
Eram praticamente 5 da manhã e,
eu juro que já não faço ideia do que nos deu e de como fomos lá parar, certo é
que começámos a falar de perdão. Para elas, nem havia discussão, há coisas
imperdoáveis e, quanto a isso, não há margem para dúvidas. Já eu, penso exatamente
o contrário. Para mim, tudo pode ser, e é, perdoável. Eu percebo-as bem. Até há
muito pouco tempo pensava precisamente como elas e custou-me muito perceber que
o contrário é possível. Não é difícil. E é o melhor. O que nos faz melhor. Mas,
assim como não é nada fácil entender, também é tão difícil explicar. Acho que o
grande problema é perceber que ‘perdoar não é esquecer’. Uma coisa é perdoar,
outra é ser otária. E uma, não implica a outra. Todos erramos. Vamos errar
sempre. E por isso, toda a gente merece novas oportunidades (varias, sim). Mas
há que dar sempre muito valor, a quem as dá e à oportunidade de as ter. Agora,
não se pode querer e esperar ter uma nova oportunidade todos os dias. É aqui
que entra o nosso amor e, sobretudo, o respeito próprio. Há quem erre, se
arrependa e aprenda com cada erro. Mas também há quem nunca mude e quem nos vá
sempre magoar e desiludir. Cabe-nos a nós ter o discernimento de perceber quem,
a dada altura, já nos faz mais mal, que bem. E às vezes afastarmo-nos, radicalmente,
por mais que doa, e o natural é doer muito, é o que nos liberta. Mas lá está,
este afastamento inclui o perdão. E aqui aparece o outro grande problema e que,
normalmente, lixa tudo: a mágoa! As pessoas adoram guardar mágoas e alimentá-las. Às vezes a relação com as
pessoas nem se altera mas, a mágoa existe e vai ficando guardada. Vai ficando e
vai crescendo. E isto acontece porque se cria a ilusão que ao alimentar a mágoa
se está a castigar o outro. Quando, o mais certo é a outra pessoa não ter a
mais pequena noção e viver sem o mínimo peso na consciência. Conclusão: a mágoa
só mói, corrói e estraga quem a tem, a sente e guarda. Deve ter sido mais ou
menos aqui, que me disseram: ‘Então mas, se te afastas, não perdoaste!’. Para perdoar,
eu não preciso de me sujeitar a tudo. Afastar-me da pessoa, não implica ter que
a odiar para o resto dos meus dias. Posso fazê-lo sem ressentimentos. Também não
preciso de continuar a morrer de amores. Posso só simpatizar, até gostar. Posso,
e devo!, respeitá-las e desejar-lhes sempre o melhor. E assim, vivo e sou,
muito melhor. A sério.