Era quarta-feira e o último dia
daquele mês. Havia já algumas semanas, a Rita e o João tinham combinado
encontrarem-se para matar saudades de um hábito antigo. Os dois tinham, por
norma, direito a um dia de folga por mês; numa conversa casual no facebook –
acontecimento raríssimo há já uns pares de meses – combinaram ir fazer surf,
como antigamente. Na verdade, tratou-se quase de uma intimação: a Rita, embora
adorasse assistir e fosse até bastante apreciadora, não era propriamente dotada
ou capacitada no que diz respeito a manter-se em cima de uma prancha; mas,
sabendo que para o João a proposta de uma “surfada” seria irresistível (mesmo com
uma companhia patética), não hesitou em alicia-lo com a proposta, ainda que com
o seu tom autoritário. Conheceram-se na escola - há muito mais anos do que
gostavam de admitir- mas a vida transformara-se em distâncias: até
incompreendidas. A amizade manteve-se e com ela mantiveram-se também o carinho
e o cuidado que se iam manifestando ocasionalmente; ainda que fosse com rápidas
conversas, pequenas mensagens, trocas banais de bonecadas tontas, eram uma
contante: mais como uma presença ausente ou não declarada. E, agora, o João não
estava bem; mesmo sem que lhe dissesse nada, os sinais estavam lá, eram evidentes
e a Rita sabia - daí ter-lhe proposto este encontro. Na verdade, até lhe custou
acreditar quando ele o aceitara tão facilmente, sem desculpas, pendencias ou
condições; mas também não se iludia, sabia bem o que podia esperar dali e uma
resposta assim tão pronta só podia ter um de dois sentidos: ou se esqueceria do
combinado mais rápido do que o aceitara, ou o caso era mesmo sério ao ponto do
João precisar de um bom desabafo – coisa rara para alguém com aquele nível de
feitiozinho. Para não lhe dar sequer qualquer manobra de escapatória, desta vez,
a Rita combinou apanha-lo em casa. Estava a bater-lhe à porta cinco minutos
depois do combinado – sabia que o amigo não era o maior exemplo ou fã de
pontualidade e quis dar-lhe uma abébia -, ainda assim não se surpreendeu quando
a figura lhe abriu a porta (depois de insistir em tocar umas três ou quatro
vezes) de boxers e com o ar mais ensonado da história: quando já passava há
muito do meio-dia. Esquecera-se – decerto na esperança de que ela se tivesse
esquecido também-, nada de novo. Quantas e quantas outras coisas já tinham sido
desmarcadas, tantas vezes em cima da hora: no último minuto. Mas desta vez a
Rita estava decidida – não havia desculpas nem possibilidade de fuga. O João
ainda se fez esquecido e ironicamente desentendido; mas era como se tivesse
percebido a determinação dela- ou como se desta vez, ainda que de forma
inconsciente, não quisesse de todo fugir. O João cedeu, arranjou-se
rapidamente, e foram os dois à procura das ondas – do mar ou da vida: porque há
alturas em que o destino se decide com a força da corrente.
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