Pobres dos que não se encantam. Dos
que não se demoram. Não se encontram onde se deixam perder. Muitas vezes,
perdermos partes nossas que se sabem encontrar em outros, e, ocupar os espaços
por elas deixados vazios, em nós, com outras partes de alguém, que tão bem
aprendem a fazer morada em quem somos nós, é vida. O que faz valer a pena. Não fomos
feitos para sermos um. Somos feitos para ser com alguém. Feitos para sermos
juntos. E o encanto é a cola que cola as partes e que as faz só uma. Uma que
vale. Que é o que vale. Há partes nossas que são para serem só nossas e que –
se forem coesas e fortes (que devem ser, coesas e fortes!) – nos estruturam,
sustentam e alicerçam. Mas há outras que, em nós nunca serão nada, mas que,
doadas a alguém podem ser um mundo. Inteiro. E nós só nos tornamos inteiros,
quando alguém se deixa construir em nós. Se encanta e se demora em cada parte
nossa. Pobres dos que não se encantam, não se demoram e não se perdem. Nunca se
vão encontrar. Nunca vão descobrir o mundo. E outros mundos noutros. Não se
perdem mas vivem perdidos. Vão sempre viver por partes. Partes que nunca serão
inteiras. Pobre daquele que não se quer inteiro. Que não se faz inteiro. Não se
encanta. Não se cola. É partido. E o triste que isso deve ser. Ser-se partido. Não
se é nada. É-se partes de nada. No fim, partes-te em nada.
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