O dia nascera lindo: o céu estava
limpo e o sol brilhava forte – o que contrastava com o frio, cortante, que se
fazia sentir, num Inverno que ainda agora começara. O dia de Sofia começava praticamente
com o nascer do sol – acordava, tratava de si e só depois, quando a casa já
estava inundada com um cheirinho a café, bem forte, despertava então os amores
da sua vida: o marido e os seus dois filhos. João, o marido, arrastava-se até à
cozinha e engolia, sem chegar a perceber bem como, uma caneca farta de café –
era a única maneira de o fazer despertar. Já verdadeiramente acordado, corria a
arranjar-se – nos seus 15 minutos já habituais – e depois terminava de arranjar
os miúdos – tentando dar a Sofia a calma, possível, para a sua rotina e rituais
de beleza da manhã. Uma hora depois estavam todos sentados à mesa a tomar o
pequeno-almoço e a começar o dia juntos – faziam sempre questão disso. Depois
dos casacos vestidos e bem apertados e muitos beijinhos de bom dia e de
despedida, era Sofia quem levava os filhos à escola. Fazia questão de os deixar
no portão e de lhes desejar um bom dia de aulas e que se divertissem. Naquele dia,
os abraços foram mais apertados e, quando os filhos, a sorrir e ainda com
carinhas de sono, lhe desejaram um bom dia de trabalho, ela acenou e sorriu
enquanto o mundo, dentro dela, estremeceu – e quase lhe ruía. Naquela manhã,
Sofia não ia trabalhar – e ninguém sabia. Há dois meses que andava com uma
picada forte e persistente no peito – na mama direita. Sem ninguém saber tinha
marcado consulta e feito exames – naquela manhã iria mostrá-los ao médico.
Sofia já tinha ido ao laboratório buscar os resultados há dois dias, ainda não
os abrira – mas não por falta de coragem. A sua avó morrera com cancro da mama
e uma das suas tias também. A sua mãe fora diagnosticada há seis anos:
ultrapassara, sobrevivera mas, nunca deixaria de ser uma doente oncológica, nem
um caso de risco. Sofia tinha vivido, lado a lado, o processo com as três:
conhecia bem os sintomas, a doença e tudo o que se seguiria. Já na sala de
espera do consultório, muito inquieta, tremia: não de medo, mas com a certeza.
Dispensava qualquer discurso motivacional; queria só um plano bem traçado, que
a deixasse lutar, não por si, mas pelo seu bem maior: o amor – o marido e os
filhos. De tão armada e preparada para, supostamente, a sua maior batalha, nem
soube como reagir quando o médico lhe disse que tudo estava bem – tudo não
passara de um problema hormonal, com fácil solução. Rapidamente Sofia pode
despedir-se da guerreira e voltar a ser a rainha do seu próprio conto de fadas
– com direito a castelo, rei, príncipe e princesa.
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