. Enquanto cá estiveres não podes sair daqui.’ ‘Mas apetece-me tanto uma torrada, cheia de manteiga…’ ‘Temos pão…’ ‘Torrada…’ pega em mim e quando eu pensava que me ia mandar uma curva diz-me ‘Estás a ver isto?’ ‘Não estou a ver nada…’ ‘Miuda, temos dois corredores: um esquerdo e um direito. Eu vou pela esquerda. Tu vais pela direita. Não te vou ver sair nem entrar. Para mim, tu vais estar sempre aqui.’ : D
E era sempre ele que me tirava da cama de manhã. ‘Vá miúda, levanta-te, vamos trabalhar’ ‘Ih, oh Joao! São 11 horas!’ ‘Precisamente!’ destapava-me. Olhava com cara de má e ria-me. Ameaçava-me com tratamento de choque, caso não me levantasse, mas nunca lhe dei o gosto de o ter de usar :P
Foi também ele que dois dias depois, me pos meia hora em frente ao espelho. O meu maior medo, naquele dia. E não me largou. Às vezes pergunto se me queria dar equilíbrio ou força. Por ter noção que aquilo ia mexer demasiado cá dentro.
O Miguel. Que raras vezes vi a dizer coisas sérias. x) Entrava-me pelo quarto ‘Oh menina que só ouve Mafalda Veiga, pode parar um bocadinho para lhe fazer a cama?’ ‘Pode-me fazer a cama, claro! Mas eu posso continuar a ouvir a Mafalda.’ ‘Mas assim quando te fores embora, eu vou ficar a saber as músicas todas!’ ‘Já viu? E não é bom?’ ‘Bom, bom é o FCP’ e pronto. Lá a conversa azedava e um dizia mata e o outro esfola. E quando não íamos chatear o Tiaguinho com a mudança de clube. Sportinguista de um lado, tripeiro do outro: puto sofre! : P
A Carla. Colega do Miguel, que aparecia lá todos os dias com uma boa disposição descomunal, sempre com uma tolice na ponta da língua para animar o pessoal e que aos poucos me fui apercebendo da grande pessoa que é ‘Estou cansada, ontem estive a estudar…’ ‘A seriooo? Então e está a estudar para quê?’ ‘Para não ser burra, Aninhas’ : ) e da força grande que tinha.
Aqueles três senhores que lá estavam, que andavam sempre juntos. Tinham as conversas mais disparatadas e uma simpatia descomunal. Que, apesar de saber que fizeram um esforço descomunal, porque ali as horas das novelas da tvi eram as mais aguardadas, mesmo!, deixaram a menina ver os Globos de Ouro (ajudados pelo meu ultra beicinho e um ‘era mesmo importante’ xD)
E claro. O Tiaguinho. O meu puto. O meu menino, eu sei lá. A verdade é que, quem o vê neste vídeo, não tem noção do que ele era (e ainda bem!) e eu por muitas vezes que já o tenha tentado explicar, sei que é impossível para quem não viu, ter a mínima noção.
Confesso que fui uma cobarde no primeiro dia e me ‘escondi’ o tempo todo. Falei-lhe quando cheguei mas, o grau de distonia dele era mesmo qualquer coisa de angustiante. Eu choquei-me mesmo. Só que este rapaz é extraordinário e tem uma capacidade de cativação gigante, para quem quer que seja. E se no dia em que cheguei não o conseguia encarar, no seguinte já não o largava. Deu-me tantas lições de vida. Força. Coragem. É mesmo incrível.
Vê-lo após a cirurgia foi dos maiores momentos que já tive. Tive que me controlar tanto para manter o meu papel de ‘adolescente parva e brincalhona’ e não me desfazer em lágrimas. A diferença foi brutal. Mesmo inacreditável. E ele merecia e acima de tudo precisava tanto.
E eu acredito que ele vai melhorar muito mais, é uma força da natureza. Vai lutar e vai conseguir.
Tem a capacidade de fazer o meu coração gigante quando lhe pergunto quando o vou ver a andar e ele me responde com a maior convicção ‘está quase’ e de me fazer sentir enorme quando ao ver-me esboça aquele maior sorriso do mundo.
A mãe, sobre a qual não vale a pena falar muito. Está sempre. Faz parte. E é tudo para mim.
E é por tudo isto que todas as vezes que o Dr. Rui Vaz me pergunta se valeu a pena, eu não hesito a responder. Valeu. Sempre disse que ia valer mesmo que as melhoras não fossem nenhumas. Tentei. E vou tentar sempre. Ser operada, rapar o cabelo, fazer tudo. As vezes que forem precisas. Porque na minha vida não há espaços para ‘ses’ e quem me conhece sabe disso.
E cada vitoria. Cada passo em frente que dou é tão gratificante. E ter noçao que não são só meus, ainda torna tudo maior. São meus. Da família. Dos médicos. Das fisioterapeutas. Porque são eles que estão e lutam comigo. E ver a emoção. O brilho. Os sorrisos neles. Ter noçao que por vezes acabam por viver cada vitoria mais que eu, é incrível. O ‘não se estar sozinho’ e ter-se consciência disso não tem preço :)