quinta-feira, 30 de abril de 2015

Mar em força.

O mar estava agressivo – como se gritasse – e a sua agitação era impressionante; forte, com alta capacidade destruidora, acalmá-lo era impossível: como se só conhecesse revolta. Tremendamente, sem se cansar, abrandar, arrastava o que ousava fazer-lhe frente – sem remorsos – afundando-o. O inverno começara: agora seria a doer! Ele não conhecia piedade, era duro, de natureza livre e independente – de carácter forte – nada o domava; até tentavam mas, como conseguir? Todos sabiam (ainda tentando negar), que ali era senhor – contra quem for… Ninguém, nem Deus, conseguiria fazer com que parasse. Ali era soberano: dominador de tudo quanto rodeava, era quem decidia, cabia-lhe a si; abrandar, escutar outras necessidades, saber daqueles cujas vidas dele dependiam – que sempre o respeitaram -, ou ir com o vento, seguir-lhe a força, a vontade: ninguém o poderia julgar, ele controlava. Ninguém o enfrentava. Não ousariam porque temiam-no – conheciam-se há muito – entendendo que só podiam respeitar; temperamental, mas presente e sempre provedor, nunca lhes falhara: garantia-lhes sustento e a sobrevivência. Imprevisível, por vezes revolto, inconstante, era com quem podiam contar – sem duvidar – sempre. Assim foram ensinados: o mar era vida! Lançavam-se nos seus braços, para que, quem amavam pudesse viver bem; aquele fora o destino traçado – não o questionavam – cabia-lhes assim viver; uma vez decidido, que temer? Tudo acalmaria (mesmo sem previsão), era questão de tempo – ou de fé… Sabiam, sem garantias, que o sol brilharia. Ainda que demorasse: a abundância havia de chegar, mesmo sem data, não podia tardar; confiavam, sem ansiedade ou medo, sem precisar de rosto ou nome – bastava-lhes a própria certeza-, nada falha quando se confia, quando se acredita, não pode: a esperança pode conquistar, ir além. Parar até tempestades.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Com a força da corrente...

Era quarta-feira e o último dia daquele mês. Havia já algumas semanas, a Rita e o João tinham combinado encontrarem-se para matar saudades de um hábito antigo. Os dois tinham, por norma, direito a um dia de folga por mês; numa conversa casual no facebook – acontecimento raríssimo há já uns pares de meses – combinaram ir fazer surf, como antigamente. Na verdade, tratou-se quase de uma intimação: a Rita, embora adorasse assistir e fosse até bastante apreciadora, não era propriamente dotada ou capacitada no que diz respeito a manter-se em cima de uma prancha; mas, sabendo que para o João a proposta de uma “surfada” seria irresistível (mesmo com uma companhia patética), não hesitou em alicia-lo com a proposta, ainda que com o seu tom autoritário. Conheceram-se na escola - há muito mais anos do que gostavam de admitir- mas a vida transformara-se em distâncias: até incompreendidas. A amizade manteve-se e com ela mantiveram-se também o carinho e o cuidado que se iam manifestando ocasionalmente; ainda que fosse com rápidas conversas, pequenas mensagens, trocas banais de bonecadas tontas, eram uma contante: mais como uma presença ausente ou não declarada. E, agora, o João não estava bem; mesmo sem que lhe dissesse nada, os sinais estavam lá, eram evidentes e a Rita sabia - daí ter-lhe proposto este encontro. Na verdade, até lhe custou acreditar quando ele o aceitara tão facilmente, sem desculpas, pendencias ou condições; mas também não se iludia, sabia bem o que podia esperar dali e uma resposta assim tão pronta só podia ter um de dois sentidos: ou se esqueceria do combinado mais rápido do que o aceitara, ou o caso era mesmo sério ao ponto do João precisar de um bom desabafo – coisa rara para alguém com aquele nível de feitiozinho. Para não lhe dar sequer qualquer manobra de escapatória, desta vez, a Rita combinou apanha-lo em casa. Estava a bater-lhe à porta cinco minutos depois do combinado – sabia que o amigo não era o maior exemplo ou fã de pontualidade e quis dar-lhe uma abébia -, ainda assim não se surpreendeu quando a figura lhe abriu a porta (depois de insistir em tocar umas três ou quatro vezes) de boxers e com o ar mais ensonado da história: quando já passava há muito do meio-dia. Esquecera-se – decerto na esperança de que ela se tivesse esquecido também-, nada de novo. Quantas e quantas outras coisas já tinham sido desmarcadas, tantas vezes em cima da hora: no último minuto. Mas desta vez a Rita estava decidida – não havia desculpas nem possibilidade de fuga. O João ainda se fez esquecido e ironicamente desentendido; mas era como se tivesse percebido a determinação dela- ou como se desta vez, ainda que de forma inconsciente, não quisesse de todo fugir. O João cedeu, arranjou-se rapidamente, e foram os dois à procura das ondas – do mar ou da vida: porque há alturas em que o destino se decide com a força da corrente.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Digam-me que é normal ficar a escrever até agora e ter o que fazer não tarda muito… vá, fui!

terça-feira, 14 de abril de 2015

Encontros tropeçados.

Há tantos encontros errados,
que mesmo sendo juntos,
nunca conseguiriam ter
o valor de um tropeço acertado.

Há encontros destinados
a ser desencontrados.
E há tropeços que nos acertam.
E que se acertam. A ser.

Em nós.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

quinta-feira, 2 de abril de 2015

o medo - no jogo.

O medo estava ali, presente - tal qual uma pessoa caminhava, lado a lado, com ela. Ela só pensava em gritar, em por cá para fora tudo o que a corroía compulsiva e insistentemente - por dentro, nas entranhas, onde mais ninguém alcança; onde até ela quase não pode chegar -, mas era como se a observasse de perto e lhe ordenasse silêncio. Fazia parte do jogo; um jogo com dois únicos jogadores – ela e o medo- e ela sabia-o bem. Todo o medo, receio e angustias que armazenou e alimentou por tanto tempo – tempo demais -, estavam agora ali, munidos de todas armas, diante dela, prontos a derrubá-la num só golpe, numa só jogada. Chegara a hora de ser mais forte, maior, mais capaz e vencer-se a si mesma; mesmo quando tudo em si gritava que não podia, não era capaz, nunca conseguiria – ela sabia que sim, tinha em si toda a força e ainda uma maior vontade, ia fazê-lo, ia conseguir vencer. Agora, o medo teria que ser apresentado ao silêncio - que o dominaria, se possível, por toda uma eternidade -, e conformar-se com a sua superioridade. Porque se o medo tinha como trunfo os seus pontos fracos, as suas falhas e vergonhas, as suas grandes armas seriam toda a coragem e toda a certeza; nem sempre o jogador mais forte vence o jogo, muitas vezes a persistência e a fé vão além, constroem o impossível. Aquele era o seu jogo, era ela quem o controlava e agora que percebera isso- ela acreditava.