Naquela tarde, Carlos chegou
atrasado: bateu à porta e, assim que ouviu uma resposta afirmativa, entrou – bastante
suado e muito vermelho - tendo tropeçado no caixote do lixo que está logo à
entrada e ido também contra o quadro à direita. Pediu desculpa e, ao som de uma
série de gargalhadas sufocadas dos colegas, dirigiu-se até ao seu lugar na
mesa. De seguida, o director levantou-se e deu início à reunião. Carlos dava
graças a Deus por ser o segundo e não o primeiro a ter que intervir: as suas
pernas tremiam e a sua respiração estava ainda irregular. Para se acalmar
procurava prestar atenção na exposição do colega e o facto de ir percebendo que
este não respeitara, na sua proposta, os pedidos e desejos do cliente, ia-lhe
aumentando a confiança. Por fim, chegara a sua vez: o frio na barriga aumentara
e as suas mãos suavam. Abriu o power point, começou a expor o seu projecto e as
suas ideias - e serenou. Os sorrisos, os acenos e os discretos murmúrios de
exclamação dos seus colegas mostravam-lhe que, mais uma vez, tinha acertado.
Ele mesmo estava orgulhoso do seu projecto: uma casa de férias com traços
modernos e simples, ecologicamente viável e sustentável –tal como lhes fora
pedido. E ao deparar-se com tantos sorrisos, de aprovação e admiração, da sala,
deu-se conta de que, em si, o sorriso e o frio na barriga também permaneciam:
mas agora eram de felicidade por um dever cumprido – e bem.
Dirigiu-se à cadeira que lhe
pertencia e respirou fundo – o seu coração continuava a bombear ao ritmo de uma
adrenalina acelerada. De seguida o director levantou-se – entretanto já tinha o
nó da gravata solto e os primeiros botões da camisa desapertados – e, com um
sorriso largo no rosto, disse que, embora fosse ainda necessária uma aprovação
superior, à partida seria aquele o projecto escolhido e que Carlos ficaria,
obviamente, responsável por ele. Carlos sentiu um calor, vindo do peito,
avermelhar-lhe o rosto e libertar-se num generoso sorriso, enquanto os colegas
iam batendo palmas e dando-lhe valentes palmadas nas costas. Tendo a reunião
acabado, foram tomar um copo ao bar em frente ao escritório. Pediram cervejas
para todos. Carlos foi brindando mas, cada gole ia afligindo-lhe cada vez mais
a garganta – enquanto sonhava com alguma coisa sem álcool: um copo de água que
fosse. Quando o primeiro colega decidiu ir embora, Carlos aproveitou e
acompanhou-o para fora do bar. Como naquele dia não tinha levado carro, seguiu
em direcção ao metro. Desceu as escadas, uma a uma, sem a pressa de ter que
chegar a algum lado, picou o bilhete e deixou-se ficar a observar: a miúda de
fones no ouvido - a ouvir um hip hop cru que devia ser percetível até ao fundo
da estação – e com uma mochila, velha e rasgada, às costas; a mãe, carregada de
sacos e mochilas, a segurar pelas mãos dois miúdos gémeos, idênticos (tanto na
cara como no desassossego); o homem de negócios com o nó da gravata solto e de
fato (e cara também) amassado… Quando chega o metro: Carlos entrou e, vendo que
não havia lugar onde se sentar, deixou-se ficar junto à porta. Decidiu,
entretanto, sair no Rossio. Seguiu, apanhando o ar fresco de fim de tarde,
passando pelos mais diferentes tipos de pessoas. Fez uma paragem para comprar
um gelado de duas bolas: uma de menta e outra de limão – fresco, refrescante e
ácido, para fazer despertar bem em si aquele dia de vitória. Acabou sentado
junto ao rio, no Terreiro do Paço: já quando o sol tocava na água, como que
dando-lhe um beijo de despedida até ao dia seguinte. Carlos fechou os olhos,
respirou fundo e sorriu: ansioso e esperançoso pelo amanhã que estava para
chegar.
Tens que editar em livro estes textos, adoro! :P
ResponderEliminaré tão tão bom ler isso... nem imaginas! :)
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