O mar estava
agressivo – como se gritasse – e a sua agitação era impressionante; forte, com
alta capacidade destruidora, acalmá-lo era impossível: como se só conhecesse
revolta. Tremendamente, sem se cansar, abrandar, arrastava o que ousava
fazer-lhe frente – sem remorsos – afundando-o. O inverno começara: agora seria
a doer! Ele não conhecia piedade, era duro, de natureza livre e independente –
de carácter forte – nada o domava; até tentavam mas, como conseguir? Todos
sabiam (ainda tentando negar), que ali era senhor – contra quem for… Ninguém,
nem Deus, conseguiria fazer com que parasse. Ali era soberano: dominador de
tudo quanto rodeava, era quem decidia, cabia-lhe a si; abrandar, escutar outras
necessidades, saber daqueles cujas vidas dele dependiam – que sempre o
respeitaram -, ou ir com o vento, seguir-lhe a força, a vontade: ninguém o
poderia julgar, ele controlava. Ninguém o enfrentava. Não ousariam porque
temiam-no – conheciam-se há muito – entendendo que só podiam respeitar;
temperamental, mas presente e sempre provedor, nunca lhes falhara: garantia-lhes
sustento e a sobrevivência. Imprevisível, por vezes revolto, inconstante, era
com quem podiam contar – sem duvidar – sempre. Assim foram ensinados: o mar era
vida! Lançavam-se nos seus braços, para que, quem amavam pudesse viver bem; aquele
fora o destino traçado – não o questionavam – cabia-lhes assim viver; uma vez
decidido, que temer? Tudo acalmaria (mesmo sem previsão), era questão de tempo
– ou de fé… Sabiam, sem garantias, que o sol brilharia. Ainda que demorasse: a abundância havia de chegar, mesmo sem data, não podia tardar; confiavam, sem
ansiedade ou medo, sem precisar de rosto ou nome – bastava-lhes a própria
certeza-, nada falha quando se confia, quando se acredita, não pode: a esperança
pode conquistar, ir além. Parar até tempestades.
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