João chegara a casa furioso: atirou
casaco, sapatos, calças, camisa e gravata para o chão do corredor e enfiara-se
debaixo de um duche gelado – não o suficiente para lhe apagar a raiva. Pensar
em Jorge, o seu irmão mais novo, deixava-o fora de si: Jorge sempre fora o
filho querido do seu pai – o caçula, o mais espontâneo e divertido – e isso
nunca fora problema; enquanto o irmão ia vivendo as suas aventuras e divertindo
todos com as suas mil e uma histórias, Jorge era o braço direito (e muitas vezes
também o esquerdo) do pai e comandava, no fundo, todos os negócios. Mas, de há
um ano para cá, uns cinco anos depois de ter terminado o curso, a criança
inconsequente resolvera interessar-se pela empresa da família e, –
extraordinariamente – aos olhos de seu pai, transformara-se na contratação mais
promissora, competente e inovadora de sempre: causando náuseas insuportáveis a
João. Pensar que o irmão começava a ganhar credibilidade e o respeito de todos
era assistir na primeira fila à piada mais inconcebível e estapafúrdia da
história. Ver aquele pirralho asqueroso a conquistar um espaço que lhe devia
pertencer fazia-o perder a calma e o juízo; perguntava-se se o seu pai não
estaria a ficar senil e se esquecera de quem fora por anos o seu homem de
confiança. No meio de tanta raiva só lhe restava uma certeza: o pestinha ia ter
que se espalhar – sozinho ou com ajuda, ia ter que estragar tudo. Era o que
faltava – depois de tantos anos de esforço e dedicação, vir um insolente
tirar-lhe o lugar e roubar-lhe tudo o que deveria ser seu.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Como eu sei que vais sempre passando por aqui…
Que estas saudades inacreditáveis, que guardo comigo, se transformem na força do
aperto de mil abraços e cheguem até aí! Parabéns, meu amor! ❤️ #terassimtantassaudadesnãotemaminímapiada #achobemqueosaibas #fazesfalta
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Era uma menina
de gostos simples, fino trato e com uma complexidade interior que camuflava por
camadas. O seu coração chegava e encantava a todos os que perto se aproximavam
– já a ela nem por isso. A ela, aquele coração tão meigo, generoso e acolhedor,
incomodava-a; para lá das qualidades que tantos admiravam existia também um coração
explicativo, que só se permitia sentir aquilo que entendia e, que lhe exigia
uma explicação definida para qualquer tremor ou batimento mais forte. Qualquer
sinal veloz de um possível encanto ou deslumbramento, que não fossem
inteiramente racionais e justificáveis, o coração enrijecia; desconhecia
qualquer tipo de paixão assolapada ou arrebatadora que o virasse do avesso ou
lhe arrancasse o chão: só se permitia entregar a paixões terrestres – onde mantivesse
pés e cabeça bem assentes, um ritmo cardíaco normal e onde dominasse e
controlasse todas as respostas para cada pergunta que surgisse. Ela colecionava
um número corredor de histórias e encantos que nunca tinham chegado a ser; todo
o amor que dedicava a quem se aproximava fazia parte de tudo o que não se
permitia sentir – porque se dar amor a quem nos rodeia liberta, guardar por
dentro o amor de alguém pode prender: podemos perder-nos, para sempre, nessa
prisão – sem volta. É um existir que nos atormenta; isto de não poder ser de
ninguém quando se quer bem a tanta gente e quando tanta gente nos quer –bem-
também. Ninguém suspeitava ou podia adivinhar o tamanho do dilema; e ainda bem
– nem ela o conseguia entender: quanto mais explicar. É como se o cérebro
bloqueasse um coração ferido, pouco cuidado e estimado; é o coração que se
lança e fere mas é o cérebro quem processa, disseca e entende a dor – é natural
que o cérebro queira proteger e preservar o coração, mesmo podendo ser egoísta
– é por ele, e graças a ele, que (se) vive.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Aquela era a sua natureza desde
que se conhecia por gente: sempre desinibido, muito extrovertido – quase sempre
mais do que seria aconselhável – e um grande e desenvolto loquaz. Por onde
passava gostava de ser o centro das atenções e de ser notado; não podia passar
despercebido: precisava de ser visto, que reparassem, que o comentassem - mal
ou bem, pouco lhe importava. Como se a sua alma só encontrasse vida nos olhares
dos outros; quem era não lhe bastava: era muito longe de quem queria e
imaginava ser - muito longe do que acreditava que os outros viam. Vivia iludido
sem o ser e, no fundo, sem iludir mais ninguém: todos viam o quanto era perdido
e o quão ansiava por se encontrar – ou que alguém o encontrasse e ele aí se
ganhasse. Todos tinham mais ternura do que pena (ou, pelo menos, faziam por
ter). É triste quando uma pessoa boa não se chega ou preenche; é triste quando
alguém se faz um falhado porque quem não devia falhar falhou: logo no essencial
e mais importante - no amor.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
A noite chegara e o desespero
tomava-lhes conta: do corpo e da esperança. Já tinham perscrutado tudo – todas
as ruas, cantos e recantos – e tudo fora em vão; embora custasse era altura de
aceitar: a sua menina desaparecera. Sem que pudessem perceber, ali, debaixo dos
seus olhos, fintara-os e fugira; agora corria e lançava-se, de peito aberto, a todos
os perigos de que sempre a protegeram – a tudo de que sempre a quiseram desviar.
Sem que houvesse muito mais que pudessem fazer não conseguiam aguentar as
tamanhas questões que, sozinhas – sem que perguntassem por elas –, se soltavam
e cruelmente os torturavam: como pode alguém perder-se no meio de um amor
criado para salvar? Como se pode salvar alguém que só se consegue encontrar
perdido?
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Nem ela se conseguia encarar ou
aguentar; a culpa consumia-a e começava a tirar-lhe o ar (todo, e cada restinho
dele também). Elaborava, na sua cabeça, desde os mais simples aos mais
mirabolantes planos a fim de se tergiversar; tendo perfeita noção de que tudo
era em vão: ninguém aceitaria nenhum dos possíveis argumentos – quando nem a si
traziam qualquer tipo de paz. Ela sabia que toda a desilusão e revolta que
causara a deviam envergonhar e preocupar; mas, na verdade, aquilo que a
torturava - sem qualquer condescendência ou intervalo - era toda a pena que
sentia de si mesma: e era tanta! Tratava-se de uma personalidade incrível –
digna de todo o respeito e admiração de muitos – mas sabia que a sua existência
era das mas inúteis e tristes: tendo tudo, sem que algo lhe faltasse, exista
sem nada. Não conseguia sentir afecto por ninguém e todo o amor - que não fosse
o próprio – era a sua mais abstracta utopia. Ela sabia – no fundo, só ela o
sabia –o quanto era triste e deplorável ser nada no meio de tanto (que para
tantos outros seria tudo).
terça-feira, 5 de maio de 2015
Aquele era um sentimento
estranho, nunca antes experimentado; e ele sabia que não existiria volta:
estava encartado ao desconhecido. Sem nunca ter saído da bolha que criara e
onde sempre vivera, via-se agora preso a uma arte: a música. E agora? Que fazer
ao curso de direito, que nunca o fizera sentir vivo mas, que sempre encantara a
família inteira? Parecia-lhe impossível desprender-se de sonhos alheios, que
sempre sustentara, para passar a viver – a mover – os seus; como que uma culpa
que o aprisionava e condicionava. Mas ele sabia que o grito urgia e que aquela
culpa não era sua; ele era livre- era música.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Nada o fazia prever e isso
deixou-a desolada. Júlia não contava com o fenecimento da empresa onde
trabalhava desde sempre; era-lhe inconcebível imaginar-se noutro local.
Encontrava-se dividida entre tantas saudades e todas as incertezas: incapaz de distinguir
o que lhe doía mais. Às tantas decidiu ir comprar tabaco. Nunca tinha fumado um
cigarro na vida, mas há alturas em que é preciso entreter o tempo (já que ele
não para e só corre): aquela pareceu-lhe perfeita.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Era de natureza simples e trato fácil.
Todos lhe conheciam a simpatia e gentileza; sempre pândego e com um sorriso
imenso e envolvente, parecia impossível perturbar-lhe as convicções. Até uma
paixão lhe tirar o chão e mudar o norte. Perdeu-se no coração e encontrou a
incerteza. O amor pode ser tudo ou deixar-nos sem nada.
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