Todos se lembravam bem do quão
insuportavelmente chata era a antiga professora de Filosofia. Com manias de
altivez e superioridade, tratava todos como uma ralé sem a mínima hipótese de
futuro – pelo menos, de um futuro bom ou bem-sucedido. Dirigia-se a todos com
desdém, como se todos se tratassem de meras pedras de tropeço. No meio disto,
vivia com a mania de perseguição. Acreditava que todos ocupavam grande parte do
tempo a conspirar contra ela e que não passavam de pequenos valentes traidores:
como se no meio daquele cenário (que mais parecia de guerra) alguém lhe devesse
algum tipo de lealdade – até amostras de respeito se tornava difícil encontrar.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Carlos e Sofia estavam quase a
terminar de mobilar a casa nova – comprada para condizer com as suas novas
vidas de (recém) casados. Estava apenas a faltar o novo, e incrível, sofá que
tinham escolhido. A entrega estava marcada para o meio-dia daquele dia e a
campainha tocou apenas com uns pequenos minutos de atraso. Carlos desceu para,
caso fosse preciso ou pudesse fazer alguma coisa, ajudar a transportar o sofá
para casa. Quando chegaram, com o sofá ao interior do prédio, rapidamente
descobriram que tinham entre mãos uma missão, praticamente e muito
provavelmente, impossível. O imponente sofá, em forma de L, nunca passaria
pelas escadas. Além de bastante grande tratava-se de um modelo que só na
fábrica seria possível desmontar. A janela também seria, sempre, pequena
demais. Gerou-se um impasse mas Sónia, como qualquer mulher, rapidamente
encontrou a solução: o terraço, nas traseiras – cuja porta de acesso à casa era
suficientemente larga. Único problema: como fazer subir o sofá para um primeiro
andar? Por sorte, um vizinho ao passar apercebeu-se da situação e prontamente
disponibilizou a grua que tinha guardada nas traseiras.
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
Rui perdera há muito a conta ao
número de cromos com que já se tinha cruzado e privado. Cada um mais inútil e desinteressante
que o outro: até dava pena de tão pouca piadinha que tinham – um tédio pegado. Ele
tinha a segurança de saber, sem o mais pequeno receio ou a mínima dúvida, que
era uma pessoa tremendamente incrível e inspiradora. Era sensível, mas
determinado; dono de uma inteligência notável e admirável; com um porte
elegante, a que ninguém ficava indiferente; naturalmente charmoso, educado e
sobretudo cativante. Era orgulhoso de si e não conhecia limites - conquistava
tudo o que queria e chegava sempre onde se propunha. Por isto tudo, percebia
perfeitamente que nem todos podiam estar à sua altura – esse era um privilégio
de muito poucos. Isto fazia-o acreditar que as pessoas, a quem ele se propunha
dispensar um pouco do seu tempo e atenção, se deviam sentir tremendamente
gratas por terem sido escolhidas e eleitas por si. Apesar de se achar sensível,
Rui não era propriamente dado a relações. Saber que poucos poderiam estar, ou
chegar, ao seu nível –ou perto dele – fazia com que não confiasse em ninguém:
até porque dificilmente o entenderiam. Já aqueles que se prendiam ou ligavam
muito aos afectos – aborreciam-no. Para Rui, tudo se baseava e girava em torno
de interesses. Importavam-lhe aqueles que o podiam ajudar ou lançar – que lhe
podiam servir de alguma maneira. Tudo o que passasse disso não passaria de uma
grande perda de tempo. Todas as suas grandes amizades se haviam baseado, no
fundo, nisto: o Bernardo, rapaz impecável e divertido, de boa aparência e de
boas famílias, que lhe apresentava sempre as miúdas mais giras – até descobrir
que afinal era gay. Posto isto, teve que lhe deixar de falar e de frequentar os
sítios onde o pudesse encontrar. Ele era discreto, é certo – mas ninguém
arrisca assim uma reputação. O Paulo, com que se cruzara inúmeras vezes desde
que conseguira o trabalho na empresa e, a quem nunca tinha dado importância
alguma – até lhe contarem que era filho do Presidente. Depois disto, bastou
começar a ser simpático e não demorou até se tornarem bons amigos: tentava era
que as saídas, com ele fossem sempre em grupo –Paulo era dos que gostava de
desabafar e pedir conselhos e no que diz respeito a problemas com namoradas,
era assunto que ele não dominava, nem queria. Havia o João, que tinha diversas
casas de férias espalhadas pela costa do país, que adorava reunir os amigos e
nunca dividia as despesas com o pessoal – um espectáculo de pessoa, sempre
impecável! Recentemente aproximara-se de Luís, simpático e boa onda – sendo
que, era irmão da miúda mais gira de sempre (ou, pelo menos, até ao momento).
Assim que a vira foi impossível, para Rui, não se imaginar a seu lado, de mãos
dadas e por aí adiante. Sabendo que a amizade com o irmão lhe conferia um
estatuto, e proximidade, especial, Rui mostrava-se particularmente dedicado e
interessado em cuidar da saúde daquela amizade. Também não era particularmente
chato nem um sacrifício muito grande e acreditava, mesmo, estar bem encaminhado
e assim pretendia continuar – desde que o maninho não se lembrasse de começar a
chatear muito ou a miúda de se armar em difícil e começar a comportar-se como sendo
a última bolacha do pacote - para ele estava tudo bem.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Vasco era estupidamente tímido e
acanhado. Um simples “Olá”, mais inesperado ou efusivo, era suficiente para o
desfazer em vergonha. Numa noite de verão saíra com os amigos e parecia ter
sido escolhido como o alvo de chacota do grupo. Vasco sentia-se todo a tremer e
a cara inteira a queimar de nervos e vergonha. Ao sentir-se observado, deu-se
conta que Rita – a miúda mais incrível e por quem era perdidamente apaixonado,
em segredo – o olhava com pena, de um canto, do lado oposto do bar. Em noite de
karaoke, viu o microfone aberto e revoltou-se: mesmo aos tropeções, com tantos
nervos, escolheu a música mais pirosa de que se lembrou, foi até ao microfone,
no meio do palco – cantou-a e declarou-se.
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Diante daquele cenário idílico de
fim de tarde, digno de um perfeito final para qualquer filme de Hollywood,
Bruna sabia que estava a léguas de conseguir desempenhar, de forma minimamente
competente, o papel de uma protagonista completa, feliz e realizada numa cena
de final de história. Aliás, tudo o que ela mais queria era ter a certeza de
que a sua história estaria muito longe do fim – de preferência a léguas daquele
final. Até em cenários perfeitos podem decorrer os momentos mais injustos e
errados – e Bruna agora sabia-o, mesmo não conseguindo, nem querendo acreditar.
Dali a poucas horas seria o seu aniversário e, tendo reunido todas as condições
para que tivesse o melhor dia da sua vida, tudo o que lhe passava agora pela
cabeça eram mil e uma maneiras de desaparecer ou fazer com que aquele dia nunca
chegasse ou acontecesse – todas descabidas e, obviamente, impossíveis de
concretizar. As horas iam continuar a passar – era muito provável até que
corressem. A vontade de chorar e desesperar-se era muita e as razões
intermináveis: o namorado, que já era quase noivo, e que terminara tudo porque,
segundo ele, já não fazia sentido (e que a fizera ter ali certeza de que era,
afinal, a grande parte do sentido da vida dela); o trabalho que estava muito
longe de ser o ideal e a fazia quase esquecer-se dos sonhos e metas pelas quais
tanto estudou e se sacrificou, por tantos anos; os pais que a apoiavam mas que,
no fundo, também acreditavam que era ela a culpada por não ir além daquela
vidinha mais ou menos (mais para menos); as amigas, todas estupidamente
felizes, realizadas, casadas (ou quase), gravidas (ou praticamente); e por
último, aquela viagem romântica onde ela tinha praticamente a certeza que seria
pedida em casamento (que fora marcada um mês antes de tudo deixar de fazer
sentido) e para onde acabara por embarcar sozinha. Não havia para onde fugir –
e se calhar nem porquê. Podia esconder-se ou então virar a página e talvez
descobrir, nas linhas logo adiante, uma nova vida – quem sabe completamente
imperdível. E era isto que estava decidida a fazer e onde estava focada. Decidiu
dar o último mergulho do dia e ir depois para o quarto pôr-se no seu melhor –
afinal, mesmo estando sozinha, aquela era a sua noite. Jantou sozinha num
restaurante reservado – e incrível – do hotel e, tendo terminado o jantar, ao
atravessar o átrio do hotel, foi engolida por uma multidão animada que dançava
ao ritmo de uma banda que estava a tocar ao vivo. Sem lhe apetecer resistir,
deixou-se ficar a dançar, embalada por tanta alegria e entusiasmo, leve e solta
– sem pensar em mais nada. Passou algum tempo até se voltar a lembrar do dia
que estava por chegar. Curiosa, ainda que soubesse que ninguém ali saberia ou
quisesse festejar com ela, afastou-se da confusão e pegou no telemóvel para ver
as horas. 23h58 – faltavam dois minutos. Quando, por fim, o relógio marcou a
meia-noite, Bruna sorriu e prometeu a si mesma só se permitir ser feliz durante
as 24 horas seguintes - e de preferência, pelo resto da vida também. Arrumou o
telemóvel na mala que trazia a tira-colo e, quando se preparava para dançar sem
parar a música seguinte, sentiu alguém abraçar-lhe a cintura e uma voz,
estranhamente familiar, sussurrar-lhe ao ouvido: “Já é hoje! Parabéns!”.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Jorge tinha arriscado demais: depois de o ter avisado, tantas vezes, para
que não o repetisse - voltou a fazê-lo. Rita não aguentava mais: estava farta
de ficar presa a alguém que não a respeitava e, mesmo que não mentisse, que lhe
omitia demasiadas coisas. Disse-lhe isso mesmo – e que não o queria ver mais.
Nem se lembrou que, dali a três dias, fariam anos de namoro. Manteve-se
entretida, a tentar ocupar-se com tudo de que se lembrava, para calar e sufocar
as saudades. Conseguiu e nem se lembrou – mas Jorge não se esqueceu: encheu-lhe
o carro de flores. Assim que o viu, Rita só se conseguiu lembrar de tanta
saudade que gritava e correu a abraçá-lo.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Depois de um dia cansativo, e de
muito trabalho, Juliana foi – já sem grande vontade – ter com uma amiga, que
não via há muito, para lanchar e por a conversa em dia. Combinaram encontrar-se
num hotel muito renomado da cidade. Juliana chegou 5 minutos antes da hora
combinada e sentou-se, à espera, no bar do hotel. Com 20 minutos de atraso
recebeu um telefonema rápido da amiga que pedia desculpas, pois tinha ficado
presa no trabalho devido a um imprevisto – sem ter qualquer previsão de hora de
saída. Apesar de chateada pelo tempo perdido – logo depois de um dia tão exigente
e que a deixara exausta – Juliana resolveu aproveitar para conhecer a famosa
piscina do hotel, tão elogiada, em todo o lado, nos últimos tempos. Foi
seguindo as indicações e não demorou a encontra-la. Era realmente incrível: uma
piscina com a forma de uma guitarra. Nunca tinha pensado muito nisso mas, ali,
aos pés da piscina-guitarra, Juliana viu-se sorrir enquanto se questionava de
onde as pessoas conseguiam tirar ideias tão mirabolantes e ainda arriscar e ter
a coragem para as fazer funcionar. Mas era de facto impressionante – não só a
forma da piscina mas também o cuidado com cada pormenor que se ia descobrindo e
percebendo: o recorte de uma forma de guitarra perfeita; as seis cordas desenhadas;
a prancha e os três repuxos a jorrar água fresquinha… não era nada difícil,
para Juliana, imaginar-se ali, num dia de descanso, entre uns bons mergulhos e
a ter que decidir entre apanhar sol em uma das quatro espreguiçadeiras, que
estavam ali à sua esquerda, ou refrescar-se, com uns bons e deliciosos
cocktails, numa daquelas confortáveis cadeiras, à sombra de qualquer um dos
três chapéus dispostos ao redor da piscina. Enquanto se perdeu, a imaginar-se numa
tarde de descanso perfeito, deixou passar tempo demais e, quando se deu conta,
já começava a ficar atrasada para chegar a casa a horas do jantar. Resolveu
voltar à terra, acelerar o passo e pôr-se a caminho. Estava a chegar à porta de
saída do hotel quando se assustou ao sentir alguém agarrar-lhe o braço. Ao
virar-se deu de caras com a Ana, uma querida amiga de infância.
- Ei, ei, ei, calma! Que pressa é
essa? Vais toda lançada – como se tivesses uma fera atrás de ti, a correr para
te apanhar…
– Oh, não te vi! Desculpa! Bom, a fera não se vê mas, anda aqui a
marcar-me o passo… chama-se tempo: ando a tentar passar-lhe a perna e ganhar
algum avanço – sem grande sucesso…
– Pois, geralmente quando nos
lembramos e queremos saber acabamos sempre por dar conta que os ponteiros e o
calendário funcionam mais a favor dele do que ao nosso. Mas estamos a falar de
alguma coisa realmente importante ou estás só atrasada?
- Não, vou agora para casa – não estou com pressa nem atrasada… estou
mais desassossegada! Sei lá… acho que me atrasei: na vida. Pelo menos, na vida
que projectei e idealizei para mim… estou atrasada: falta e sobra-me, ainda,
tanto caminho.
- E o desassossego inspira-te
para a filosofia – está visto. Miúda, é normal parecer-nos que a vida está lá à
frente e julgarmo-nos pouco para ela – para o que ela pede. Mas sonhar e pedir
é mais fácil, e acessível, que realizar e ter. Nós não somos pouco: muitas
vezes queremos é demais e ainda não está na hora.
- E como é que sabes que é demais? E se achares que não é? Parece que
todos continuaram e que eu parei. Só eu. Parece que, algures, deixei de saber
andar e continuar – fiquei só aqui. E agora, que me dei conta e quero seguir,
perdi o meu caminho. Como se já não existisse lugar para mim – vi-o passar e
não o soube ocupar. Pensei que ficaria guardado, à espera, mas enganei-me.
- Sim, acontece. Mas já pensaste
que, entretanto, aquele lugar podia não te servir mais? Que isto dá-te a
oportunidade de não teres de aceitar um lugar que, algures, passou –que, no
fundo, nunca soubeste onde ia dar- e ires à procura de um que seja o certo. Que
tenha a tua medida. E se não o encontrares, melhor: podes criá-lo tu – o lugar
e o teu caminho.
- E se engordei tanto que já não encontre lugar que me sirva? E se
continuar tão despassarada que já nem saiba seguir em frente?
- Oh, por favor! Se não fosses
essa trinca-espinhas eu até te dizia que toda a gordinha tem e merece encontrar
o seu lugar no mundo. E o caminho em frente é fácil: é focar e seguir, passo a
passo, sem pressa – porque a paisagem inspira sempre.
- Isso dependerá sempre do tipo de paisagem…
- Ah, pára! Isso já és tu a fazer
fita a mais! Cá para mim o lugar já está mesmo aí e tu também já sabes
perfeitamente onde está o caminho certo a seguir. Esse teu desassossego todo és
tu a guerrear entre a coragem e o medo – e até já sabes que é à coragem a quem
tens de dar a vitória.
- Tens que me explicar onde e quando eu deixei que me conhecesses tão
bem… Sei lá, só para ter a certeza que não deixo que aconteça com mais ninguém.
- Sabes tão bem quanto eu que já
são muitos anos a conviver com as tuas inseguranças e incertezas – todas
grandes demais e, na maioria das vezes, desnecessárias. Agora podias era
contar-me o que anda para aí!
- Pois. Podia. Ai, mas dá-me tempo! Vamos deixar o baú fechado, por
enquanto, que já me vandalizaram o tesouro muitas vezes! Deixa-me convencer, de
vez, a confiança de que é –e deve sempre ser- maior que o medo. Depois
conto-te. Depois logo se grita.
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