sexta-feira, 17 de abril de 2015

Com a força da corrente...

Era quarta-feira e o último dia daquele mês. Havia já algumas semanas, a Rita e o João tinham combinado encontrarem-se para matar saudades de um hábito antigo. Os dois tinham, por norma, direito a um dia de folga por mês; numa conversa casual no facebook – acontecimento raríssimo há já uns pares de meses – combinaram ir fazer surf, como antigamente. Na verdade, tratou-se quase de uma intimação: a Rita, embora adorasse assistir e fosse até bastante apreciadora, não era propriamente dotada ou capacitada no que diz respeito a manter-se em cima de uma prancha; mas, sabendo que para o João a proposta de uma “surfada” seria irresistível (mesmo com uma companhia patética), não hesitou em alicia-lo com a proposta, ainda que com o seu tom autoritário. Conheceram-se na escola - há muito mais anos do que gostavam de admitir- mas a vida transformara-se em distâncias: até incompreendidas. A amizade manteve-se e com ela mantiveram-se também o carinho e o cuidado que se iam manifestando ocasionalmente; ainda que fosse com rápidas conversas, pequenas mensagens, trocas banais de bonecadas tontas, eram uma contante: mais como uma presença ausente ou não declarada. E, agora, o João não estava bem; mesmo sem que lhe dissesse nada, os sinais estavam lá, eram evidentes e a Rita sabia - daí ter-lhe proposto este encontro. Na verdade, até lhe custou acreditar quando ele o aceitara tão facilmente, sem desculpas, pendencias ou condições; mas também não se iludia, sabia bem o que podia esperar dali e uma resposta assim tão pronta só podia ter um de dois sentidos: ou se esqueceria do combinado mais rápido do que o aceitara, ou o caso era mesmo sério ao ponto do João precisar de um bom desabafo – coisa rara para alguém com aquele nível de feitiozinho. Para não lhe dar sequer qualquer manobra de escapatória, desta vez, a Rita combinou apanha-lo em casa. Estava a bater-lhe à porta cinco minutos depois do combinado – sabia que o amigo não era o maior exemplo ou fã de pontualidade e quis dar-lhe uma abébia -, ainda assim não se surpreendeu quando a figura lhe abriu a porta (depois de insistir em tocar umas três ou quatro vezes) de boxers e com o ar mais ensonado da história: quando já passava há muito do meio-dia. Esquecera-se – decerto na esperança de que ela se tivesse esquecido também-, nada de novo. Quantas e quantas outras coisas já tinham sido desmarcadas, tantas vezes em cima da hora: no último minuto. Mas desta vez a Rita estava decidida – não havia desculpas nem possibilidade de fuga. O João ainda se fez esquecido e ironicamente desentendido; mas era como se tivesse percebido a determinação dela- ou como se desta vez, ainda que de forma inconsciente, não quisesse de todo fugir. O João cedeu, arranjou-se rapidamente, e foram os dois à procura das ondas – do mar ou da vida: porque há alturas em que o destino se decide com a força da corrente.

Sem comentários:

Enviar um comentário

sussurros