quarta-feira, 25 de março de 2015

A casa, o lar – o último adeus.

Aquela era a casa que lhe lembrava um lar (antiga, tinha perto de quarenta anos) era ali que aprendera a ser quando ainda não sabia quem era. Olhava para aquele chão de madeira, velho e gasto (outrora alcatifado) e recordava cada brincadeira, cada riso e cada lágrima, cada amor. Agora mesmo vazia, sendo apenas chão e paredes, continuava a encontrar ali um aconchego que jurava não existir em mais lado nenhum. Em cada esquina, canto ou divisão era como se o pudesse encontrar ali, a qualquer segundo (mesmo sabendo que já não estava, que já tinha partido há mais de dez anos), entrar naquela casa era como se o pudesse abraçar para sempre. Ali, onde tinham vivido tão felizes, era como se as memórias pudessem viver para sempre ainda que fossem passado (eram como um degrau no presente que pudesse levar à construção de um futuro) como se não se visse um fim. Sentada no chão em frente à porta podia, por momentos ou horas, viver da esperança de o ver chegar (sabendo que não chegaria, era impossível) aos seus braços, só mais uma vez. Era ilusão e ela sabia, não era louca, mas era hora de se desfazer daquele lar e este, ela sabia-o, seria, de vez, o último adeus.

terça-feira, 24 de março de 2015

Às vezes é só preciso reajustar as estrelas que trazemos por dentro e fazer cada sonho brilhar. Fazê-los maiores do que aquilo que se consegue ver, coloca-los além, para que ninguém os entenda. São nossos, e ninguém precisa saber o tamanho de que somos feitos || May your choices reflect your hopes,not your fear. - As water reflects the face , so one's life reflect the heart. Proverbs 27:19 ||

terça-feira, 17 de março de 2015

O que era para ser –mais feliz e perfeito. Não foi.

O dia tinha nascido lindo com sol, um calor bom e ainda corria um vento fresco, docemente suave, tudo parecia perfeito; mas dentro dela só havia tempestade, trovões rasgavam-na por dentro e uma chuva miudinha, terrivelmente fria, não a deixa esquecer, nem parar de sentir, tudo a atormentava. Não era para ser assim e saber disso era o que a matava, segundo após segundo, sempre mais um bocadinho, tudo tinha sido programado para aquele ser o dia mais feliz e perfeito; não havia como prever que, um mês antes, tudo desmoronaria. Ela era a dona e princesa do seu tão sonhado conto de fadas; mas, agora que o dia mais esperado tinha chegado, já não era nada. Sempre soube que todas a histórias de princesas tinham a sua terrível bruxa má; nunca pensou que na sua história a bruxa estivesse no papel de melhor amiga. Sempre lhe dera o melhor que sabia ser, tinha bem noção disso; mas o seu melhor não lhe chegava, não era o tudo que ela queria. Arrancaram-lhe o coração, inteiro e a sangue frio, e com ele levaram todo o seu amor; nem no chão onde pisava conseguia confiar, desconfiava sempre, não estivesse ele pronto a abrir-se para a engolir. Perdeu a confiança em todas as certezas que a construíam e sustentavam; nem o próprio nome a fazia relembrar quem era, porque já não era quem tinha sido.

segunda-feira, 16 de março de 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

A tua verdade.

Um dia acordas e percebes que a rotina te anula. Que a locomotiva que te apanhou naquela tal estação, cuja morada apagaste do teu mundo, só te arrasta. E tu aceitas. Já nem tens aquele passo. Os teus passos já ganharam outra velocidade. Gritam e imploram, para que lhes dês outro sentido, mas não passam de gritos mudos. Porque tu não lhes dás voz. Formatas-te os ouvidos para só compreenderem o registro da monotonia. Para o teu cérebro a revolta, que te faz por dentro, é reconhecida como poluição sonora. É ignorada e abafada. Só não pode ser eliminada porque a verdade não se cala. Nem se esconde. Mesmo que seja tua. Só tua. E que mais ninguém saiba da sua existência. Mesmo que a camufles na tua parte mais recôndita. Ela não se fica. Ela luta. E grita a plenos pulmões. Ela não se abafa. Não desiste até superar todo e qualquer outro som. Se for preciso a verdade, sujeita-se a uma metamorfose e, torna-se no que for mais necessário. Num martelo, até. Sim, é ela que te martela na cabeça. Sim, há noite, quando queres dormir e não consegues. Quando a cabeça parece não saber parar. É ela, aquela verdade, que é tua, que não a deixa desligar. Ela não morre enquanto em ti houver vida. Ainda que a ignores é ela que sustenta o teu céu, e tu sabes. Ainda que fujas ela só te quer encontrar. Ela não vai descansar até que a encontres e a aceites. A tua verdade só quer ser real. Porque tu mereces. Porque tu a mereces. Contrariamente àquilo em que acreditas, não é o movimento que nos mantém vivos. É ter sentido. Saber para onde ir. A verdade é o melhor caminho. A tua verdade é o teu caminho. Mas só tu a podes seguir depois de a descobrires. Depois de a tornares, mesmo, tua.

terça-feira, 10 de março de 2015

Escrita até meio a quatro mãos. Depois fui. Deu-se isto.

Podia ser tudo, mas era o corpo. Era simples, de uma pureza comovente, mesmo sendo nada. E no entanto dava cabo de mim, como se a vida fosse aquilo, aquele conjunto de pele e de carne Eu não sabia, não entendia, o que era, quem era em mim. Tentei resistir, fazer de conta que não era comigo, mas fechava os olhos e outra vez a tentação, outra vez a vontade. Quanto mais resistia, mais forte ficava. Avancei, sem resistir, e fiz o que tinha de fazer, o que não podia deixar de fazer. Não me culpei, não me torturei, nem podia, por ser fraca. Entreguei-lhe alma e coração, como se fossem seus, quando já o eram. Eu sabia, no fundo sempre soube. De nada valeu, guardá-lo em mim, não dizer em voz alta, não me atrever a sussurra-lo. Aquele sentimento, meu, inquietante e dominador, éramos nós agora, ali, juntos. Já não o podia guardar, nem esconder. O sentimento deixou de se sentir, passou a ser vida. Vivemo-lo, como se fosse o nosso primeiro ar, como sendo o último fôlego. Era como se ali tudo acabasse, onde tudo podia começar. Ali tínhamos nascido, um para o outro, e ali podia ser morto tudo o que era nosso. E sabendo que, naquele momento, tínhamos tudo, nada nos interessava. Os dias, outrora perdidos, eram ganhos. As horas, que corriam a passar, alargavam. Dominávamos o mundo e ele era só nosso. Criámos um mundo nosso porque sabíamos que, para o mundo dos outros, juntos não poderíamos existir, teríamos que ser mentira. Mas, se a mentira é nossa, ela pode ser verdade. A nossa verdade. O impossível dos outros, o inimaginável, é, para nós, tão real quanto as suas verdades. E, o segredo que se guarda, não pode ser estragado. O que se ama, e se guarda, por dentro, dificilmente se estraga em segredo. Ainda que nunca possa, nem venha a, ser gritado. Mesmo que um dia se tenha que o matar. Que nunca nos mate, nem nos morra, em nós, por dentro.