A pior saudade é aquela que se
tem, daquilo que se sabe que não vai voltar a ser. A pior das saudades é a que
já se sabe ser impossível matar. Há saudades que precisam ser mortas e
exterminadas, por nós, para não nos matarem. Para que não sejam elas a dar cabe
do que somos. Há quem diga que as memórias são o bem mais precioso que se pode
guardar. Mas memórias servem para construir e contar histórias. Memórias servem
para que as nossas histórias nunca se percam. Mas nem todas as boas memórias fazem,
necessariamente, parte de uma boa história. E as historias que não nos
acrescentam, não se devem guardar. Porque, quando guardadas, fazem sempre questão
de ser as mais vezes lembradas e recordadas. E o que não nos acrescenta e se
faz presente, que insiste ser presente, só diminui. Só nos pode diminuir.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Incómodos feitos de âncoras.
Num mundo tão grande, é só
imaturo pensar que todas as pessoas nos cabem. É impossível todas terem a nossa
medida. Encaixarem-nos. Há pessoas que nunca nos vão caber. Porque há valores –
esses sim, universais. De forma, universal – muito maiores e mais importantes
que nós. Estes sim, que devem e deveriam caber, em todo o lado. Mas nem toda a
gente os tem. Ou os quis aprender. Quando alguém custa a encaixar-se em nós, às
vezes queremos tanto, que reviramos, contorcemos, esticamos, encolhemos… às
tantas parece que pronto, já está. Serviu. Surge um incómodo, não está
perfeito, mas dá para fazer de conta que sim. Não é nada que nos condicione ou
que não se suporte facilmente. O tramado é que haverá sempre dois tipos de
incómodos. E há incómodos que começam a magoar e acabam em ferida. E depois da
ferida aberta é sempre quando se descobre do quanto há quem seja tóxico. Quem contamine
os princípios e nos inunde com a lixeira que traz por dentro. São tão tristes e
ocos que tudo o que querem é tirar-te tudo, para no final te deixarem vazia.
São como âncoras, que te puxam para baixo, afundam-te e afogam-te, quando tu só
estás a tentar flutuar no oceano da vida. Não passam de lixo, a nadar nos
perfumes mais caros. Mostra-lhes que se podem salvar se, se limparem. Se
lançarem todo aquele lixo para fora. Se lavarem a alma. Mostra-lhes, mas não te
condenes. Se não o aceitarem, deixa-os ir. Ainda que te arranquem algum bem. Se,
se deixou enganar, é porque nunca foi teu e nunca que te soube amar. Lá na
frente ainda te ia fazer tropeçar. Deixa-os ir.
Depois há incómodos, que se
desfazem. Desaparecem, como se nunca tivessem existido. Mas passam a existir,
fazem-se existir, para sempre, em nós. Eles ajeitam-se e fazem-se perfeitos. Acrescentam-nos
e ainda constroem tesouros em nós. Enriquecem-nos, enriquecendo-se, porque
sabem que é partilha. É nosso. É crescente. É presente e futuro. Para sempre.
Os incómodos devem-se sempre suportar. Porque não se sabe. Nem se adivinha. A
ferida, a desilusão, a dor é que nunca se devem tolerar. São âncoras. Nunca vão
deixar de o ser. É deixa-las ir. Se possível, de preferência, fazê-las correr.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Partes-te em nada.
Pobres dos que não se encantam. Dos
que não se demoram. Não se encontram onde se deixam perder. Muitas vezes,
perdermos partes nossas que se sabem encontrar em outros, e, ocupar os espaços
por elas deixados vazios, em nós, com outras partes de alguém, que tão bem
aprendem a fazer morada em quem somos nós, é vida. O que faz valer a pena. Não fomos
feitos para sermos um. Somos feitos para ser com alguém. Feitos para sermos
juntos. E o encanto é a cola que cola as partes e que as faz só uma. Uma que
vale. Que é o que vale. Há partes nossas que são para serem só nossas e que –
se forem coesas e fortes (que devem ser, coesas e fortes!) – nos estruturam,
sustentam e alicerçam. Mas há outras que, em nós nunca serão nada, mas que,
doadas a alguém podem ser um mundo. Inteiro. E nós só nos tornamos inteiros,
quando alguém se deixa construir em nós. Se encanta e se demora em cada parte
nossa. Pobres dos que não se encantam, não se demoram e não se perdem. Nunca se
vão encontrar. Nunca vão descobrir o mundo. E outros mundos noutros. Não se
perdem mas vivem perdidos. Vão sempre viver por partes. Partes que nunca serão
inteiras. Pobre daquele que não se quer inteiro. Que não se faz inteiro. Não se
encanta. Não se cola. É partido. E o triste que isso deve ser. Ser-se partido. Não
se é nada. É-se partes de nada. No fim, partes-te em nada.
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