O dia tinha nascido lindo com
sol, um calor bom e ainda corria um vento fresco, docemente suave, tudo parecia
perfeito; mas dentro dela só havia tempestade, trovões rasgavam-na por dentro e
uma chuva miudinha, terrivelmente fria, não a deixa esquecer, nem parar de
sentir, tudo a atormentava. Não era para ser assim e saber disso era o que a
matava, segundo após segundo, sempre mais um bocadinho, tudo tinha sido
programado para aquele ser o dia mais feliz e perfeito; não havia como prever
que, um mês antes, tudo desmoronaria. Ela era a dona e princesa do seu tão
sonhado conto de fadas; mas, agora que o dia mais esperado tinha chegado, já
não era nada. Sempre soube que todas a histórias de princesas tinham a sua
terrível bruxa má; nunca pensou que na sua história a bruxa estivesse no papel
de melhor amiga. Sempre lhe dera o melhor que sabia ser, tinha bem noção disso;
mas o seu melhor não lhe chegava, não era o tudo que ela queria. Arrancaram-lhe
o coração, inteiro e a sangue frio, e com ele levaram todo o seu amor; nem no
chão onde pisava conseguia confiar, desconfiava sempre, não estivesse ele
pronto a abrir-se para a engolir. Perdeu a confiança em todas as certezas que a
construíam e sustentavam; nem o próprio nome a fazia relembrar quem era, porque
já não era quem tinha sido.
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