quinta-feira, 28 de maio de 2015

João chegara a casa furioso: atirou casaco, sapatos, calças, camisa e gravata para o chão do corredor e enfiara-se debaixo de um duche gelado – não o suficiente para lhe apagar a raiva. Pensar em Jorge, o seu irmão mais novo, deixava-o fora de si: Jorge sempre fora o filho querido do seu pai – o caçula, o mais espontâneo e divertido – e isso nunca fora problema; enquanto o irmão ia vivendo as suas aventuras e divertindo todos com as suas mil e uma histórias, Jorge era o braço direito (e muitas vezes também o esquerdo) do pai e comandava, no fundo, todos os negócios. Mas, de há um ano para cá, uns cinco anos depois de ter terminado o curso, a criança inconsequente resolvera interessar-se pela empresa da família e, – extraordinariamente – aos olhos de seu pai, transformara-se na contratação mais promissora, competente e inovadora de sempre: causando náuseas insuportáveis a João. Pensar que o irmão começava a ganhar credibilidade e o respeito de todos era assistir na primeira fila à piada mais inconcebível e estapafúrdia da história. Ver aquele pirralho asqueroso a conquistar um espaço que lhe devia pertencer fazia-o perder a calma e o juízo; perguntava-se se o seu pai não estaria a ficar senil e se esquecera de quem fora por anos o seu homem de confiança. No meio de tanta raiva só lhe restava uma certeza: o pestinha ia ter que se espalhar – sozinho ou com ajuda, ia ter que estragar tudo. Era o que faltava – depois de tantos anos de esforço e dedicação, vir um insolente tirar-lhe o lugar e roubar-lhe tudo o que deveria ser seu.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Como eu sei que vais sempre passando por aqui…

Que estas saudades inacreditáveis, que guardo comigo, se transformem na força do aperto de mil abraços e cheguem até aí! Parabéns, meu amor! ❤️ #terassimtantassaudadesnãotemaminímapiada #achobemqueosaibas #fazesfalta

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Era uma menina de gostos simples, fino trato e com uma complexidade interior que camuflava por camadas. O seu coração chegava e encantava a todos os que perto se aproximavam – já a ela nem por isso. A ela, aquele coração tão meigo, generoso e acolhedor, incomodava-a; para lá das qualidades que tantos admiravam existia também um coração explicativo, que só se permitia sentir aquilo que entendia e, que lhe exigia uma explicação definida para qualquer tremor ou batimento mais forte. Qualquer sinal veloz de um possível encanto ou deslumbramento, que não fossem inteiramente racionais e justificáveis, o coração enrijecia; desconhecia qualquer tipo de paixão assolapada ou arrebatadora que o virasse do avesso ou lhe arrancasse o chão: só se permitia entregar a paixões terrestres – onde mantivesse pés e cabeça bem assentes, um ritmo cardíaco normal e onde dominasse e controlasse todas as respostas para cada pergunta que surgisse. Ela colecionava um número corredor de histórias e encantos que nunca tinham chegado a ser; todo o amor que dedicava a quem se aproximava fazia parte de tudo o que não se permitia sentir – porque se dar amor a quem nos rodeia liberta, guardar por dentro o amor de alguém pode prender: podemos perder-nos, para sempre, nessa prisão – sem volta. É um existir que nos atormenta; isto de não poder ser de ninguém quando se quer bem a tanta gente e quando tanta gente nos quer –bem- também. Ninguém suspeitava ou podia adivinhar o tamanho do dilema; e ainda bem – nem ela o conseguia entender: quanto mais explicar. É como se o cérebro bloqueasse um coração ferido, pouco cuidado e estimado; é o coração que se lança e fere mas é o cérebro quem processa, disseca e entende a dor – é natural que o cérebro queira proteger e preservar o coração, mesmo podendo ser egoísta – é por ele, e graças a ele, que (se) vive.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Aquela era a sua natureza desde que se conhecia por gente: sempre desinibido, muito extrovertido – quase sempre mais do que seria aconselhável – e um grande e desenvolto loquaz. Por onde passava gostava de ser o centro das atenções e de ser notado; não podia passar despercebido: precisava de ser visto, que reparassem, que o comentassem - mal ou bem, pouco lhe importava. Como se a sua alma só encontrasse vida nos olhares dos outros; quem era não lhe bastava: era muito longe de quem queria e imaginava ser - muito longe do que acreditava que os outros viam. Vivia iludido sem o ser e, no fundo, sem iludir mais ninguém: todos viam o quanto era perdido e o quão ansiava por se encontrar – ou que alguém o encontrasse e ele aí se ganhasse. Todos tinham mais ternura do que pena (ou, pelo menos, faziam por ter). É triste quando uma pessoa boa não se chega ou preenche; é triste quando alguém se faz um falhado porque quem não devia falhar falhou: logo no essencial e mais importante - no amor.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A noite chegara e o desespero tomava-lhes conta: do corpo e da esperança. Já tinham perscrutado tudo – todas as ruas, cantos e recantos – e tudo fora em vão; embora custasse era altura de aceitar: a sua menina desaparecera. Sem que pudessem perceber, ali, debaixo dos seus olhos, fintara-os e fugira; agora corria e lançava-se, de peito aberto, a todos os perigos de que sempre a protegeram – a tudo de que sempre a quiseram desviar. Sem que houvesse muito mais que pudessem fazer não conseguiam aguentar as tamanhas questões que, sozinhas – sem que perguntassem por elas –, se soltavam e cruelmente os torturavam: como pode alguém perder-se no meio de um amor criado para salvar? Como se pode salvar alguém que só se consegue encontrar perdido?

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Nem ela se conseguia encarar ou aguentar; a culpa consumia-a e começava a tirar-lhe o ar (todo, e cada restinho dele também). Elaborava, na sua cabeça, desde os mais simples aos mais mirabolantes planos a fim de se tergiversar; tendo perfeita noção de que tudo era em vão: ninguém aceitaria nenhum dos possíveis argumentos – quando nem a si traziam qualquer tipo de paz. Ela sabia que toda a desilusão e revolta que causara a deviam envergonhar e preocupar; mas, na verdade, aquilo que a torturava - sem qualquer condescendência ou intervalo - era toda a pena que sentia de si mesma: e era tanta! Tratava-se de uma personalidade incrível – digna de todo o respeito e admiração de muitos – mas sabia que a sua existência era das mas inúteis e tristes: tendo tudo, sem que algo lhe faltasse, exista sem nada. Não conseguia sentir afecto por ninguém e todo o amor - que não fosse o próprio – era a sua mais abstracta utopia. Ela sabia – no fundo, só ela o sabia –o quanto era triste e deplorável ser nada no meio de tanto (que para tantos outros seria tudo).

terça-feira, 5 de maio de 2015

Aquele era um sentimento estranho, nunca antes experimentado; e ele sabia que não existiria volta: estava encartado ao desconhecido. Sem nunca ter saído da bolha que criara e onde sempre vivera, via-se agora preso a uma arte: a música. E agora? Que fazer ao curso de direito, que nunca o fizera sentir vivo mas, que sempre encantara a família inteira? Parecia-lhe impossível desprender-se de sonhos alheios, que sempre sustentara, para passar a viver – a mover – os seus; como que uma culpa que o aprisionava e condicionava. Mas ele sabia que o grito urgia e que aquela culpa não era sua; ele era livre- era música.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Nada o fazia prever e isso deixou-a desolada. Júlia não contava com o fenecimento da empresa onde trabalhava desde sempre; era-lhe inconcebível imaginar-se noutro local. Encontrava-se dividida entre tantas saudades e todas as incertezas: incapaz de distinguir o que lhe doía mais. Às tantas decidiu ir comprar tabaco. Nunca tinha fumado um cigarro na vida, mas há alturas em que é preciso entreter o tempo (já que ele não para e só corre): aquela pareceu-lhe perfeita.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Era de natureza simples e trato fácil. Todos lhe conheciam a simpatia e gentileza; sempre pândego e com um sorriso imenso e envolvente, parecia impossível perturbar-lhe as convicções. Até uma paixão lhe tirar o chão e mudar o norte. Perdeu-se no coração e encontrou a incerteza. O amor pode ser tudo ou deixar-nos sem nada.