quinta-feira, 4 de junho de 2015

Naquela tarde, Carlos chegou atrasado: bateu à porta e, assim que ouviu uma resposta afirmativa, entrou – bastante suado e muito vermelho - tendo tropeçado no caixote do lixo que está logo à entrada e ido também contra o quadro à direita. Pediu desculpa e, ao som de uma série de gargalhadas sufocadas dos colegas, dirigiu-se até ao seu lugar na mesa. De seguida, o director levantou-se e deu início à reunião. Carlos dava graças a Deus por ser o segundo e não o primeiro a ter que intervir: as suas pernas tremiam e a sua respiração estava ainda irregular. Para se acalmar procurava prestar atenção na exposição do colega e o facto de ir percebendo que este não respeitara, na sua proposta, os pedidos e desejos do cliente, ia-lhe aumentando a confiança. Por fim, chegara a sua vez: o frio na barriga aumentara e as suas mãos suavam. Abriu o power point, começou a expor o seu projecto e as suas ideias - e serenou. Os sorrisos, os acenos e os discretos murmúrios de exclamação dos seus colegas mostravam-lhe que, mais uma vez, tinha acertado. Ele mesmo estava orgulhoso do seu projecto: uma casa de férias com traços modernos e simples, ecologicamente viável e sustentável –tal como lhes fora pedido. E ao deparar-se com tantos sorrisos, de aprovação e admiração, da sala, deu-se conta de que, em si, o sorriso e o frio na barriga também permaneciam: mas agora eram de felicidade por um dever cumprido – e bem.

Dirigiu-se à cadeira que lhe pertencia e respirou fundo – o seu coração continuava a bombear ao ritmo de uma adrenalina acelerada. De seguida o director levantou-se – entretanto já tinha o nó da gravata solto e os primeiros botões da camisa desapertados – e, com um sorriso largo no rosto, disse que, embora fosse ainda necessária uma aprovação superior, à partida seria aquele o projecto escolhido e que Carlos ficaria, obviamente, responsável por ele. Carlos sentiu um calor, vindo do peito, avermelhar-lhe o rosto e libertar-se num generoso sorriso, enquanto os colegas iam batendo palmas e dando-lhe valentes palmadas nas costas. Tendo a reunião acabado, foram tomar um copo ao bar em frente ao escritório. Pediram cervejas para todos. Carlos foi brindando mas, cada gole ia afligindo-lhe cada vez mais a garganta – enquanto sonhava com alguma coisa sem álcool: um copo de água que fosse. Quando o primeiro colega decidiu ir embora, Carlos aproveitou e acompanhou-o para fora do bar. Como naquele dia não tinha levado carro, seguiu em direcção ao metro. Desceu as escadas, uma a uma, sem a pressa de ter que chegar a algum lado, picou o bilhete e deixou-se ficar a observar: a miúda de fones no ouvido - a ouvir um hip hop cru que devia ser percetível até ao fundo da estação – e com uma mochila, velha e rasgada, às costas; a mãe, carregada de sacos e mochilas, a segurar pelas mãos dois miúdos gémeos, idênticos (tanto na cara como no desassossego); o homem de negócios com o nó da gravata solto e de fato (e cara também) amassado… Quando chega o metro: Carlos entrou e, vendo que não havia lugar onde se sentar, deixou-se ficar junto à porta. Decidiu, entretanto, sair no Rossio. Seguiu, apanhando o ar fresco de fim de tarde, passando pelos mais diferentes tipos de pessoas. Fez uma paragem para comprar um gelado de duas bolas: uma de menta e outra de limão – fresco, refrescante e ácido, para fazer despertar bem em si aquele dia de vitória. Acabou sentado junto ao rio, no Terreiro do Paço: já quando o sol tocava na água, como que dando-lhe um beijo de despedida até ao dia seguinte. Carlos fechou os olhos, respirou fundo e sorriu: ansioso e esperançoso pelo amanhã que estava para chegar.

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sussurros