quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Das odisseias.

Ontem fui renovar o cartão de cidadão. É natural, ok. Mas para mim, muito do que é natural transforma-se facilmente numa odisseia. O meu corpo é muito mais teimoso que a dona, portanto, nunca sei se a parte de assinar vai estar despachada em meio minuto ou em três horas… já me aconteceu também não conseguir assinar de todo e, apesar de saber que foi numa situação muito complicada e de até estar lesionada e a morrer de dores, esta memória assombra-me sempre um, bom, bocadinho. Para ajudar decidi que era divertido ter uma insónia, o que para quem nunca tem insónias, é sempre bom. Mas lá fui, sem estar minimamente nervosa – a anestesia de uma noite não dormida afinal, deve ter ajudado nisto. Pelo caminho só me vinha à cabeça uma memória que não devia visitar há um século. O dia em que fui tirar o bilhete de identidade. Já não faço ideia como a coisa funcionava mas, lembro-me que de todos os meus colegas fui das últimas a tirar. Sabia que era importante e, segundo o que eles diziam, uma excitação. Ainda por cima, fui com os meus pais para Lisboa, num dia de escola, portanto, devia mesmo ser uma grande coisa. A minha mãe veio com três cartõezinhos para eu escrever o meu nome (todo. A burocracia deste país sempre a ajudar e a facilitar-me a vida...) nos três para depois escolherem o melhorzinho. A minha mãe foi preencher papeladas e o meu pai ficou a ajudar-me. Lembro-me dele tão feliz e tão nervoso para que tudo corresse bem e eu não ‘sofresse’ muito. Uma memória tão tão querida e amorosa. Na altura, obviamente, não pensei em nada disto mas, lembro-me bem de sentir um quentinho bom na barriga só de o ter ali. Não me lembrava disto há mais de uma eternidade. Ontem, no caminho, quando me lembrei, percebi. Nada se compara com o facto de já não o ter cá. Com a falta que me faz, todos os dias. Todos os problemas que me arranjam. Todas as calúnias. Todas as vezes que não me valorizam. Todas as vezes que me subestimam. Desrespeitam. Tudo passa. São meras ventanias. Podem até fazer estragos, mas passam. O que eu sou, não. O que os importantes fizeram de mim, o valor que um dia me deram, é o que deve ser inabalável. Ao que devo manter-me fiel. E a eles. Sempre.

Ah, e correu tudo bem. Não foi bem meio minuto… mas correu bem.

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