domingo, 20 de dezembro de 2009

Gosto. Gosto mesmo. Gosto e gostava de não gostar. De pelo menos não gostar tanto. De não me sentir tão parte de tudo. De não sentir tudo, tanto cá dentro. É inexplicável a maneira como se vive. Tanto. E como marca. A maneira como se é tanto, sem o conseguir evitar. É fantástico como aquela sensação de pequenez, nos faz no fim, tão grandes. E ainda bem que não correu logo bem. Ainda bem que não correu logo, tudo, bem. Ainda bem que nos decepcionamos. E conformamos. Quisemos acreditar que sim. E vivemos aquele friozinho na barriga, sem a pressão do nervosismo, porque não havia razão para tal. Sorrimos e rimos, porque sim. E de repente, não acreditamos. E víamos o que sentíamos no olhar, uns dos outros. Só o olhar. Só o brilho e a inquietação. Só a expressão. Não precisávamos de mais. E decifrávamos o resto dos olhares, para absorvermos tudo o que se passava, sem deixar escapar nada. E vivíamos cada palavra. Cada movimento. No fim, já não sabíamos onde estávamos. De onde tínhamos vindo. Para onde íamos. E riamos, muito. Quisemos fazer o que não era suposto. Rimo-nos de superstições. Respeitamo-las e rimos. Se a experiencia marcou, a forma como a vivemos foi inesquecível. E fica, para sempre. Gosto. Mesmo. Gosto tanto. E faz tão parte.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Joãozinho, Coliseu

É completamente impossível não falar aqui da noite de sábado, como é óbvio.

‘João Pedro Pais no Coliseu de Lisboa’, até arrepia dizer. Lembro-me de ele mo contar em Abril, em Sintra, com um sorriso tão cúmplice ‘este ano não tenho os casinos, mas faço os Coliseus no final do ano, lá para Novembro’. E depois em Cascais... (Cascais foi assim ‘O’ concerto! Ficam todos, mas esse fica especialmente, para sempre.) quando se fala nos Coliseus e ele me pergunta ‘tu vais?’ ao que eu a rir respondo ‘achas mesmo que perdia?!’. O que se passou depois disso continua a ser assim um tanto ou quanto inacreditável. Mas tão, tão bom. E deixa-me tão orgulhosa, de tudo! Ele dá-me tanto, sempre! E sabe bem isso. Eu faço questão de o fazer saber.

E Novembro chegou, tão depressa. Só aquela semana antes é que é sempre igual, parece sempre que os dias não passam. Mas lá fomos as duas, como não poderia deixar de ser. Contentinhas, com as nossas mil e uma historias de sempre. Chegamos e fomos direitas ao Coliseu, como meninas responsáveis que somos, para tratar de tudo sem pressas. Deu tanto gozo!! Estava uma senhora à nossa frente e nós metemo-nos a falar, A FALAR! (como é que depois de tanto tempo ainda não sabemos que juntas, em publico, nos devíamos tornar mudas?!) A senhora virou-se e perguntou-me o nome. Obtive como resposta um ‘ah, tu é que és a Ana Rodrigues!’. Caiu-me tudo. Só me perguntava como era possível não haver ninguém para me cavar um buraco fundo, logo ali. Vá, a sorte é que ter uma melhor amiga completamente petrificada ao nosso lado, dá sempre imenso jeito…! xDD Não sabia. Não fazia ideia... A conversa até foi agradável e tão simpática! Ouvir aquele ‘perguntou imensas vezes se estava tudo tratado’ ‘vou dizer que já chegaste’ foram únicos.

Depois de ‘um volto já’ fomos pelas ruas, a rir, rir até ao Hard Rock para nos alimentarmos e mais uma situação daquelas. Menino simpático, pa! O jantar foi passado a rir, tanto!

- ‘Ana, a tua cara!’

- ‘Vai-te lixar, não dizias nada!’ … ‘foi assim tão mauuu?!’

-‘Até nunca mais. Ando louca, tão louca e já não sei nada de nada!!!’ hahahaha! xD

Voltamos ao Coliseu onde já estava uma multidão de gente! Sei que passo perto daquela rua quase todos os dias mas, nestas noites sinto ali, mesmo na rua, uma magia tão forte. Brinquei com a situação mas, a verdade é que fiquei completamente perplexa. Já não olho para ele como ‘o João Pedro Pais’. É o João. O meu Joãozinho. E ver aquela gente toda ali para o ver, deu-me assim uma volta à barriga. Que orgulho.

Entramos e fomos para perto do elevador. Para fugir à confusão e à loucura que para ali ia. ‘os vossos bilhetes por favor’ foi das viagens mais longas de sempre! Mal saímos e nos afastamos, desmanchamo-nos! hahaha, muito bom!

A espera deu para tudo e mais alguma coisa. Conversas parvas não faltaram. Deu para confundir a cabeça do João com a perna, haha! Para ver os meus efeitos bocejadores sob a Sara. Travar amizade com um ser estranho, altamente imponente! xD

As luzes apagam-se e é uma energia tão forte. Que prende e enche o coração e o sorriso. Podia descrever aqui tudo mas, falando apenas de alguns momentos… a Orquestra Sinfonieta de Lisboa tornou tudo tão profundo. Aquelas músicas foram qualquer coisa, indescritíveis.

‘Falar dele, seria estar aqui cem mil anos. E entra o Jorge Palma. Tive que me levantar. Aquele homem tem uma energia tão grande. Adorei vê-los aos dois. A sintonia. O entendimento. Os sorrisos. É mesmo único.

OMassimo Cavalli, absolutamente arrepiante.

O grande Zé Pedro, recebido com o Coliseu ao rubro. e os dois partiram tudo com tanta energia.

Os Coliseus são sempre marcantespara qualquer artista. E acho que quem vive essas noites percebe. O Coliseu de Lisboa tem uma força e uma energia imensas. Pelo menos comigo, mexe imenso. Mas, apesar de marcantes acho impossível esses concertos serem ‘os melhores’. O que sinto sempre no Coliseu é que, apesar de não ter a mínima dúvida que o publico vai e compra bilhete pelo artista, fico sempre com a sensação que as pessoas vão única e exclusivamente para ver um bom espectáculo e não para o viver. E tenho pena. Eu vivo estas noites, o mais que consigo. Com o coração todo. E ainda o estico o que consigo, para viver mais. Canto até ficar rouca. Faço piadas estúpidas. Danço. Salto. E quero lá saber se divirto imenso as pessoas que estão à minha volta. Estas noites não são feitas para serem assistidas, mas sim vividas!

Adorei tudo, podia destacar aqui algumas músicas mas, apercebo-me que as podia destacar a quase todas. E cada uma pela sua razão. Sendo cada razão completamente diferente de todas as outras. Marca tudo. Tanto.

O concerto acabou com tudo de pé. Seria impossível ser de outra maneira.

E a magia destas noites é imensa e avassaladora e prolonga-se pelo resto da noite. E no fim, lá vamos nós direitas à portinha. Entretanto, foi bom ver a minha Maria pequenina. Dar-lhe um abraço. Já tinha saudades. (e foi óptimo ver-te também durante o concerto *). Lá entramos naqueles corredores mágicos. Ficamos para o fim. Lá estava ele ao fundo da escadas. Rodeado de gente. Vê-nos e lança aquele olhar, tão cúmplice, de sempre. Vem direito a nós de braços abertos e sempre com aquela pergunta tão sincera Gostaste?’ que já me faz rir.

Metemo-nos num canto, a observar tudo, sem querer incomodar. Confesso que me diverti a observar tudo aquilo. Não há palavras para a generosidade dele. A querer dar atenção a toda a gente. A cada pessoa, quando se dirigiam a ele todas de uma vez. Quando o apressavam João tens que te ir embora’ e ele se virava para dar atenção a mais alguém.

Até que no fim não, tenho aqui a Ana Rodrigues’ e me dá aquele abraço, tão nosso. Quando, depois daquele espectáculo tão grande, em que ele brilhou tanto. Depois de eu estar ali com um sorriso enorme, a preocupação era trataram de tudo?. Não há hipótese. Por mais momentos. Por mais provas que tenha em como ele é tão grande, consegue sempre surpreender-me.

Saímos e fomos ao cocktail. É melhor não descrever. Fico-me por:

‘Ana, olha essa cara! Não estás em casa!’ ‘Sara, olha a tua! Ainda está pioooor!’ ‘Ana, é tão booom!’ ‘Olha, a gaja não vem cá!!!’ ‘Tu vales zero!’ ‘ela está de dieta!’

‘Ana, aquele bolo de chocolate…’ Ana olha para o lado. Os olhos de Sara brilham! Ana parte-se a rir!

Ana, o que é aquilo?’ ‘olha!!!’ ‘não pode ser…’ ‘ele está ali!! ‘PASTEIS DE NATAAA!’

‘Olha, vês! Também gosta da mousse!’ ‘Querem falar com o João?’ ‘Não.’ ‘Não.’ ‘Oh, esperem aí!’ HAHAHAHA! Somos a comédia! (ou o pânico?! :o xD)

Lá nos despedimos com outra conversa, única. Com sorrisos cúmplices. Com abraços perfeitos. Tão fortes. Que marcam, sempre. E não faltou os conselhos rodoviários (haha, é sempre tão ele!)

Ficou a foto à saída (yey!). os brindes e a nossa cara ao vê-los. O meu casaco. E o dela. xD as cantorias até ao carro. E as cantorias no carro. Ficou tudo, sempre.

Vivi isto tudo com tanto orgulho. No final de contas, era o meu João no Coliseu. E só quem vive e tem uma pequena ideia do que ele é, é que percebe. A humildade que ele tem é impressionante. Para mim, é das maiores pessoas que tenho, a nível de ‘saber ser’. Acho incrível ouvi-lo dizer ‘não tinha maturidade suficiente para pisar os Coliseus, e ainda não sei se tenho’ quando é dos maiores artistas do país, indiscutivelmente. Ou então ‘iguais a mim, a fazerem o que faço, há milhares. Eu tive sorte’. Engana-se tanto, porque não há ninguém que o viva tanto e se dê tanto, como ele faz. Ele desfragmenta-se literalmente em palco e dá tudo, tudo o que tem, sem pedir nada.

Um dia ouvi o Zé Pedro dizer, a respeito do João, qualquer coisa como ‘é impossivel não gostar dele, porque o João é um gajo que cativa’ e é mesmo isso que eu sinto. É impossível ser indiferente à entrega que ele tem. Tenho um orgulho imenso na cumplicidade que tenho com ele. Na importância que ele tem na minha vida. Não sabia viver sem isto. E toca-me imenso o carinho que ele tem por mim. E que faça questão de me mostrar que não se esquece, nunca. Adoro-o, tanto!

E amo passar estas noites contigo! Mesmo quando cada momento dá numa barraca tal, que só nos apetece fugir. Adoro a maneira como vivemos as nossas histórias e as fazemos ficar, para sempre. Adoro as nossas conversas idiotas. Os nossos ataques de riso. Adoro quando sorrimos juntas. E às vezes ainda fico perplexa com tamanha sintonia. Com esta cumplicidade imensa. Obrigado!

Vocês os dois são os melhores cúmplices que se pode ter. são meus. E não há nada que descreva isso.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Gosto de pessoas praticas. Que não pensam. Que resolvem. No momento, quando as situações surgem. Porque o importante é ultrapassa-las. Melhor ou pior. O que importa é seguir em frente. Porque há sempre um caminho a seguir. Qualquer opção que tomamos, nos leva a alguma saída, que nos mostra um caminho. Que passa a ser nosso. Independentemente dos obstáculos que traga. Porque quando optamos, não há como voltar atrás. E nem há tempo para pensar muito. Porque o fim do dia não demora a chegar. E depois do fim, surge sempre um inicio. Um novo dia. E seguindo o mesmo caminho, cada dia nos apresenta um novo trajecto que, com maiores ou menores obstáculos que o anterior, é o que temos que seguir. Respirar fundo, por dentro. Sentir bater o vento e ir. Sem mais nada. E bom é sentir no fim, no impasse entre o dia que passou e o novo prestes a começar, que conseguimos um coração maior. Maior do que o maior dos obstáculos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Medo.

Saía. Fechava a porta e ia. Para longe de tudo. Principalmente de todos. Estou cansada. Magoada. Saturada. Ferida. E é tal a confusão que muitas vezes, quando dói, já não consigo distinguir bem o que faz doer, nem o porquê. Vejo-me forte, já imune a determinadas coisas. E de um momento para o outro, quando não quero pensar, elas voltam. Volto a senti-las. Arranharem-me o peito com uma força feroz.
Ando farta e irritadiça. E há dias, em que não sinto o que queria sentir. Momentos em que não sei o que é suposto sentir.
Tenho medo. Muito. Tanto. E esse medo é um mar em mim, completamente avassalador. Consigo mesmo sentir cada onda rebentar, em mim. Uma após outra. Num compasso incessante e sobressaltante. Que me vira do avesso e me deixa sem rumo. E o que mais me desorienta é que eu sei que este medo, não terá propriamente um tempo, nem um espaço para existir, será constante.
Sei perfeitamente que este medo não é única exclusivamente meu. Tem que se sentir. Faz parte. Mas a vida que escolheram para mim tem essa particularidade: de fazer ser tudo um pouco mais tenebroso para mim. E não estou a exagerar. A fazer fita. É assim, e eu aceito. Só que nem sempre sei lidar com tudo o que vai cá dentro. Nem sempre é fácil conjugar o que se passa cá dentro, com o mundo de fora.
E são nestes momentos que eu me apercebo como a vida é irónica. Julgamos sempre que nestes momentos, em que nada bate certo, as pessoas que consideramos importantes, ‘nossas’, vão estar connosco e a verdade é que nunca estão. Porque não sabem, não vêm. Ou porque simplesmente, é mais fácil e cómodo não saber. Não ver.
E o giro nisto é que depois aparecem outras pessoas. As que se cruzam contigo por mero acaso. As casuais, que sem te aperceberes acabam por estar sempre por ali. E essas, sem saberem (porque é impossível saberem. Porque tu disfarças. Bem. Julgas que sim. Ou será que não? Sim.) acabam por te tocar por dentro. Na lacuna. Que faz tremer. Fazem-te sorrir. Nem que seja por um segundo, fazem-te viver mais. Com mais sentido.
Num jantar, falava-se de medos. Dos meus. Dos mais banais. E uma pessoa, dessas meramente casuais, disse-me inesperadamente algo como: ‘deixa-te de merdas! O mundo está à tua espera e é só nisso que tens que te concentrar.’. Penso nisso frequentemente. Porque preciso. A pessoa marcou-me com isto e o engraçado, é que tenho a certeza que nem se apercebeu.
Aprendi que se tem que beber ao máximo de quem nos faz sentir bem. Independentemente do valor que tenha, que venha a ter, ou que nunca alcance na nossa vida. Aprendi que o importante não é a história em si, mas sim os momentos que dela fazem parte. Ninguém nos pode prometer que uma história bonita, não possa ter um final mau. Mas um momento perfeito que guardamos, poderemos guardá-lo assim. Perfeito. Para sempre. Aprendi que esses momentos não fazem o medo desaparecer. Mas fazem-nos a nós maiores. Mais fortes. (eu continuo a ter medo. Muito.)

[Gosto de pessoas que sabem viver com o coração. Falam com o coração. Sem pensar. Por impulso. Têm o coração no olhar. O que se sente na ternura. Abraçam com o coração. Sabem abraçar. Porque chegam longe, onde não se chega.
Gosto do arrepio da verdade. Nos gestos. No olhar. Nas acções sem obrigação. Gosto da sinceridade de palavras sem razão. Gosto de pessoas diferentes. Que o sabem ser. Só porque são. Gosto de momentos que me rasgam um sorriso persistente. Que me fazem viver. Sentir. Gosto muito. Deste privilégio. Cumplicidade.]

sábado, 4 de julho de 2009

Menina.

Ontem disseram-lhe que era teimosa. Que queria ser sempre diferente dos outros. Para ela, é só uma menina. E vai ser sempre. Recusa-se a crescer. Quando lhe perguntam como será isso possível, ela responde que é como o Peter Pan. Que tem a sua própria terra do nunca. E tem mesmo :)
No outro dia vinha numa das suas viagens rotineiras de comboio. Ninguém gosta de andar de comboio. Ela sim. Dá-lhe uma calma fora do normal. Dá-lhe tempo, para ficar nas entrelinhas deste tempo um tanto ou quanto louco. Frenético. Vinha colada as paisagens. De bonitas nada têm. Mas passam e acontecem. Quando se apercebeu do coração cheio e no mundo tão bonito que lhe gira nas mãos. É uma privilegiada. Teve um sonho. Lutou. Alcançou-o. Luta para o manter. E mesmo que essa luta a faça arrancar uns quantos cabelos (e faz!!), é um sonho. E ela vive-o. E isso é tudo!!
Disseram-lhe ‘os nossos limites somos nós que os fazemos’ e ela sorriu por fora e acenou. Sorriu por dentro, com o coração todo. Por ser importante e significar tanto. E riu, também por dentro, porque se lembrou de um (grande) senhor que lhe ensinou que ‘limites’ e ‘não consigo’ são conceitos a eliminar. O que lhe interessa é seguir a estrada. Porque ‘a estrada é feita para seguir’. Percorre-la até ao fim, sem o procurar. Desejando em segredo que ele não exista. E caso exista, demore a chegar. No final de tudo, o mais importante não é o pote de ouro que nos espera quando tudo termina e o dever foi cumprido. A maior recompensa são os mundos cheios de tudo que estão pelo caminho, à espera de serem encontrados e desbravados. Com força. Contra todas as adversidades. E não há nada que a conforte mais do que esta certeza.
Falam-lhe de orgulho e ela não percebe. As coisas têm que ser assim. Ponto.
Perguntam-lhe pelo sorriso e ela, sorri. Não sabe a razão mas, sabe que é e que vai continuar assim. Sem respostas para questões e porquês. Só porque sim.
A menina sonha ser médica. Sonha ser feliz. :)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Há alturas em que não consigo distinguir se sou a protagonista de uma comédia de muito mau gosto ou de um drama do mais rasco que possa existir.

Há alturas em que a força se cansa e o medo vence-a com uma facilidade descomunal, numa disputa quase inexistente, a qual não dá a mínima pica assistir. E o medo quando entra, tem a capacidade de chegar a todo e qualquer canto. Destapa pedaços de temores que achávamos esquecidos, ou que desconheciamos trazer em nós, perdidos, por dentro. O medo faz frio. Pelo menos faz tremer. E com que eu me sinta tão pequenina. Às vezes julgo que chego mesmo a desaparecer.

O que me socorre é o sorriso. Que me protege do que é indiscreto. Que de tanto convencer os outros que está tudo bem, acaba mesmo por me convencer também a mim que se não está, há-de ficar tudo bem. O sorriso afasta o medo. E se não afasta, pelo menos faz com que me esqueça dele por momentos, o que já é bom : )

Enquanto isso, eu estudo Anatomia para ver se a moral levanta (apesar de achar que o efeito é o oposto -.-‘)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Porto.


Tive um sonho estranho hoje. Sonhei que ele tinha voltado e eu estava estupidamente paralisada por o ter de novo. A beber cada pormenor do dia-a-dia tão seus. Tão característicos, que estavam mesmo à minha frente, nítida e perfeitamente definidos.
Rejeitei inicialmente a ideia do abraço, com medo de descobrir que tudo não passava de mera ilusão. Mas o desejo e a necessidade falaram mais alto e quando o fiz, pura e simplesmente desapareceu-me nos braços. Acordei com um aperto tão grande!, mas que passou. Porque, o que ficou no fim de tudo é bom demais. Vai fazer sempre parte de tudo o que sou : )
25.04.09

Andei dias com a ideia de escrever sobre o Porto. Comecei a fazer uma descrição detalhada, mas a meio desisti. Fez-me confusão. Fiquei com a sensação de me estar a expor demasiado. Foi tudo tão forte. E a verdade é que quando penso no tempo que lá estive, parecem-me meses e não semanas. Marcou fundo. Aprendi tanto. Um mundo. E cresci, cresci tanto. Guardo tudo comigo, sem perder nada. Mas ficam principalmente momentos. Telefonemas. Pessoas.

Momentos tão grandes. Difíceis. Amargos. Únicos. Gratificantes. Que me deixam ainda hoje com um arrepio enorme e incomodativo. Ou um aperto grande e bom que me deixam de lágrimas nos olhos.

Telefonemas. Todos, todos. Mas principalmente aqueles à porta do bloco operatório. Das minhas pessoas. Em que se era nítido o nervosismo, ainda maior era a felicidade que nos inundava a todos. Senti aqueles abraços apertados de longe, tão perto.
E depois aqueles que fiz, mal me deixaram sozinha com a mãe no quarto xD ‘Dá-me aí o telemóvel’, ‘Mas tu queres ligar a quem?’, ‘À minha gente! De resto ligas tu’, ‘mas tu tens que descansar’. Oh sim claro. Farta de descansar estava eu, depois de um dia inteiro nos cuidados intensivos. E nem as dores horríveis que tinha no peito me impediram de ir pedir miminhos :’D
E a verdade é que nem eram assim tantas as pessoas que havia para ligar, uma vez que as pessoas que souberam desta aventura, foram as mínimas possíveis. E se há pessoas a quem eu me arrependo de não ter contado antes, outras há que nem deviam ter sabido de forma alguma, porque simplesmente não mereciam. Não fazem parte. Por mais que queiram e façam de conta que sim.
Ainda havia os telefonemas diários, indispensáveis. E depois outros, completamente inesperados, mas bons. Tão bons.

Pessoas. Não acho que estivesse frágil mas, se calhar até estava porque a verdade é que me agarrei tanto às pessoas. Foram mesmo importantes e algumas continuam a sê-lo.
Os médicos, obvio. Porque ao fim ao cabo, foram os meus grandes cúmplices. Tenho um orgulho imenso naquela equipa.
Os enfermeiros, cuja real importância e valor, eu só percebi verdadeiramente lá e reconheço isso. São indispensáveis. E tão multifacetados. Conseguem ser médicos. Enfermeiros. Auxiliares. Mães. Pais. Compinchas. Amigos. Cúmplices. Chatos. Palhaços. E a lista não terminava. É preciso ser-se grande por dentro para ser-se bom, para estar à altura desta profissão, que tem um valor imenso. :) Eu fiquei a achar isso.
Os auxiliares, aos quais eu subscrevo quase tudo o que disse para os enfermeiros. Mesmo.
A malta da fisioterapia, com quem eu me ria tanto.
E os doentes. Há que dizer que estava na ala de Neurocirurgia. Portanto, os únicos casos positivos que lá haviam, era mesmo o meu e o do Tiaguinho. De resto, era tudo bem grave no geral, mesmo. E se isso me dava um murro enorme no estômago ao inicio, tudo não passa de um processo de consciencialização. E ainda foram algumas as vezes que fui abrir o netter, para tentar perceber onde estaria o tumor. Qual seria o nervo e consequentemente os músculos afectados. Pergunto-me se todo o estudante de medicina será assim tão alienzado x) ou se seria apenas a minha maneira de lidar com as situações.
Ver as suas reacções. Quando as coisas, corriam bem. Mal. (Quando se perdia alguém.) e reagir também. Porque às tantas apercebemo-nos que estamos ali uns para os outros.

Destacando algumas pessoas:
A Doutora Maria José. A MINHA Dótoura! Se eu conseguir concretizar o meu sonho de ser médica e se for para algum doente, metade do que ela é para mim, juro que vou ser a pessoa mais realizada do mundo. É enorme. Gigante. Mais do que ‘a melhor médica’ é minha amiga, como ela mo faz questão de lembrar, sempre. o carinho. Admiração. Amizade. Amor que tenho por ela não tem descrição possível. A dedicação que ela mete em tudo o que faz, transcende tudo.

O Doutor Rui. Que me trata sempre por ‘cara colega’ porque sabe que não lho consigo retribuir. A admiração e o respeito que tenho por ele não mo permitem faze-lo de todo. É dos melhores profissionais que este país tem, nesta área. E consegue ser tão caricato, quando se dá a conhecer. Merece. Merece mesmo todo o reconhecimento e protagonismo que ele e o seu trabalho estão a ter. é mesmo grande.

O Doutor Volkmann. Espero que isto não vá parar a sítios errados mas, há que dizer que é o doutor alemão, quarentão mais giro que há. : D De uma humanidade extrema e de uma genialidade petrificante. A mim, deixou-me sem palavras, sempre. Orgulho desmedido nele também.

O Doutor Miguel. O porreiraço lá do sitio.

A Rita. A minha Rita. A MINHA enfermeira. A melhor do mundo. Foi ela que me instalou. Me mostrou os cantos à casa. E a partir daí foi estando sempre. E foi empatia à primeira vista. E ela foi tão importante. As nossas conversas iam sempre muito além do necessário. E eram tão boas. Tenho a consciência que aquelas conversas não se vão repetir com ninguém. Porque ela sentia tudo. Ia fundo. E fez-me sentir de uma maneira que nunca tinha sentido até então. Fez-me ver que eu até sou alguém com um tamanho considerável e não uma miniatura neste mundo de grandes gigantes. Ensinou-me tanto, com tão pouco. Deu-me força e animo quando eles se queriam escapar disfarçadamente. E o mais importante: soube ver isso. Pessoas que marcam. :)

O Joao. Grande e com cara de mau. Com quem eu bati logo o pé à chegada. ‘Bem, importa-se que vá ao centro comer uma torrada?’ ‘Mas acabaste de dar entrada no internamento. Enquanto cá estiveres não podes sair daqui.’ ‘Mas apetece-me tanto uma torrada, cheia de manteiga…’ ‘Temos pão…’ ‘Torrada…’ pega em mim e quando eu pensava que me ia mandar uma curva diz-me ‘Estás a ver isto?’ ‘Não estou a ver nada…’ ‘Miuda, temos dois corredores: um esquerdo e um direito. Eu vou pela esquerda. Tu vais pela direita. Não te vou ver sair nem entrar. Para mim, tu vais estar sempre aqui.’ : D
E era sempre ele que me tirava da cama de manhã. ‘Vá miúda, levanta-te, vamos trabalhar’ ‘Ih, oh Joao! São 11 horas!’ ‘Precisamente!’ destapava-me. Olhava com cara de má e ria-me. Ameaçava-me com tratamento de choque, caso não me levantasse, mas nunca lhe dei o gosto de o ter de usar :P
Foi também ele que dois dias depois, me pos meia hora em frente ao espelho. O meu maior medo, naquele dia. E não me largou. Às vezes pergunto se me queria dar equilíbrio ou força. Por ter noção que aquilo ia mexer demasiado cá dentro.

O Miguel. Que raras vezes vi a dizer coisas sérias. x) Entrava-me pelo quarto ‘Oh menina que só ouve Mafalda Veiga, pode parar um bocadinho para lhe fazer a cama?’ ‘Pode-me fazer a cama, claro! Mas eu posso continuar a ouvir a Mafalda.’ ‘Mas assim quando te fores embora, eu vou ficar a saber as músicas todas!’ ‘Já viu? E não é bom?’ ‘Bom, bom é o FCP’ e pronto. Lá a conversa azedava e um dizia mata e o outro esfola. E quando não íamos chatear o Tiaguinho com a mudança de clube. Sportinguista de um lado, tripeiro do outro: puto sofre! : P

A Carla. Colega do Miguel, que aparecia lá todos os dias com uma boa disposição descomunal, sempre com uma tolice na ponta da língua para animar o pessoal e que aos poucos me fui apercebendo da grande pessoa que é ‘Estou cansada, ontem estive a estudar…’ ‘A seriooo? Então e está a estudar para quê?’ ‘Para não ser burra, Aninhas’ : ) e da força grande que tinha.

Aqueles três senhores que lá estavam, que andavam sempre juntos. Tinham as conversas mais disparatadas e uma simpatia descomunal. Que, apesar de saber que fizeram um esforço descomunal, porque ali as horas das novelas da tvi eram as mais aguardadas, mesmo!, deixaram a menina ver os Globos de Ouro (ajudados pelo meu ultra beicinho e um ‘era mesmo importante’ xD)

E claro. O Tiaguinho. O meu puto. O meu menino, eu sei lá. A verdade é que, quem o vê neste vídeo, não tem noção do que ele era (e ainda bem!) e eu por muitas vezes que já o tenha tentado explicar, sei que é impossível para quem não viu, ter a mínima noção.
Confesso que fui uma cobarde no primeiro dia e me ‘escondi’ o tempo todo. Falei-lhe quando cheguei mas, o grau de distonia dele era mesmo qualquer coisa de angustiante. Eu choquei-me mesmo. Só que este rapaz é extraordinário e tem uma capacidade de cativação gigante, para quem quer que seja. E se no dia em que cheguei não o conseguia encarar, no seguinte já não o largava. Deu-me tantas lições de vida. Força. Coragem. É mesmo incrível.
Vê-lo após a cirurgia foi dos maiores momentos que já tive. Tive que me controlar tanto para manter o meu papel de ‘adolescente parva e brincalhona’ e não me desfazer em lágrimas. A diferença foi brutal. Mesmo inacreditável. E ele merecia e acima de tudo precisava tanto.
E eu acredito que ele vai melhorar muito mais, é uma força da natureza. Vai lutar e vai conseguir.
Tem a capacidade de fazer o meu coração gigante quando lhe pergunto quando o vou ver a andar e ele me responde com a maior convicção ‘está quase’ e de me fazer sentir enorme quando ao ver-me esboça aquele maior sorriso do mundo.

A mãe, sobre a qual não vale a pena falar muito. Está sempre. Faz parte. E é tudo para mim.

E é por tudo isto que todas as vezes que o Dr. Rui Vaz me pergunta se valeu a pena, eu não hesito a responder. Valeu. Sempre disse que ia valer mesmo que as melhoras não fossem nenhumas. Tentei. E vou tentar sempre. Ser operada, rapar o cabelo, fazer tudo. As vezes que forem precisas. Porque na minha vida não há espaços para ‘ses’ e quem me conhece sabe disso.
E cada vitoria. Cada passo em frente que dou é tão gratificante. E ter noçao que não são só meus, ainda torna tudo maior. São meus. Da família. Dos médicos. Das fisioterapeutas. Porque são eles que estão e lutam comigo. E ver a emoção. O brilho. Os sorrisos neles. Ter noçao que por vezes acabam por viver cada vitoria mais que eu, é incrível. O ‘não se estar sozinho’ e ter-se consciência disso não tem preço :)

segunda-feira, 6 de abril de 2009


Às vezes meto-me a pensar nas pessoas e assusto-me. Hoje em dia já não se dá valor a nada. Vai-se vivendo. E não se liga a laços. Vive-se em sociedade. Um por si. E o que importa é estarmos bem. Darmo-nos com as pessoas. Muitas se possível. Darmo-nos bem. O que chegue. Criando laços, o suficientemente resistentes e frágeis. O suficiente mente resistentes para que permaneçam no tempo. O suficientemente frágeis para que não prendam. Para que se lhes possa passar por cima sem os quebrar. Sem compromissos e sem qualquer tipo de culpabilização. É fácil. E pratico. O mundo funciona mesmo assim. Por isso, penso nisto frequentemente para me habituar e consciencializar. E faço bem. Aprendo a lidar com os outros, a entende-los e magoo-me muito menos. :)
Mas não. Eu não pretendo seguir esta filosofia e quem me conhece sabe que nem seria capaz! Eu sou feita de pessoas. Imperfeitas. Com virtudes e defeitos. Mas as minhas pessoas. As que me fazem ser mesmo, por dentro.
E hoje dei por mim a pensar em abraços e achei piada. Essas pessoas. As que são comigo de verdade. As que não tenho a mínima duvida que vão ser para sempre. São as que me abraçam bem. Chegam mesmo fundo. Fazem com que esses abraços sejam sentidos. Marquem a alma. Fiquem para sempre.
É óbvio que não é fácil distinguir essas pessoas. Mas nunca vivemos muito tempo na ilusão. Porque o que se sente. O que nos liga, ou não, uns aos outros não se finge. Não se consegue, por muito que se tente.
E não importa o tempo que nos liga. Importa a verdade. O tempo é relativo. Podem ser anos de histórias e convivência. Podem ser segundos. Mas há abraços que mudam. Tudo. Mesmo. Há abraços que nos fragmentam. Perdemos um pedaço daquilo que somos. Ganhamos outro, que encaixa numa exactidão perfeita no local daquele que perdemos. A pessoa com quem partilha-mos o abraço passa a existir em nós. Passa a ser nossa. E eu acho, pelo menos gosto de acreditar, que o nosso pedaço chega à outra pessoa também. Que passamos a existir nelas também. A pertencer-lhes de alguma forma. Estes momentos são nítidos. Não enganam. Sentem-se no exacto segundo em que acontecem. E ficam na nossa memória. Intactos. Para sempre. Sem que deixemos escapar nenhum mero pormenor.
Tenho alguns exemplos disto mesmo. E o dele é dos melhores. E um orgulho tão grande. Confesso que quando penso nisto me riu. Só na minha cabeça é que pode haver uma explicação tão perfeita e ilusória para isto. Mas a verdade, é que é Cumplicidade isto que nos liga. Não consigo arranjar outra palavra que o defina. Nem algo, minimamente lógico que o explique. É estranho. Sem razão. Mas único. Meu. Nosso. Tão bom. E agarro-me a isso para explicar o facto de ter sempre um aperto tão grande no início de cada concerto, por querer que tudo corra bem. E um orgulho desmedido quando ele partilha os novos e grandes voos que o esperam. Ou no final, por ter sido tudo tão perfeito e único, como ele merece que seja sempre. Só isso explica o facto de achar que ele imita um piano a deslizar, na perfeição. E de me rir a serio quando decide chamar-nos de inteligentes. : P
Gosto do momento em que ele nos vê. Do piscar o olho e daquele sorriso matreiro. Gostei de o picar quando me fez uma pergunta com a cara mais amorosa de sempre (se bem que nunca tive a consciência tão pesada como naqueles segundos :x). Mas gostei ainda mais de ele me ter respondido à letra. :D
Agradeço o facto de ele vir sempre direito a mim de braços abertos. Porque se não o fizesse, faria-o eu, despindo-me de qualquer vergonha. Preciso daquele abraço. De o sentir perto.
E adoro sentir-nos aos três tão cúmplices. Acho único ele querer saber a nossa opinião. O que achamos disto, daquilo e daquele e do outro pormenor. Porque sabe que vimos. Que nada nos passa indiferente. Que achamos mesmo. Ainda mais único é ele querer saber de nós. Do que somos mesmo, fora de toda aquela magia. Lembrar-se sempre. E quer saber. Importa-se. Não se esquece. Sem ter nenhuma obrigação. ‘E este ano, como é?’ … Se um dia encontrar uma pessoa melhor. Mais generosa que ele, tenho uma coisa má. Será possível tal existência? : P
Sei, com toda a certeza, que sou uma privilegiada. Tenho dois cúmplices do mais perfeito que pode existir. Duas cumplicidades completamente diferentes. Mas ambas tão fortes. Completas. Minhas.
Guardo comigo cada momento. Cada sorriso. Cada abraço. Trago-os por dentro. No fundo. Onde ninguém alcança. Onde ninguém mos pode tirar. Onde eles me constroem. E orgulho-me mesmo disso. De tanto. Deste mundo, meu.







E depois ainda há outros abraços. Outras pessoas que entram na nossa vida aos trambolhões. Sem termos tempo de nos percebermos como, nem porquê. Sem tão pouco querer, ou lembrarmo-nos sequer de parar para entender tudo. Mas porquê perder tempo com isso, quando temos um mundo inteiro por construir, mesmo à nossa frente? Quando o podemos fazer passo a passo, sem pressas e ânsias… apesar de sabermos que é impossível levarmos tudo com calma, quando nos metem algo único nas mãos. Quando nos dão oportunidade de viver algo único, queremos é faze-lo por inteiro, com o coração todo para que nada nos passe ao lado. Para vivermos tudo. E sabe bem sentir as coisas crescerem. Cada uma a seu tempo e valendo por si própria. Sem nenhumas se sobreporem. E vemos surgir o entendimento. Compreensão. Confiança. Sussurros. Desabafos. Risos. Sorrisos. Tolices. Sonhos. Planos. E acreditamos juntas. E sentimos nascer abraços. Abraços que se querem fechar e apertar, mas que a distancia não deixa. Já nos fazem felizes só por existirem. Mas faz falta senti-los. E quando finalmente os alcançamos. Os vivemos na pele. É indescritível. Como se fizessem parte de nós desde sempre. E de repente, parece-nos impossível que tenhamos conseguido viver tanto tempo sem eles.
Guardei-os um a um. Mas não me chegam. Sinto todos os dias a falta de mais. Sinto a tua falta. Tanta.
Trago-os todos comigo. Também aqueles que ainda estão por fechar. Espero por eles e torço para que não falte muito tempo até os alcançar. E agradeço-vos a vocês. Mesmo. Pelo tanto que já me deram, em tão pouco tempo. Gordas. <3

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Mafa no Coliseu :)

‘Goste-se ou não, está aqui um fenómeno que só por cegueira pode ser ignorado. Quantos artistas portugueses enchem dois coliseus (três se contarmos com o Porto)? E quantos têm um clube de fãs tão ruidoso e participante que quase serve de suporte vocal? Seguramente, nada disto acontece por acaso.’

E pronto. O post podia acabar por aqui que já estava tudo dito. Mas apetece-me escrever. Tanto. Por isso, cheira-me que vai sair daqui um post como já não faço à anos e que me davam tanto gozo fazer. Que saudades de outros tempos…

Mas voltando ao que importa. Consta que a Mafalda Veiga esteve por Lisboa estes dias. E pronto. Podia lá eu não estar presente!
Assim que soube que a Mafa ia ao Coliseu, estremeci por dentro. O Coliseu há-de ser sempre Aquela sala. Sempre que lá entro, lembro-me do ano de 2003. A primeira vez que lá entrei. O fervilhar e o forte que foi. Era uma miúda caraças! E marcou. Mesmo. Por isso, nem meti a hipótese de não estar presente em mais uma noite para comemorar, daquelas que só ela nos sabe dar. Foi a primeira vez que a vi ali. Sozinha.

Já fui a uns quantos concertos da Mafalda. Já sei bem o que esperar destas noites. Mas este mexeu tanto comigo. Estava mesmo ansiosa. Parecia que nunca quis tanto ir a um concerto. E digamos que, quando se quer muito uma coisa, qual é a piada se ela vier calmamente ter connosco? Na minha vida. Na nossa. Está mais que visto que não é nenhuma. Portanto, uma pessoa chega com vinte minutos de antecedência à avenida da liberdade e apanha uma fila infernal. Ninguém merece!

- Esta merda não anda!
- Tem calma que ainda faltam 20 minutos.
- 20? Onde? Faltam 10!
- AHHHHH! Nós não vamos chegar a tempo! Não nos vão deixar entrar!!
- Ana caraças! Não me stresses que eu vou a conduzir!

(calo-me e fervilho por dentro.)
- Oh Ana grita! Vais ver que faz bem!
- Sara! Cala-te pa! ‘Tás parva?!
- Ana… grita!
- Oh Sara… AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Passa alguém à nossa frente. Olhamos uma para a outra e rimo-nos. Somos Cúmplices. E, até nestas alturas, isso chega. :) (podia também falar da nossa espécie de dança, mas é melhor não ir por aí xD)

Passadas eternidades lá arrumamos o carro e corremos. O que vale é que estava uma noite limpinha, porque correr aquelas ruas a chover a potes, tinha sido mau… Pois! Mas lá chegámos! Ninguém nos barrou a entrada :P (uma luzinha qualquer fez o concerto atrasar 20 minutos :D!) entrámos e abraçaste-me. Soube bem sentir-te perto.

Depois já se sabe como estas noites são para ser vividas. Por inteiro e com o coração cheio. Com sorrisos e olhares cúmplices. Segredos recônditos que nos fazem ser. De verdade. Ali. Com as mãos dadas quando tem mesmo que ser. Para selarmos o facto de sermos uma.
A Mafalda tem uma qualquer magia fascinante. Tem o dom de, nestas noites, me destruir para voltar a construir numa exactidão perfeita. Apagando tropeços e sobressaltos. Envolvendo-me num regaço profundo e reconfortante.


E ali. Por entre achados e perdidos. Faz parte ir atrás dos sentidos e voar a sentir o mundo, na ponta dos pés. Se nos sentirmos perdidos numa noite assim, quando os sonhos contaminam o medo e o cansaço. Enquanto nos abraçamos ao nosso mundo com o coração quente e vagabundo, a forma da tua mão em mim faz com que eu saiba que ainda somos imortais, se nos olhamos tão fundo de frente, com uma vaga de espuma e sentidos guardados, no fundo do olhar. Olhamo-nos fundo. Deixamos voar os sonhos e acalmar a tormenta. Numa noite para comemorar, celebramos o facto de sermos cúmplices o resto da vida, mesmo que te espere a céu aberto onde se esconde, o que tu és que eu também sou, porque em cada grito da alma eu sou igual a ti e de cada vez que um olhar te alucina e te prende tu és igual a mim. Ali, os dias que vão levantam asas ou ficam em pedaços pelo chão porque, só nós sabemos o que poderá ser. Um pensamento meu, quase podia ser segredo meu e teu. Balançamos por entre sonhos de voar. Rasgamos o escuro desta chuva que sujou e colada ao tecto está a imensidão do céu. Porque não é urgente chegar, o que é preciso é viver, sabe bem quando estás ao meu lado e porque a estrada é feita para seguir, não sabemos nada do que somos nós, mas sabemos tanto do que muda por não estarmos sós. Abraças-me bem. Mesmo num relógio partido e gasto pelo tempo, a nossa cumplicidade poderemos sempre vê-la se soubermos soprá-la no nosso coração. Porque enquanto houver estrada pra andar, a gente vai continuar e mesmo que pareça bastar um pouco de céu, esse lume já ninguém pode, nunca apagar dentro de mim. Porque a vida é feita a cada entrega alucinada, para receber daquilo que aumenta o coração, eu vou guardar cada lugar teu, atado em mim, a cada lugar meu e hoje apenas isso me faz acreditar, que eu vou chegar contigo, onde só chega quem não tem medo de naufragar! (Uff! :D)

Estas noites são mesmo fortes e só quem lá está é que sabe. É que sente a ânsia do próximo acorde. Dá vontade de nos agarrarmos a cada segundo para não deixar fugir nenhum. Para que estas noites durem eternidades. E só quem entende o que é sermos cúmplices é que pode sentir a força de um coliseu a cantar que seremos cúmplices o resto da vida (com os fzz fzz sempre presentes). Sentir o estremecer de um Coliseu inteiro de pé, a bater os pés a pedir bis. A pedir o restolho… sentir a imensidão do lume que ali acende a força de cada lugar nosso.
E quando acaba, parece mentira. Quando acaba, é quando eu já embalada por tamanha magia, tenho mais vontade de ali ficar. Estou mais pronta para que tudo comece. Outra vez. Ainda com mais força.
Mas já sabemos que estas noites são feitas de pura aventura. Então lá vamos nós para aquele cantinho que já sabemos ser o certo.

- Epa, isto parece-me ser só convidados…
- Sim, também me estou a sentir a mais.

- A Mafalda vai receber as pessoas no bar…
-Bora?
- Sim! (…) Mas olha o pessoal do clube. Ficamos é aqui com eles e já se vê.

(…)

- Olha a Ana!
- Olha ‘tá-te a chamar!
- ‘Tá lá agora a chamar-me…! Hum, ok! Se calhar está! :D
- Oh, sua sacana!!! (ahahah! Que bom =) )
- Vai mas é lá para dentro e senta-te!

Sabe mesmo bem! Andar pelos corredores do Coliseu e já conhecer os cantos à casa. A sensação de entrar naquele bar será sempre indescritível! Tenho a sensação que já se devem ter passado coisas tão únicas que acho sempre um privilégio tão grande estar ali. Para passar o tempo andámos a explorar aquelas ‘paredes magicas’ e ainda descobri as marcas daquela noite de à tanto tempo, que ficará marcada para sempre em tudo o que sou. Admirei-as. Marquei-as. E guardei-as em mim. Em silencio.
Até que chegou a Mafa e trouxe com ela luzes, luzes e mais luzes. E nós não gostamos disso, por isso tentámos passar despercebidas até que tudo acalmasse.
- AHHHHHHH! BATATINHA! ‘TÁS ALI!! (LOOOOOL)

É sempre bom ter a Mafalda perto. Dizer-lhe como foi tudo tão forte. Grande e perfeito. Tive que lhe agradecer pelo ‘Meu Abrigo’ que me rebentou o coração.
- Gostas-te dos arranjos?
Se gostei! Estava tão perfeito! Foi das primeiras músicas da Mafalda que se entranhou em mim e me prendeu. Nunca a tinha ouvido ao vivo, por isso quando nos pediu ajuda para escolher o alinhamento, não hesitei na escolha. A forma como a preencheu e reinventou foi perfeita. Ficou mesmo marcado na alma e na pele. Mil obrigados!

Despedimo-nos da Mafalda e depois da Ana com um abraço forte e apertado, que soube mesmo bem!, na tentativa de lhe agradecer por tanto. Pela simpatia, generosidade e paciência que tem sempre connosco. Pessoas que sabem ser mesmo grandes por dentro e que não se esquecem. :)

Destas noites fica sempre tanto. Um mundo. Fica a força que é sentir o Coliseu junto, como um só, a uma só voz. Fica o sorriso persistente da Mafalda por entre cada música. Aquele aceno de missão cumprida, que é só e apenas dela. Fica um lume. A forma como ela nos abraça tão bem. A certeza que já não saberíamos não a ter.
Esqueci-me de lhe agradecer por ‘A gente vai continuar’. A grande musica do Jorge, que à muito me deixava vontade de a ouvir ao vivo, na voz dela. E não me passa pela cabeça melhor momento para o fazer do que estas noites no Coliseu onde comemoramos o facto de que ‘Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar’ e a certeza de que ‘Seremos cúmplices o resto da vida’.

A Mafalda é grande. Fantástica. Merece tudo. Um Mundo! E é um enorme orgulho acompanhá-la sempre que posso. Ela sabe q sim! =)

Destas noites ficas sempre tu. E uma marca enorme e bonita na historia de tudo o que somos. Obrigado por as viveres sempre comigo. De coração junto e dedos entrelaçados. Obrigado por sentires a mesma cumplicidade que eu. Esta que mais ninguém sente. Porque esta é nossa. Fomos nós que a construímos. Somos nós que a fazemos crescer. Juntas. E é bom ter isto com alguém. Ainda melhor é tê-lo contigo. Melhor é ter vontade que isto dure. Para o resto da vida!! É sempre mais do que eu te sei dizer :)
Amo-te Cúmplice (L)














Podia explicar a foto (roubada do fórum do CFMV :P) mas, não me parece que interesse muito :)

Por fim, despedi-me do Coliseu com ‘um volto já’ porque já me constou que ainda lá devo voltar este ano :’D *

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Vai melhorar.

Começo o ano assim. Com a sensação que me deram um grande enxerto de pancada e me deixaram estendida no chão. Onde estou agora. A tentar ganhar forças e fôlego para me levantar.
O dia de ontem. Só por si já iria ser doloroso. Difícil. Vazio para todos. Isso já se sabia. Mas até este ponto? Ainda não acredito no que vi. Quando uma pessoa magoa outra. Ali. Mesmo à tua frente. Da forma mais atroz e cruel que pode existir. Quando essas pessoas fazem, de certo modo, parte de ti. Daquilo que és. Foi mesmo violento ver-me tremer. Sentir como o meu coração ficou pequenino e desfeito. Apeteceu-me levantar e encher-lhe a cara de bofetadas, para ver se sai desse monte de egoísmo e maldade onde mergulhou. Uma coisa é contarem-me situações e eu imagina-las. Outra bem diferente foi ve-las. Acontecer. Mesmo diante dos meus olhos. Foi avassalador. A situação. O local onde estava. Impediram-me de reagir. E a única coisa que consegui fazer, depois, foi dar-lhe um abraço. Forte e apertado. E esperar, de olhos fechados e com o coração todo, que ela percebesse e sentisse. A mim. Sentisse o abraço. E todo o seu significado.

No meio de tanta confusão, ainda tive ‘coragem’ de me desafiar. E fui lá. Depois de mais de cinco anos. Mas para mim, tirando as palavras, que só uma menina (como eu era) podia escrever, nada mais me tocou ali. A minha mãe disse-me que eu sou estranha. Também acho que o sou. E às vezes tenho medo que essa estranheza e frieza (para determinadas situações) me tornem numa má pessoa. Mas a verdade é que a vida, desde cedo, deixou de ser meiga para mim. E a menina piegas teve de aprender a deixar de o ser. E essa frieza acaba por ser apenas uma protecção. Para os outros. Para que não sofram nem se preocupem com as lutas tão grandes que se passam tantas vezes. Cá dentro. E a verdade é que o senti. Tanto. Mais do que nunca. Ontem. Senti o que ele sentiria. A única vez que o vi chorar. A falta que me faz. Todos os dias.

E como se já não bastasse tudo, depois chegou a altura de ser eu magoada. Já o esperava. Mas no fundo, tem-se sempre esperança que estejamos enganados e que as pessoas nos surpreendam. Mesmo que essa esperança seja ridícula e que no fundo saibamos que as pessoas acabam por nos surpreender sempre… nem que seja pela negativa :) e a verdade é que quando já estamos à espera, a marca que fica é sempre maior.

Passei a meia-noite e fiz um ponto final – paragrafo! Mas com a sensação que o que eu precisava mesmo nesta história, era uma mudança de capítulo, apesar de isso exigir demasiada força que eu não sei se serei capaz de encontrar..!


Mafalda Veiga – Restolho (não consigo meter o video)

Durante anos a gostar da Mafa, nunca percebi porque raio ela cantava esta música, que nada me dizia, em todos os concertos. Até esta noite (noite do vídeo) em que de repente ela fez todo o sentido. E aí percebi que das músicas da Mafalda não se gosta ou não gosta. Há que percebe-las. A elas e às entrelinhas. E tentar encaixá-las em nós e em partes da nossa vida. E quando sentimos que elas aconchegam pedaços nossos, do que somos. As músicas ficam. Ficam mesmo. Para sempre. :)

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração


Diz tanto. (L)

Bom ano. Sejam felizes. :)