Podia ser
tudo, mas era o corpo. Era simples, de uma pureza comovente, mesmo sendo nada. E
no entanto dava cabo de mim, como se a vida fosse aquilo, aquele conjunto de
pele e de carne Eu não sabia, não entendia, o que era, quem era em mim. Tentei resistir,
fazer de conta que não era comigo, mas fechava os olhos e outra vez a tentação,
outra vez a vontade. Quanto mais resistia, mais forte ficava. Avancei, sem
resistir, e fiz o que tinha de fazer, o que não podia deixar de fazer. Não me
culpei, não me torturei, nem podia, por ser fraca. Entreguei-lhe alma e
coração, como se fossem seus, quando já o eram. Eu sabia, no fundo sempre
soube. De nada valeu, guardá-lo em mim, não dizer em voz alta, não me atrever a
sussurra-lo. Aquele sentimento, meu, inquietante e dominador, éramos nós agora, ali, juntos. Já não o podia guardar, nem esconder. O sentimento deixou de se
sentir, passou a ser vida. Vivemo-lo, como se fosse o nosso primeiro ar, como
sendo o último fôlego. Era como se ali tudo acabasse, onde tudo podia começar.
Ali tínhamos nascido, um para o outro, e ali podia ser morto tudo o que era
nosso. E sabendo que, naquele momento, tínhamos tudo, nada nos interessava. Os
dias, outrora perdidos, eram ganhos. As horas, que corriam a passar, alargavam.
Dominávamos o mundo e ele era só nosso. Criámos um mundo nosso porque sabíamos
que, para o mundo dos outros, juntos não poderíamos existir, teríamos que ser
mentira. Mas, se a mentira é nossa, ela pode ser verdade. A nossa verdade. O
impossível dos outros, o inimaginável, é, para nós, tão real quanto as suas
verdades. E, o segredo que se guarda, não pode ser estragado. O que se ama, e
se guarda, por dentro, dificilmente se estraga em segredo. Ainda que nunca
possa, nem venha a, ser gritado. Mesmo que um dia se tenha que o matar. Que
nunca nos mate, nem nos morra, em nós, por dentro.
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sussurros