Depois de um dia cansativo, e de
muito trabalho, Juliana foi – já sem grande vontade – ter com uma amiga, que
não via há muito, para lanchar e por a conversa em dia. Combinaram encontrar-se
num hotel muito renomado da cidade. Juliana chegou 5 minutos antes da hora
combinada e sentou-se, à espera, no bar do hotel. Com 20 minutos de atraso
recebeu um telefonema rápido da amiga que pedia desculpas, pois tinha ficado
presa no trabalho devido a um imprevisto – sem ter qualquer previsão de hora de
saída. Apesar de chateada pelo tempo perdido – logo depois de um dia tão exigente
e que a deixara exausta – Juliana resolveu aproveitar para conhecer a famosa
piscina do hotel, tão elogiada, em todo o lado, nos últimos tempos. Foi
seguindo as indicações e não demorou a encontra-la. Era realmente incrível: uma
piscina com a forma de uma guitarra. Nunca tinha pensado muito nisso mas, ali,
aos pés da piscina-guitarra, Juliana viu-se sorrir enquanto se questionava de
onde as pessoas conseguiam tirar ideias tão mirabolantes e ainda arriscar e ter
a coragem para as fazer funcionar. Mas era de facto impressionante – não só a
forma da piscina mas também o cuidado com cada pormenor que se ia descobrindo e
percebendo: o recorte de uma forma de guitarra perfeita; as seis cordas desenhadas;
a prancha e os três repuxos a jorrar água fresquinha… não era nada difícil,
para Juliana, imaginar-se ali, num dia de descanso, entre uns bons mergulhos e
a ter que decidir entre apanhar sol em uma das quatro espreguiçadeiras, que
estavam ali à sua esquerda, ou refrescar-se, com uns bons e deliciosos
cocktails, numa daquelas confortáveis cadeiras, à sombra de qualquer um dos
três chapéus dispostos ao redor da piscina. Enquanto se perdeu, a imaginar-se numa
tarde de descanso perfeito, deixou passar tempo demais e, quando se deu conta,
já começava a ficar atrasada para chegar a casa a horas do jantar. Resolveu
voltar à terra, acelerar o passo e pôr-se a caminho. Estava a chegar à porta de
saída do hotel quando se assustou ao sentir alguém agarrar-lhe o braço. Ao
virar-se deu de caras com a Ana, uma querida amiga de infância.
- Ei, ei, ei, calma! Que pressa é
essa? Vais toda lançada – como se tivesses uma fera atrás de ti, a correr para
te apanhar…
– Oh, não te vi! Desculpa! Bom, a fera não se vê mas, anda aqui a
marcar-me o passo… chama-se tempo: ando a tentar passar-lhe a perna e ganhar
algum avanço – sem grande sucesso…
– Pois, geralmente quando nos
lembramos e queremos saber acabamos sempre por dar conta que os ponteiros e o
calendário funcionam mais a favor dele do que ao nosso. Mas estamos a falar de
alguma coisa realmente importante ou estás só atrasada?
- Não, vou agora para casa – não estou com pressa nem atrasada… estou
mais desassossegada! Sei lá… acho que me atrasei: na vida. Pelo menos, na vida
que projectei e idealizei para mim… estou atrasada: falta e sobra-me, ainda,
tanto caminho.
- E o desassossego inspira-te
para a filosofia – está visto. Miúda, é normal parecer-nos que a vida está lá à
frente e julgarmo-nos pouco para ela – para o que ela pede. Mas sonhar e pedir
é mais fácil, e acessível, que realizar e ter. Nós não somos pouco: muitas
vezes queremos é demais e ainda não está na hora.
- E como é que sabes que é demais? E se achares que não é? Parece que
todos continuaram e que eu parei. Só eu. Parece que, algures, deixei de saber
andar e continuar – fiquei só aqui. E agora, que me dei conta e quero seguir,
perdi o meu caminho. Como se já não existisse lugar para mim – vi-o passar e
não o soube ocupar. Pensei que ficaria guardado, à espera, mas enganei-me.
- Sim, acontece. Mas já pensaste
que, entretanto, aquele lugar podia não te servir mais? Que isto dá-te a
oportunidade de não teres de aceitar um lugar que, algures, passou –que, no
fundo, nunca soubeste onde ia dar- e ires à procura de um que seja o certo. Que
tenha a tua medida. E se não o encontrares, melhor: podes criá-lo tu – o lugar
e o teu caminho.
- E se engordei tanto que já não encontre lugar que me sirva? E se
continuar tão despassarada que já nem saiba seguir em frente?
- Oh, por favor! Se não fosses
essa trinca-espinhas eu até te dizia que toda a gordinha tem e merece encontrar
o seu lugar no mundo. E o caminho em frente é fácil: é focar e seguir, passo a
passo, sem pressa – porque a paisagem inspira sempre.
- Isso dependerá sempre do tipo de paisagem…
- Ah, pára! Isso já és tu a fazer
fita a mais! Cá para mim o lugar já está mesmo aí e tu também já sabes
perfeitamente onde está o caminho certo a seguir. Esse teu desassossego todo és
tu a guerrear entre a coragem e o medo – e até já sabes que é à coragem a quem
tens de dar a vitória.
- Tens que me explicar onde e quando eu deixei que me conhecesses tão
bem… Sei lá, só para ter a certeza que não deixo que aconteça com mais ninguém.
- Sabes tão bem quanto eu que já
são muitos anos a conviver com as tuas inseguranças e incertezas – todas
grandes demais e, na maioria das vezes, desnecessárias. Agora podias era
contar-me o que anda para aí!
- Pois. Podia. Ai, mas dá-me tempo! Vamos deixar o baú fechado, por
enquanto, que já me vandalizaram o tesouro muitas vezes! Deixa-me convencer, de
vez, a confiança de que é –e deve sempre ser- maior que o medo. Depois
conto-te. Depois logo se grita.