domingo, 28 de junho de 2015

v.1

Ali estava Carlos, com uma mesa incrível de pequeno-almoço, junto ao mar de uma praia paradisíaca: sozinho – como era sempre. Um homem bem-sucedido, de uma inteligência imensa e com uma perspicácia crua e astuta. Tinha o que queria e chegava sempre onde se projectava - Mas era nu em afectos. Simpático e sempre cordialmente bem-educado, era incapaz de gerar empatia por quem fosse. Ninguém era suficiente interessante ou inquietante: as mulheres eram sempre demasiado perto. Nenhuma o desafiava mais que as suas próprias metas; nenhuma valia mais do que um par de horas de atenção. Carlos era vazio de um coração, que para ele não passava de uma bomba: uma máquina que o mantinha vivo e que lhe permitia ganhar sempre mais e ir mais longe – isso chegava-lhe. Bastava-lhe olhar para aquela praia, deserta e inacessível, e sentir que podia comprar a sua paz. Ser alguém era ser superior. Ter paz era pagar por horas de silêncio. E ele perdia-se sem saber: e, sendo sozinho, nunca ninguém o iria procurar. Um dia aquela paz, seria o seu inferno.

Sem comentários:

Enviar um comentário

sussurros