Diante daquele cenário idílico de
fim de tarde, digno de um perfeito final para qualquer filme de Hollywood,
Bruna sabia que estava a léguas de conseguir desempenhar, de forma minimamente
competente, o papel de uma protagonista completa, feliz e realizada numa cena
de final de história. Aliás, tudo o que ela mais queria era ter a certeza de
que a sua história estaria muito longe do fim – de preferência a léguas daquele
final. Até em cenários perfeitos podem decorrer os momentos mais injustos e
errados – e Bruna agora sabia-o, mesmo não conseguindo, nem querendo acreditar.
Dali a poucas horas seria o seu aniversário e, tendo reunido todas as condições
para que tivesse o melhor dia da sua vida, tudo o que lhe passava agora pela
cabeça eram mil e uma maneiras de desaparecer ou fazer com que aquele dia nunca
chegasse ou acontecesse – todas descabidas e, obviamente, impossíveis de
concretizar. As horas iam continuar a passar – era muito provável até que
corressem. A vontade de chorar e desesperar-se era muita e as razões
intermináveis: o namorado, que já era quase noivo, e que terminara tudo porque,
segundo ele, já não fazia sentido (e que a fizera ter ali certeza de que era,
afinal, a grande parte do sentido da vida dela); o trabalho que estava muito
longe de ser o ideal e a fazia quase esquecer-se dos sonhos e metas pelas quais
tanto estudou e se sacrificou, por tantos anos; os pais que a apoiavam mas que,
no fundo, também acreditavam que era ela a culpada por não ir além daquela
vidinha mais ou menos (mais para menos); as amigas, todas estupidamente
felizes, realizadas, casadas (ou quase), gravidas (ou praticamente); e por
último, aquela viagem romântica onde ela tinha praticamente a certeza que seria
pedida em casamento (que fora marcada um mês antes de tudo deixar de fazer
sentido) e para onde acabara por embarcar sozinha. Não havia para onde fugir –
e se calhar nem porquê. Podia esconder-se ou então virar a página e talvez
descobrir, nas linhas logo adiante, uma nova vida – quem sabe completamente
imperdível. E era isto que estava decidida a fazer e onde estava focada. Decidiu
dar o último mergulho do dia e ir depois para o quarto pôr-se no seu melhor –
afinal, mesmo estando sozinha, aquela era a sua noite. Jantou sozinha num
restaurante reservado – e incrível – do hotel e, tendo terminado o jantar, ao
atravessar o átrio do hotel, foi engolida por uma multidão animada que dançava
ao ritmo de uma banda que estava a tocar ao vivo. Sem lhe apetecer resistir,
deixou-se ficar a dançar, embalada por tanta alegria e entusiasmo, leve e solta
– sem pensar em mais nada. Passou algum tempo até se voltar a lembrar do dia
que estava por chegar. Curiosa, ainda que soubesse que ninguém ali saberia ou
quisesse festejar com ela, afastou-se da confusão e pegou no telemóvel para ver
as horas. 23h58 – faltavam dois minutos. Quando, por fim, o relógio marcou a
meia-noite, Bruna sorriu e prometeu a si mesma só se permitir ser feliz durante
as 24 horas seguintes - e de preferência, pelo resto da vida também. Arrumou o
telemóvel na mala que trazia a tira-colo e, quando se preparava para dançar sem
parar a música seguinte, sentiu alguém abraçar-lhe a cintura e uma voz,
estranhamente familiar, sussurrar-lhe ao ouvido: “Já é hoje! Parabéns!”.
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