segunda-feira, 29 de junho de 2015

v. 2

Carlos não tinha conseguido dormir: dera voltas intermináveis na cama, e nada. Farto, resolveu levantar-se: vestiu uns calções, passou pela cozinha, onde pegou num pacote de leite e numa maçã, e dirigiu-se até à praia, do outro lado da estrada. Tomou o pequeno-almoço sozinho, junto ao mar. Quando terminou, decidiu correr, para contrariar o vento cortante que ainda se fazia sentir. Enquanto corria tentava, na sua cabeça, organizar todo o seu dia. Só parou de correr quando acreditou ter o dia inteiro planejado até à hora a que devia voltar a por a chave na porta de casa, para a abrir. No fim da corrida, atirou-se ao mar para tomar um banho gelado, que o deixasse – pelo menos com ar – desperto e pronto a enfrentar um novo dia. Voltou a casa, tomou um duche e mascarou-se com o seu fato chato de executivo sério. Terminou de organizar a sua pasta e deu um beijo carinhoso e suave às mulheres da sua vida: a mulher e a filha. Enquanto se despedia, com um último olhar, desejou, no coração, que elas soubessem o quanto as amava.

domingo, 28 de junho de 2015

v.1

Ali estava Carlos, com uma mesa incrível de pequeno-almoço, junto ao mar de uma praia paradisíaca: sozinho – como era sempre. Um homem bem-sucedido, de uma inteligência imensa e com uma perspicácia crua e astuta. Tinha o que queria e chegava sempre onde se projectava - Mas era nu em afectos. Simpático e sempre cordialmente bem-educado, era incapaz de gerar empatia por quem fosse. Ninguém era suficiente interessante ou inquietante: as mulheres eram sempre demasiado perto. Nenhuma o desafiava mais que as suas próprias metas; nenhuma valia mais do que um par de horas de atenção. Carlos era vazio de um coração, que para ele não passava de uma bomba: uma máquina que o mantinha vivo e que lhe permitia ganhar sempre mais e ir mais longe – isso chegava-lhe. Bastava-lhe olhar para aquela praia, deserta e inacessível, e sentir que podia comprar a sua paz. Ser alguém era ser superior. Ter paz era pagar por horas de silêncio. E ele perdia-se sem saber: e, sendo sozinho, nunca ninguém o iria procurar. Um dia aquela paz, seria o seu inferno.

sábado, 27 de junho de 2015

No último dia daquela lua-de-mel paradisíaca, Inês olhava a piscina - a que o quarto tinha acesso -, o mar ao fundo, e namorava o sol a pôr-se. Mal conseguia acreditar que tudo aquilo era real. O homem que amava estava a dormir, ali, a passos, na cama e era seu: seu marido. Orgulhosa, feliz, apaixonada, namorou-o com o olhar no embalo das suas respirações, serenamente profundas, de quem está a ter um sonho bom. Sem conseguir resistir mais, aproximou-se e enroscou-se nele. Descansava a cabeça junto ao peito de amor quando se sentiu observada. Trocaram um olhar completo, entrelaçaram-se num sorriso e perderam-se num beijo quente – que pode muito bem ter durado uma vida inteira. A vida do seu amor.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sempre teve o impulso dos voos: em criança quis ser borboleta colorida, quando cresceu passou a correr atrás de aviões – voos que a levassem até onde a novidade morava, quando a novidade acabava, voltava. Hoje ia realizar mais um sonho em voo: saltar de asa delta. Nervosa, mas feliz, ia com vontade de morder o mundo. Ia saltar com um amigo do irmão: o mais giro de todos, que nuca lhe tinha ligado nenhuma. Prepararam-se e correram a saltar. Em pleno voo, olharam-se e ela roubou-lhe um beijo, deixando-o sem fôlego. Surpreendentemente, de seguida, ele declarou-se dizendo-lhe: “o céu pode ser nosso. Fica comigo - acredita: podemos ser para sempre.” E, em meio à imensidão do céu, lançaram-se ao infinito - dispostos a fazerem-se donos dele.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Eram 7 da manhã quando o despertador tocou e a acordou: ainda se enrolou nos lençóis e afundou na almofada, mas sabia que não adiantava - 6 minutos depois já estava no duche. Assim que o terminou, engoliu o pequeno-almoço, vestiu uma roupa - usada já em algum dia dessa semana - que estava em cima da cama, e correu para o metro. Saiu na quarta estação, subiu as escadas e ao chegar à rua ouviu alguém a chamar o seu nome: João, o namorado, vinha a chegar de skate. Embalada pelo costume, ele mal precisou de parar: Rita subiu-se também no skate, deu-lhe um beijo de bom dia (acrobacias que só os dois sabiam fazer e manobrar) e seguiram juntos até à faculdade, ao fundo da rua.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Naquela tarde, Carlos chegou atrasado: bateu à porta e, assim que ouviu uma resposta afirmativa, entrou – bastante suado e muito vermelho - tendo tropeçado no caixote do lixo que está logo à entrada e ido também contra o quadro à direita. Pediu desculpa e, ao som de uma série de gargalhadas sufocadas dos colegas, dirigiu-se até ao seu lugar na mesa. De seguida, o director levantou-se e deu início à reunião. Carlos dava graças a Deus por ser o segundo e não o primeiro a ter que intervir: as suas pernas tremiam e a sua respiração estava ainda irregular. Para se acalmar procurava prestar atenção na exposição do colega e o facto de ir percebendo que este não respeitara, na sua proposta, os pedidos e desejos do cliente, ia-lhe aumentando a confiança. Por fim, chegara a sua vez: o frio na barriga aumentara e as suas mãos suavam. Abriu o power point, começou a expor o seu projecto e as suas ideias - e serenou. Os sorrisos, os acenos e os discretos murmúrios de exclamação dos seus colegas mostravam-lhe que, mais uma vez, tinha acertado. Ele mesmo estava orgulhoso do seu projecto: uma casa de férias com traços modernos e simples, ecologicamente viável e sustentável –tal como lhes fora pedido. E ao deparar-se com tantos sorrisos, de aprovação e admiração, da sala, deu-se conta de que, em si, o sorriso e o frio na barriga também permaneciam: mas agora eram de felicidade por um dever cumprido – e bem.

Dirigiu-se à cadeira que lhe pertencia e respirou fundo – o seu coração continuava a bombear ao ritmo de uma adrenalina acelerada. De seguida o director levantou-se – entretanto já tinha o nó da gravata solto e os primeiros botões da camisa desapertados – e, com um sorriso largo no rosto, disse que, embora fosse ainda necessária uma aprovação superior, à partida seria aquele o projecto escolhido e que Carlos ficaria, obviamente, responsável por ele. Carlos sentiu um calor, vindo do peito, avermelhar-lhe o rosto e libertar-se num generoso sorriso, enquanto os colegas iam batendo palmas e dando-lhe valentes palmadas nas costas. Tendo a reunião acabado, foram tomar um copo ao bar em frente ao escritório. Pediram cervejas para todos. Carlos foi brindando mas, cada gole ia afligindo-lhe cada vez mais a garganta – enquanto sonhava com alguma coisa sem álcool: um copo de água que fosse. Quando o primeiro colega decidiu ir embora, Carlos aproveitou e acompanhou-o para fora do bar. Como naquele dia não tinha levado carro, seguiu em direcção ao metro. Desceu as escadas, uma a uma, sem a pressa de ter que chegar a algum lado, picou o bilhete e deixou-se ficar a observar: a miúda de fones no ouvido - a ouvir um hip hop cru que devia ser percetível até ao fundo da estação – e com uma mochila, velha e rasgada, às costas; a mãe, carregada de sacos e mochilas, a segurar pelas mãos dois miúdos gémeos, idênticos (tanto na cara como no desassossego); o homem de negócios com o nó da gravata solto e de fato (e cara também) amassado… Quando chega o metro: Carlos entrou e, vendo que não havia lugar onde se sentar, deixou-se ficar junto à porta. Decidiu, entretanto, sair no Rossio. Seguiu, apanhando o ar fresco de fim de tarde, passando pelos mais diferentes tipos de pessoas. Fez uma paragem para comprar um gelado de duas bolas: uma de menta e outra de limão – fresco, refrescante e ácido, para fazer despertar bem em si aquele dia de vitória. Acabou sentado junto ao rio, no Terreiro do Paço: já quando o sol tocava na água, como que dando-lhe um beijo de despedida até ao dia seguinte. Carlos fechou os olhos, respirou fundo e sorriu: ansioso e esperançoso pelo amanhã que estava para chegar.