Era uma menina
de gostos simples, fino trato e com uma complexidade interior que camuflava por
camadas. O seu coração chegava e encantava a todos os que perto se aproximavam
– já a ela nem por isso. A ela, aquele coração tão meigo, generoso e acolhedor,
incomodava-a; para lá das qualidades que tantos admiravam existia também um coração
explicativo, que só se permitia sentir aquilo que entendia e, que lhe exigia
uma explicação definida para qualquer tremor ou batimento mais forte. Qualquer
sinal veloz de um possível encanto ou deslumbramento, que não fossem
inteiramente racionais e justificáveis, o coração enrijecia; desconhecia
qualquer tipo de paixão assolapada ou arrebatadora que o virasse do avesso ou
lhe arrancasse o chão: só se permitia entregar a paixões terrestres – onde mantivesse
pés e cabeça bem assentes, um ritmo cardíaco normal e onde dominasse e
controlasse todas as respostas para cada pergunta que surgisse. Ela colecionava
um número corredor de histórias e encantos que nunca tinham chegado a ser; todo
o amor que dedicava a quem se aproximava fazia parte de tudo o que não se
permitia sentir – porque se dar amor a quem nos rodeia liberta, guardar por
dentro o amor de alguém pode prender: podemos perder-nos, para sempre, nessa
prisão – sem volta. É um existir que nos atormenta; isto de não poder ser de
ninguém quando se quer bem a tanta gente e quando tanta gente nos quer –bem-
também. Ninguém suspeitava ou podia adivinhar o tamanho do dilema; e ainda bem
– nem ela o conseguia entender: quanto mais explicar. É como se o cérebro
bloqueasse um coração ferido, pouco cuidado e estimado; é o coração que se
lança e fere mas é o cérebro quem processa, disseca e entende a dor – é natural
que o cérebro queira proteger e preservar o coração, mesmo podendo ser egoísta
– é por ele, e graças a ele, que (se) vive.
Sem comentários:
Enviar um comentário
sussurros