É isso mesmo, valentona! Podes
tudo, não é? Ninguém manda em ti, porque tu és capaz de tudo o que quiseres -
ainda mais daquilo que os outros duvidam que a tua coragem permita. Então vá –
a hora é agora! Apostas-te com meio mundo que eras capaz de te atirar – sem
medos! Aliás, porque terias medo? Medo de quê? Do ar? O ar é nosso – dá-nos
vida. Há que o dominar. Mergulhar. Ele está a nosso favor: tem de estar, não é?
E a água lá em baixo à espera? Deliciosa, claro! Fresquinha – gelada geladinha:
com esse suor sufocante que te envolve agora é, de longe, o que mais precisas
para relaxar. Vá lá, vá! Deixa-te de tretas agora! És sempre capaz de tudo:
nunca te permitiste descobrir grande coisa sobre o que é desistir – vai ser
agora? Por um passo que te vai levar segundos – a sério que te vais armar em
uma menininha indefesa? Agora que tens toda a gente na expectativa lá em baixo?
O que é essa canela de franguinha a tremer? Por favor, tem vergonha –
recompõe-te, vá! Respira fundo. Vamos – com calma - outra vez: inspira e
expira! Sorri: vá, não te dói nada – (pelo menos) ainda! Agora uns passinhos em
direcção à borda da prancha: sem compromisso – só para ver o panorama! É
bonito, vais ver! E não – voltar a descer as escadas não é opção! Tu detestas
escadas – e és uma tropeçona: já viste se te espalhavas aqui ao comprido?
Enquanto te acovardavas e desistias? É só um salto – a vista é incrível e a
água deve estar um gelo de fazer estremecer o mais singelo ossinho do teu
corpo: uma delicia, portanto. Na pior das hipóteses parte as perninhas ou o
pescoço… Ah, pára!!! Já é divagação a mais! E nunca vai acontecer porque…
porque…. vá, tu não mereces! E também não és estupida nenhuma! Sabes
perfeitamente: balanço; um bom apoio; braços e pernas bem esticadas… e sim, o
teu pescoço vai continuar inteiro, juntinho, perfeitinho – que raio de ideia! Já
espreitas-te a piscina: sim, é funda o suficiente – se é para toda a gente,
também é para ti. Vá, chega de pensar: é hora de recuares para dar balanço. Um
passo e outro. Saltas-te!! SALTEI, CARAÇAS! O ar. A água. Fundo. E já voltei à
tona! Meu Deus, quanto tempo durou isto? Um segundo ou uma vida? Outra vida? Eu
fui capaz – sou capaz! Se mergulho – no ar e na água – só me faltar lançar na
vida. De agarrar e ir fundo. E nos entretantos, mais vale ir saltar outra vez –
só para manter a prespectiva que só a adrenalina é capaz de dar e convencer:
não há limites e se alguém ousar em nos criar algum, cabe a nós fazermo-nos
capazes e lança-lo ao fundo. Para voltar à tona basta acreditar: o ar está ali,
à espera - nunca nos vai falhar; e na vida cabe-nos a nós acertar.
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