Um dia acordas e percebes que a
rotina te anula. Que a locomotiva que te apanhou naquela tal estação, cuja
morada apagaste do teu mundo, só te arrasta. E tu aceitas. Já nem tens aquele
passo. Os teus passos já ganharam outra velocidade. Gritam e imploram, para que
lhes dês outro sentido, mas não passam de gritos mudos. Porque tu não lhes dás
voz. Formatas-te os ouvidos para só compreenderem o registro da monotonia. Para
o teu cérebro a revolta, que te faz por dentro, é reconhecida como poluição
sonora. É ignorada e abafada. Só não pode ser eliminada porque a verdade não se
cala. Nem se esconde. Mesmo que seja tua. Só tua. E que mais ninguém saiba da
sua existência. Mesmo que a camufles na tua parte mais recôndita. Ela não se
fica. Ela luta. E grita a plenos pulmões. Ela não se abafa. Não desiste até
superar todo e qualquer outro som. Se for preciso a verdade, sujeita-se a uma
metamorfose e, torna-se no que for mais necessário. Num martelo, até. Sim, é
ela que te martela na cabeça. Sim, há noite, quando queres dormir e não
consegues. Quando a cabeça parece não saber parar. É ela, aquela verdade, que é
tua, que não a deixa desligar. Ela não morre enquanto em ti houver vida. Ainda
que a ignores é ela que sustenta o teu céu, e tu sabes. Ainda que fujas ela só
te quer encontrar. Ela não vai descansar até que a encontres e a aceites. A tua
verdade só quer ser real. Porque tu mereces. Porque tu a mereces.
Contrariamente àquilo em que acreditas, não é o movimento que nos mantém vivos.
É ter sentido. Saber para onde ir. A verdade é o melhor caminho. A tua verdade
é o teu caminho. Mas só tu a podes seguir depois de a descobrires. Depois de a
tornares, mesmo, tua.
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