Rui perdera há muito a conta ao
número de cromos com que já se tinha cruzado e privado. Cada um mais inútil e desinteressante
que o outro: até dava pena de tão pouca piadinha que tinham – um tédio pegado. Ele
tinha a segurança de saber, sem o mais pequeno receio ou a mínima dúvida, que
era uma pessoa tremendamente incrível e inspiradora. Era sensível, mas
determinado; dono de uma inteligência notável e admirável; com um porte
elegante, a que ninguém ficava indiferente; naturalmente charmoso, educado e
sobretudo cativante. Era orgulhoso de si e não conhecia limites - conquistava
tudo o que queria e chegava sempre onde se propunha. Por isto tudo, percebia
perfeitamente que nem todos podiam estar à sua altura – esse era um privilégio
de muito poucos. Isto fazia-o acreditar que as pessoas, a quem ele se propunha
dispensar um pouco do seu tempo e atenção, se deviam sentir tremendamente
gratas por terem sido escolhidas e eleitas por si. Apesar de se achar sensível,
Rui não era propriamente dado a relações. Saber que poucos poderiam estar, ou
chegar, ao seu nível –ou perto dele – fazia com que não confiasse em ninguém:
até porque dificilmente o entenderiam. Já aqueles que se prendiam ou ligavam
muito aos afectos – aborreciam-no. Para Rui, tudo se baseava e girava em torno
de interesses. Importavam-lhe aqueles que o podiam ajudar ou lançar – que lhe
podiam servir de alguma maneira. Tudo o que passasse disso não passaria de uma
grande perda de tempo. Todas as suas grandes amizades se haviam baseado, no
fundo, nisto: o Bernardo, rapaz impecável e divertido, de boa aparência e de
boas famílias, que lhe apresentava sempre as miúdas mais giras – até descobrir
que afinal era gay. Posto isto, teve que lhe deixar de falar e de frequentar os
sítios onde o pudesse encontrar. Ele era discreto, é certo – mas ninguém
arrisca assim uma reputação. O Paulo, com que se cruzara inúmeras vezes desde
que conseguira o trabalho na empresa e, a quem nunca tinha dado importância
alguma – até lhe contarem que era filho do Presidente. Depois disto, bastou
começar a ser simpático e não demorou até se tornarem bons amigos: tentava era
que as saídas, com ele fossem sempre em grupo –Paulo era dos que gostava de
desabafar e pedir conselhos e no que diz respeito a problemas com namoradas,
era assunto que ele não dominava, nem queria. Havia o João, que tinha diversas
casas de férias espalhadas pela costa do país, que adorava reunir os amigos e
nunca dividia as despesas com o pessoal – um espectáculo de pessoa, sempre
impecável! Recentemente aproximara-se de Luís, simpático e boa onda – sendo
que, era irmão da miúda mais gira de sempre (ou, pelo menos, até ao momento).
Assim que a vira foi impossível, para Rui, não se imaginar a seu lado, de mãos
dadas e por aí adiante. Sabendo que a amizade com o irmão lhe conferia um
estatuto, e proximidade, especial, Rui mostrava-se particularmente dedicado e
interessado em cuidar da saúde daquela amizade. Também não era particularmente
chato nem um sacrifício muito grande e acreditava, mesmo, estar bem encaminhado
e assim pretendia continuar – desde que o maninho não se lembrasse de começar a
chatear muito ou a miúda de se armar em difícil e começar a comportar-se como sendo
a última bolacha do pacote - para ele estava tudo bem.
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