João chegara a casa furioso: atirou
casaco, sapatos, calças, camisa e gravata para o chão do corredor e enfiara-se
debaixo de um duche gelado – não o suficiente para lhe apagar a raiva. Pensar
em Jorge, o seu irmão mais novo, deixava-o fora de si: Jorge sempre fora o
filho querido do seu pai – o caçula, o mais espontâneo e divertido – e isso
nunca fora problema; enquanto o irmão ia vivendo as suas aventuras e divertindo
todos com as suas mil e uma histórias, Jorge era o braço direito (e muitas vezes
também o esquerdo) do pai e comandava, no fundo, todos os negócios. Mas, de há
um ano para cá, uns cinco anos depois de ter terminado o curso, a criança
inconsequente resolvera interessar-se pela empresa da família e, –
extraordinariamente – aos olhos de seu pai, transformara-se na contratação mais
promissora, competente e inovadora de sempre: causando náuseas insuportáveis a
João. Pensar que o irmão começava a ganhar credibilidade e o respeito de todos
era assistir na primeira fila à piada mais inconcebível e estapafúrdia da
história. Ver aquele pirralho asqueroso a conquistar um espaço que lhe devia
pertencer fazia-o perder a calma e o juízo; perguntava-se se o seu pai não
estaria a ficar senil e se esquecera de quem fora por anos o seu homem de
confiança. No meio de tanta raiva só lhe restava uma certeza: o pestinha ia ter
que se espalhar – sozinho ou com ajuda, ia ter que estragar tudo. Era o que
faltava – depois de tantos anos de esforço e dedicação, vir um insolente
tirar-lhe o lugar e roubar-lhe tudo o que deveria ser seu.
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