Eram 7 horas da manhã, de uma
sexta-feira de início de verão: o despertador – velho e insuportável – arrancou
numa chinfrineira capaz de estremecer a camada mais profunda da terra – tudo
para acordar J., que tem a coragem de o suportar e ignorar por uns 10 minutos,
mas que se deixa sempre vencer e acabar derrotada por ele. Aquele dia não foi
diferente: eram 8 da manhã quando saiu de casa munida com o pequeno-almoço e de
determinação vestida; com a certeza de que não voltaria a entrar, ao fim do
dia, sem ter conseguido um trabalho – de preferência (e se dependesse do
tamanho da sua vontade), com o melhor de sempre. Apanhou o comboio e meia hora
depois estava no centro da cidade. De manhã tinha duas entrevistas marcadas num
famoso centro comercial: uma para gerente de uma loja e a outra para vendedora
num pequeno quiosque. Por volta da 1 da tarde o desânimo era tanto que a sopa leve
que trouxera, numa merenda de casa, para almoçar, lhe embrulhava o estomago:
enquanto a vaga de gerente deveria ser ocupada por alguém que tivesse o Ensino
Superior concluído (o seu curso tinha ficado a meio), o dono do quiosque procurava
alguém mais “jovem e desprendido” para o lugar – J. nem percebeu o que ele
queria dizer com isto, mas era um não: mais um. Para a tarde não tinha
conseguido marcar nada então, depois de se ter forçado a engolir a sua sopa,
pôs-se na rua e foi percorrer a cidade – alguma coisa apareceria: ela sabia!
Depois de ter palmilhado todos os cantos de, pelo menos, meia cidade, às 9 da
noite apanhava o comboio de volta para casa. O tamanho do seu desassossego era
tal que lhe era difícil segurar as lagrimas de frustração. NADA – estava
disposta a sujeitar-se a qualquer coisa que aparecesse, mas em vão: parecia não
caber nem servir para nada. Ao entrar em casa, encontrou na mesa da sala um
bilhete da mãe que dizia: “J., amanhã tenho trabalho, de manhã, na casa da
senhora S., por isso fui-me deitar. Tens um pratinho de massa no frigorífico.
Como bem e descansa!!! Beijos da mãe.”. Depois de um profundo suspiro (de quem
ansiava puder cuidar da mãe e dar-lhe o descanso merecido), atirou com mala e
casaco para o sofá, apertou o cabelo e correu para o frigorífico – àquelas
horas já não havia nó na garganta que lhe roubasse a fome. Ao tocar na porta
reparou no papel que lá estava fixado – a mãe fazia sempre questão de deixar os
números do Euromilhões visíveis, para que todos os confirmassem – não fosse
Deus enviar-lhes um anjo que os salvasse e ninguém o ouvisse bater à porta. J.
acreditava mais em Deus do que na sorte: não tinha grande – ou nenhuma - fé na
sorte mas, mais para fazer a vontade à mãe, apostava nos seus “números
especiais” todas as sextas (terça era a vez da mãe). Tirou o seu jantar do frigorífico,
colocou-o a aquecer no velho micro-ondas, encheu um copo de água e foi então
confirmar, mais uma vez, que a sorte também não lhe cabia. Encarou o papel - e gelou.
Piscou os olhos, esforçou-se para focar melhor mas, não tinha dúvidas e nem
precisava de talão que o confirmasse: ela não tinha visto o anjo mas ali, na
sua frente, estavam os seus números especiais (jogados por anos, semana após
semana). Era a vencedora. Preparava-se para comer um prato de esparguete com
atum quando tinha na sua frente um papel - escrito com a letra tremida e
insegura da sua mãe –que lhe dizia que existiam, algures, dezenas de milhões de
euros a gritar por ela. A sua carteira – com umas miseras moedas e que nunca
tinha visto uma nota maior que a de 20 euros – tinha um papel (ligeiramente
amarrotado pelos dias) que a fazia valer milhões – milhares de notas. A vida,
como ela a conhecia, acabava de acabar – nascera uma nova: naquele segundo. E
ela não sabia se ria, se chorava: se ria a chorar. Já não fazia (assim tanto)
mal não ter trabalho. Os pais já não precisavam de trabalhar fora de casa. E a
sua casa brevemente já nem seria aquela. A culpa e os apertos já não a sufocavam.
Estava livre para ser quem era – ou quem quisesse ser. Estava pronta para criar
a vida certa – e para se criar nela.
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