quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Partes-te em nada.

Pobres dos que não se encantam. Dos que não se demoram. Não se encontram onde se deixam perder. Muitas vezes, perdermos partes nossas que se sabem encontrar em outros, e, ocupar os espaços por elas deixados vazios, em nós, com outras partes de alguém, que tão bem aprendem a fazer morada em quem somos nós, é vida. O que faz valer a pena. Não fomos feitos para sermos um. Somos feitos para ser com alguém. Feitos para sermos juntos. E o encanto é a cola que cola as partes e que as faz só uma. Uma que vale. Que é o que vale. Há partes nossas que são para serem só nossas e que – se forem coesas e fortes (que devem ser, coesas e fortes!) – nos estruturam, sustentam e alicerçam. Mas há outras que, em nós nunca serão nada, mas que, doadas a alguém podem ser um mundo. Inteiro. E nós só nos tornamos inteiros, quando alguém se deixa construir em nós. Se encanta e se demora em cada parte nossa. Pobres dos que não se encantam, não se demoram e não se perdem. Nunca se vão encontrar. Nunca vão descobrir o mundo. E outros mundos noutros. Não se perdem mas vivem perdidos. Vão sempre viver por partes. Partes que nunca serão inteiras. Pobre daquele que não se quer inteiro. Que não se faz inteiro. Não se encanta. Não se cola. É partido. E o triste que isso deve ser. Ser-se partido. Não se é nada. É-se partes de nada. No fim, partes-te em nada.

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