O mar estava
agressivo – como se gritasse – e a sua agitação era impressionante; forte, com
alta capacidade destruidora, acalmá-lo era impossível: como se só conhecesse
revolta. Tremendamente, sem se cansar, abrandar, arrastava o que ousava
fazer-lhe frente – sem remorsos – afundando-o. O inverno começara: agora seria
a doer! Ele não conhecia piedade, era duro, de natureza livre e independente –
de carácter forte – nada o domava; até tentavam mas, como conseguir? Todos
sabiam (ainda tentando negar), que ali era senhor – contra quem for… Ninguém,
nem Deus, conseguiria fazer com que parasse. Ali era soberano: dominador de
tudo quanto rodeava, era quem decidia, cabia-lhe a si; abrandar, escutar outras
necessidades, saber daqueles cujas vidas dele dependiam – que sempre o
respeitaram -, ou ir com o vento, seguir-lhe a força, a vontade: ninguém o
poderia julgar, ele controlava. Ninguém o enfrentava. Não ousariam porque
temiam-no – conheciam-se há muito – entendendo que só podiam respeitar;
temperamental, mas presente e sempre provedor, nunca lhes falhara: garantia-lhes
sustento e a sobrevivência. Imprevisível, por vezes revolto, inconstante, era
com quem podiam contar – sem duvidar – sempre. Assim foram ensinados: o mar era
vida! Lançavam-se nos seus braços, para que, quem amavam pudesse viver bem; aquele
fora o destino traçado – não o questionavam – cabia-lhes assim viver; uma vez
decidido, que temer? Tudo acalmaria (mesmo sem previsão), era questão de tempo
– ou de fé… Sabiam, sem garantias, que o sol brilharia. Ainda que demorasse: a abundância havia de chegar, mesmo sem data, não podia tardar; confiavam, sem
ansiedade ou medo, sem precisar de rosto ou nome – bastava-lhes a própria
certeza-, nada falha quando se confia, quando se acredita, não pode: a esperança
pode conquistar, ir além. Parar até tempestades.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
sexta-feira, 17 de abril de 2015
Com a força da corrente...
Era quarta-feira e o último dia
daquele mês. Havia já algumas semanas, a Rita e o João tinham combinado
encontrarem-se para matar saudades de um hábito antigo. Os dois tinham, por
norma, direito a um dia de folga por mês; numa conversa casual no facebook –
acontecimento raríssimo há já uns pares de meses – combinaram ir fazer surf,
como antigamente. Na verdade, tratou-se quase de uma intimação: a Rita, embora
adorasse assistir e fosse até bastante apreciadora, não era propriamente dotada
ou capacitada no que diz respeito a manter-se em cima de uma prancha; mas,
sabendo que para o João a proposta de uma “surfada” seria irresistível (mesmo com
uma companhia patética), não hesitou em alicia-lo com a proposta, ainda que com
o seu tom autoritário. Conheceram-se na escola - há muito mais anos do que
gostavam de admitir- mas a vida transformara-se em distâncias: até
incompreendidas. A amizade manteve-se e com ela mantiveram-se também o carinho
e o cuidado que se iam manifestando ocasionalmente; ainda que fosse com rápidas
conversas, pequenas mensagens, trocas banais de bonecadas tontas, eram uma
contante: mais como uma presença ausente ou não declarada. E, agora, o João não
estava bem; mesmo sem que lhe dissesse nada, os sinais estavam lá, eram evidentes
e a Rita sabia - daí ter-lhe proposto este encontro. Na verdade, até lhe custou
acreditar quando ele o aceitara tão facilmente, sem desculpas, pendencias ou
condições; mas também não se iludia, sabia bem o que podia esperar dali e uma
resposta assim tão pronta só podia ter um de dois sentidos: ou se esqueceria do
combinado mais rápido do que o aceitara, ou o caso era mesmo sério ao ponto do
João precisar de um bom desabafo – coisa rara para alguém com aquele nível de
feitiozinho. Para não lhe dar sequer qualquer manobra de escapatória, desta vez,
a Rita combinou apanha-lo em casa. Estava a bater-lhe à porta cinco minutos
depois do combinado – sabia que o amigo não era o maior exemplo ou fã de
pontualidade e quis dar-lhe uma abébia -, ainda assim não se surpreendeu quando
a figura lhe abriu a porta (depois de insistir em tocar umas três ou quatro
vezes) de boxers e com o ar mais ensonado da história: quando já passava há
muito do meio-dia. Esquecera-se – decerto na esperança de que ela se tivesse
esquecido também-, nada de novo. Quantas e quantas outras coisas já tinham sido
desmarcadas, tantas vezes em cima da hora: no último minuto. Mas desta vez a
Rita estava decidida – não havia desculpas nem possibilidade de fuga. O João
ainda se fez esquecido e ironicamente desentendido; mas era como se tivesse
percebido a determinação dela- ou como se desta vez, ainda que de forma
inconsciente, não quisesse de todo fugir. O João cedeu, arranjou-se
rapidamente, e foram os dois à procura das ondas – do mar ou da vida: porque há
alturas em que o destino se decide com a força da corrente.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
terça-feira, 14 de abril de 2015
Encontros tropeçados.
Há tantos encontros errados,
que mesmo sendo juntos,
nunca conseguiriam ter
o valor de um tropeço acertado.
Há encontros destinados
a ser desencontrados.
E há tropeços que nos acertam.
E que se acertam. A ser.
Em nós.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
quinta-feira, 2 de abril de 2015
o medo - no jogo.
O medo estava ali, presente - tal
qual uma pessoa caminhava, lado a lado, com ela. Ela só pensava em gritar, em
por cá para fora tudo o que a corroía compulsiva e insistentemente - por
dentro, nas entranhas, onde mais ninguém alcança; onde até ela quase não pode
chegar -, mas era como se a observasse de perto e lhe ordenasse silêncio. Fazia
parte do jogo; um jogo com dois únicos jogadores – ela e o medo- e ela sabia-o
bem. Todo o medo, receio e angustias que armazenou e alimentou por tanto tempo
– tempo demais -, estavam agora ali, munidos de todas armas, diante dela,
prontos a derrubá-la num só golpe, numa só jogada. Chegara a hora de ser mais
forte, maior, mais capaz e vencer-se a si mesma; mesmo quando tudo em si
gritava que não podia, não era capaz, nunca conseguiria – ela sabia que sim,
tinha em si toda a força e ainda uma maior vontade, ia fazê-lo, ia conseguir
vencer. Agora, o medo teria que ser apresentado ao silêncio - que o dominaria,
se possível, por toda uma eternidade -, e conformar-se com a sua superioridade.
Porque se o medo tinha como trunfo os seus pontos fracos, as suas falhas e
vergonhas, as suas grandes armas seriam toda a coragem e toda a certeza; nem
sempre o jogador mais forte vence o jogo, muitas vezes a persistência e a fé
vão além, constroem o impossível. Aquele era o seu jogo, era ela quem o
controlava e agora que percebera isso- ela acreditava.
Subscrever:
Comentários (Atom)
.jpg)