quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Rui perdera há muito a conta ao número de cromos com que já se tinha cruzado e privado. Cada um mais inútil e desinteressante que o outro: até dava pena de tão pouca piadinha que tinham – um tédio pegado. Ele tinha a segurança de saber, sem o mais pequeno receio ou a mínima dúvida, que era uma pessoa tremendamente incrível e inspiradora. Era sensível, mas determinado; dono de uma inteligência notável e admirável; com um porte elegante, a que ninguém ficava indiferente; naturalmente charmoso, educado e sobretudo cativante. Era orgulhoso de si e não conhecia limites - conquistava tudo o que queria e chegava sempre onde se propunha. Por isto tudo, percebia perfeitamente que nem todos podiam estar à sua altura – esse era um privilégio de muito poucos. Isto fazia-o acreditar que as pessoas, a quem ele se propunha dispensar um pouco do seu tempo e atenção, se deviam sentir tremendamente gratas por terem sido escolhidas e eleitas por si. Apesar de se achar sensível, Rui não era propriamente dado a relações. Saber que poucos poderiam estar, ou chegar, ao seu nível –ou perto dele – fazia com que não confiasse em ninguém: até porque dificilmente o entenderiam. Já aqueles que se prendiam ou ligavam muito aos afectos – aborreciam-no. Para Rui, tudo se baseava e girava em torno de interesses. Importavam-lhe aqueles que o podiam ajudar ou lançar – que lhe podiam servir de alguma maneira. Tudo o que passasse disso não passaria de uma grande perda de tempo. Todas as suas grandes amizades se haviam baseado, no fundo, nisto: o Bernardo, rapaz impecável e divertido, de boa aparência e de boas famílias, que lhe apresentava sempre as miúdas mais giras – até descobrir que afinal era gay. Posto isto, teve que lhe deixar de falar e de frequentar os sítios onde o pudesse encontrar. Ele era discreto, é certo – mas ninguém arrisca assim uma reputação. O Paulo, com que se cruzara inúmeras vezes desde que conseguira o trabalho na empresa e, a quem nunca tinha dado importância alguma – até lhe contarem que era filho do Presidente. Depois disto, bastou começar a ser simpático e não demorou até se tornarem bons amigos: tentava era que as saídas, com ele fossem sempre em grupo –Paulo era dos que gostava de desabafar e pedir conselhos e no que diz respeito a problemas com namoradas, era assunto que ele não dominava, nem queria. Havia o João, que tinha diversas casas de férias espalhadas pela costa do país, que adorava reunir os amigos e nunca dividia as despesas com o pessoal – um espectáculo de pessoa, sempre impecável! Recentemente aproximara-se de Luís, simpático e boa onda – sendo que, era irmão da miúda mais gira de sempre (ou, pelo menos, até ao momento). Assim que a vira foi impossível, para Rui, não se imaginar a seu lado, de mãos dadas e por aí adiante. Sabendo que a amizade com o irmão lhe conferia um estatuto, e proximidade, especial, Rui mostrava-se particularmente dedicado e interessado em cuidar da saúde daquela amizade. Também não era particularmente chato nem um sacrifício muito grande e acreditava, mesmo, estar bem encaminhado e assim pretendia continuar – desde que o maninho não se lembrasse de começar a chatear muito ou a miúda de se armar em difícil e começar a comportar-se como sendo a última bolacha do pacote - para ele estava tudo bem.

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