E se os dois se tivessem mantido
em silêncio enquanto Bruna acabava de comer. Nenhum sabia muito bem, o que
dizer, por onde ir para conseguir chegar ao outro. Como se pairasse, naquele quarto,
entre os dois, a pelicula de vidro mais fina e frágil, que se pudesse quebrar
com o mais simples movimento inesperado. Como se qualquer palavra, menos certa,
pudesse estilhaçar o ar que os rodeava: e isso era tudo o que eles não queriam –
era tudo o que mais queriam preservar.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
O tempo devia seguir, de mãos
dadas, com o dom da paciência. A vida devia avançar à velocidade dos sonhos. O
coração devia bater, forte, no compasso de cada plano de Deus. Mas os dias vão-se
atropelando e transformando em peças de um puzzle que temos que formar e onde devemos
acertar. É preciso alimentar a alma, porque é ali que nós somos de verdade. É
preciso, tantas vezes, saber reencontrarmo-nos, num qualquer avesso aleatório, para
perceber o verdadeiro sentido: por onde vamos – onde queremos chegar,
permanecer. E com quem.
sábado, 3 de setembro de 2016
Do crescer.
É isto que é crescer? É assim? É
o suposto? É tão estranho. Já lá vão os anos em que fazer anos era uma
excitação. Há já um tempinho que não ligo grande coisa ao assunto. Há dias
perguntaram-me se sentia a depressão da proximidade dos 30. Eu ri-me. Para isso
era preciso sentir-me com 30. Continuo a achar que tenho uns 15 anos –
fartei-me de comentar que não me importava de ter 17 e saber tudo o que sei aos
27 (e como as pessoas me continuam a dar 16, acho que estamos bem). Não que
quisesse mudar decisões – mas adorava poder mudar as minhas reacções a uma série
de situações que me foram aparecendo. Isto de a pessoa não nascer preparada, a
saber e a acertar em tudo – é uma valente seca. Mas é assim, não é? A vida é
uma valente caixinha de surpresas – deve ser para não cansar muito. Não sei se
crescer também é isto – se faz parte – mas ando numa fase em que me aparece uma
Ana nova de 6 em 6 meses. Sabem quando as nossas amigas (as miúdas adoram estas
cenas) nos acusam – no auge da incredulidade e do sofrimento – de termos mudado
e de já não sermos as mesmas? Pois, eu agora percebo isso tudo. É exactamente o
que tenho feito – mas comigo mesma. De repente meteste em situações que seriam,
em tempos, o cúmulo da felicidade e dás por ti no meio de todo um constrangimento,
sem perceber nada. De repente aquela amizade incondicional já não tem nada a
ver contigo, tem um carácter avesso do teu, e dás por ti a correr, que nem uma
louca, há caça de qualquer coisa que vos ligue e que justifique tanto carinho
ou amor. A pessoa nem mudou assim tanto – tu é que agora tens outras
perspectivas e vês até onde não vias antes. Tu é que já não cabes ali. De
repente as músicas ficaram mas as histórias atropelaram-se e tu já nem te
lembras do que te levou àquela melodia – só te lembras do que ela é hoje em ti.
De repente tu percebes que uma série de coisas eram necessárias para chegar até
aqui. De repente percebes que a tua felicidade e o teu valor dependem apenas de
ti. Um dia acordas e és obrigada a conviver com uma desconhecida, com uma
cabeça meio tresloucada, mas interessante; e com um coração fofinho (cheio de
retalhos) mas muito quentinho também – e descobres que até pode ser fixe. E
hoje os teus sonhos são diferentes: porque o teu coração é diferente – e tu
sabes que só tens a agradecer por isso. De repente dás conta que o único que
continua ali, permanece, atura-te e não se assusta -com tanta loucura - é Deus.
Obrigado, Paizinho. Desde que Tu me reconheças sempre, por mim, está tudo bem.
Continua a cuidar de mim, sim? Esta cabecinha tem muitos sonhos e sem Ti eles
de nada me valem. Com todo o amor, a Tua filha.
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Florir.
As pessoas encantam-se, ou
desencantam-se, pelas nossas folhas e pelo nosso florir. Por tudo o que
sugerimos, transparecemos – ou simplesmente parecemos. Nada – nem ninguém – é
assim tão simples. O Outono sempre vem e as pétalas não permanecem para sempre
– as folhas caem e vão. São as raízes que nos sustentam e revelam – são elas
que nos definem. É difícil lidar com todas as nossas raízes – aceita-las e
decifrá-las. Quando as flores se vão, muitos dos que nos rodeiam se perdem: até
nós preferimos, mil vezes, não ver. Mas são elas, as raízes, que nos erguem e
amparam: e, é facto, nem todas as nossas raízes são boas – muitas são as que
resvalam para o tenebroso. É preciso bem mais do que conhecê-las: é preciso,
tantas vezes, mergulhar e ir a fundo. Abrir os olhos para as mil e uma coisas
que preferíamos não saber – quanto mais admitir – sobre quem somos. É preciso
arrancar tudo aquilo que não presta, por mais que – espantosamente – isso nos
possa sustentar. É preciso deixar espaço para tudo o que é bom, e vale a pena,
crescer. É importante saber aquilo que se pode ainda ser, depois de descobrir
que já fomos o que nunca quisemos ou, sequer, imaginámos ser. Podemos sempre
aprender tudo outra vez. E na próxima Primavera não haverá florir mais bonito que
o nosso. (quem se perde no Outono geralmente não resiste a um Inverno mais
rigoroso – perde, assim, a oportunidade de desfrutar da próxima Primavera e de
tudo o que com ela nasce.)
quinta-feira, 28 de julho de 2016
Da loucura ao sonho.
Há dias em que sonhamos demasiado
alto – a ponto de termos das mais duras vertigens. Há dias em que acordamos com
ideias tão inimagináveis, e a léguas do nosso alcance, que nos rimos - tantas
vezes até gargalhar – estupefactos com os níveis de loucura a que a nossa
imaginação pode chegar. O que vale é que tudo passa, a vida continua, e dali a
umas horinhas já nem nos lembramos. Mas… e aquelas ideias que voltam? Uma.
Outra. E outra vez. Sempre? Na verdade, toda a vida me disseram que devia ter
uns quantos parafusos a menos, por isso acho que tudo bem – nada de novo. Ando
com uma ideia dessas na cabeça, a tentar esquecer, e às tantas dei por mim a
pensar: e se este sonho não é meu? Nunca quis nada disto – nada tem a ver
comigo - porquê agora? E lembrei-me de Deus – que é mil vezes maior que nós;
que os sonhos e planos Dele, para cada um, são mil vezes maiores, e melhores
que os nossos. E perguntei-me quantas ideias destas - absurdas aos nossos olhos
e descabidas diante da nossa razão - não poderão vir Dele. O tanto que
ganharíamos se nos víssemos como Ele nos vê? Onde chegaríamos se
acreditássemos, em nós, como Ele acredita? E se estes sonhos, mais loucos,
forem a forma de Deus provocar isto mesmo? E se for esta a forma que Ele
arranja para nos vermos, nem que seja só por um bocadinho, com os Seus olhos? A
forma de Deus mostrar que é capaz de destruir qualquer limite, ou barreira,
desde que confiemos e vivamos no centro da sua vontade? De mostrar que nos faz
uns gigantes, se preciso, desde que o caminho seja sempre Ele e todo para Ele? Ah,
deixem-me ser louca (e cheia de certezas).
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Nação valente.
Meu Ro, a memória de te ver chorar, sentado
no campo, em 2004, é tão tão presente, que ontem, quando te vi, mais uma vez
sentado, como um menino perdido, não consegui acreditar. Não era possível.
Ontem era o dia de uma nação inteira, é certo; era O momento importante para
todo um país. Mas, enquanto 11 milhões nada podiam fazer, tu estavas ali:
estava ao teu alcance; era o teu sonho; tudo o que mais querias – e, porra,
tiraram-te isso. Não era justo – não foi. E veio então aquela borboleta (pssst,
não me venham cá dizer que era uma traça – pela vossa saúde!) beijar-te as lágrimas
– como que num toque divino – e foi então que me virei para Deus. Não gosto de
o meter em nada que tenha a ver com emoções – porque sei que Ele é muito maior
que isso e tem bem mais que fazer – mas também sei que Ele, acima de tudo, é
justo. Então – timidamente e com o maior respeito do mundo – pedi-Lhe apenas
que fizesse justiça: e depois se achasse por bem dar-vos um empurrãozinho…
pronto, ok, também era fixe. Então descansei (vá, tentei. Porque ver em campo
12 contra 11 é coisa que me mexe com os nervos. Injustiça é coisa que me mexe
com o estômago.) para mim já eram enormes, só por estarem ali! Mas havia um
país inteiro à espera de se fazer numa nação vencedora: que acreditava, quando
mais ninguém achava possível - Portugal inteiro merecia! A equipa inteira
merecia (mais que a França, SIM! Óbvio! Mil vezes mais!)! E tu merecias –
depois de tudo – mais do que nunca! Íamos ganhar – fosse pelo que fosse! E
cumpriu-se. O sonho estava ali – e é nosso. Somos campeões! Vocês fizeram uma
nação inteira campeã enquanto se faziam enormes! Meu capitão, já não te falta
nada! Tiveste bem mais de 11 milhões a sentir as tuas dores, a chorar as tuas
lágrimas e sempre – e ainda mais – orgulhosos por te ter como um dos nossos.
Parabéns e obrigado por não abandonares o barco e continuares a dar-lhe sentido;
obrigado por continuares dentro, de alguma maneira, quando todos os outros te
queriam e te viam fora. Obrigado Fernando Santos, pela fé, por ver até onde ninguém
via e ter acreditado, sem duvidar – quando tantos momentos lhe podiam ter
mostrado o contrário – até ao fim. Fé é fé. Obrigado Patrício, por te teres
feito tantas vezes um gigante para guardar aquelas redes. Obrigado Pepe por
teres jogado neste Europeu como não me lembro de te ter visto jogar antes. Obrigado
Renato porque aposto que este mês não teve nada de fácil: porque deviam ser
tantas as vozes contra e tu, não só não ouviste nenhuma, como as soubeste calar
a todas. És grande e a partir daqui é só crescer! Obrigado Quaresma por não papares
grupos (demasiado cliché - eu sei - desculpem, mas tinha que ser!)! Obrigado
Eder, por teres acreditado e visto o que poucos, ou quase ninguém via! Obrigado
Anthony Lopes, Eduardo, Cedric, Vieirinha, Bruno Alves, José Fonte, Pepe, Ricardo
Carvalho, Eliseu, Raphael Guerreiro, André Gomes, Adrien, Danilo, João Mário, João
Moutinho, William Carvalho, Nani, Rafa, TODOS E MAIS QUEM FOR! Fizeram uma nação
inteira campeã (e como é bonito ver o mundo inteiro a celebrar e reconhecer o
meu país) e uma miúda tonta, que adora futebol e fica maluca com a seleção, tão
feliz ao ponto de escrever um texto enorme só à conta da bola. Não vi o que o
selecionador respondeu ao jornalista que lhe perguntou se acreditava que
seriamos, daqui a quatro anos, capazes de repetir o feito: eu responderia que
sim – seja daqui a quatro ou daqui a dois anos. Hoje SOMOS CAMPEÕES. Hoje PODEMOS
TUDO. Amanhã, já sabemos: é lutar e perseguir tudo aquilo em que se acredita. O
sonho nasce dentro de nós: cabe a cada um saber agarra-lo. Vocês souberam e
fizeram história na história de 11 milhões. O caneco é nosso!!! Parabéns,
miúdos! Boas férias!
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Caminhos de encaixe.
A vida devia trazer um livro de instruções
- ou vários - ou, sei lá, pelo menos uma lista de 10 - ou 100, vá - dicas de sobrevivência.
É impossível não se planear um amanhã, não se fazer um plano – por mínimo (ou a
curto prazo) que seja. Mas é em vão: ou só estupido. O futuro nunca é – raramente
se apresenta – como o imaginámos. O que não tem que ser mau – pode até ser das
melhores coisas da vida. Mas isto coloca de lado as certezas: aborta com tudo o
que hoje temos como certo. Isto faz-me tudo muita confusão, sobretudo, no que
diz respeito às pessoas. É absolutamente inexplicável como uma pessoa que um
dia já te foi tudo, hoje pode não te ser nada. Nada. Ok, acho que vou sempre
ter um respeito enorme, e sem medida, por toda e qualquer pessoa que tenha, um
dia, feito parte da minha vida. E um carinho, também, descomunal. Sou capaz de
jurar que isto não muda. Mas para além disto… nada. E arrepia. É certo, a
maioria dessas pessoas já me desiludiu, um dia, de alguma forma - umas mais,
outras menos, profundas – mas, juro que não é por aí. Em mim, as feridas e as mágoas,
não duram mais que dias: saram e passam-me muito depressa. Até me esqueço. Mas há
coisas que se quebram e que não há como reaver – ou colar. Eu “adorava” poder
acusar essas pessoas de se terem virado do avesso: de terem mudado a ponto de
se terem tornado noutra pessoa. Mas não posso porque, no fundo, eu sei que elas
sempre estiveram lá, assim: eu é que nunca as soube ver – ou nunca quis. Eu é
que mudei – é verdade (graças a Deus, que é verdade!) - e elas já não me cabem
mais. Há vidas que não são compatíveis. Há quem se sobreponha, a todos os
outros, e tenha uma tremenda dificuldade em respeitar quem quer que seja – e eu
não quero ter que saber lidar com isso com naturalidade (como já soube). Há quem
acredite no inacreditável (no que é mau) e baseie a vida nisso: e eu, por mais
que respeite, como diz a música, só quero paz! E há, simplesmente, vidas sem
pontos que se liguem – ainda que exista vontade. E é constrangedor estar diante
de alguém que já soubeste ler, de canto a canto - do avesso, se preciso – e não
o conheceres. É tão assustador (quanto necessário). Como é que te desfazes de
uma ilusão que tu própria criaste? E como distinguir se entretanto não criaste ilusões
novas e nem te deste conta? E se quem te faz – tantas vezes, tão feliz – por dentro,
estiver longe de te pertencer e te construir, de facto? Ah, é entregar a Deus e
confiar! Viver e sustentar, muito bem, tudo o que te faz vivo e feliz – para nunca
se perder! Além disso, nada é certo, tudo muda. As linhas que hoje não se
cruzam podem, um dia, vir a entrelaçar-se. Aquilo que hoje não cabe, um dia
pode vir a completar. A vida é curta, mas sobra tempo para muita coisa.
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