sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Sobre aquelas pessoas que fazem figura de idiota onde quer que vão: isto sou eu.

Sobre fazerem-nos acreditar que essas pessoas são as mais fofinhas e engraçadas: é tudo mentira. Eu de fofa e engraçada tenho muito pouco ou nada. Mas é o que temos para esta vida - e como eu sei que não existem outras… :)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O dia nascera lindo: o céu estava limpo e o sol brilhava forte – o que contrastava com o frio, cortante, que se fazia sentir, num Inverno que ainda agora começara. O dia de Sofia começava praticamente com o nascer do sol – acordava, tratava de si e só depois, quando a casa já estava inundada com um cheirinho a café, bem forte, despertava então os amores da sua vida: o marido e os seus dois filhos. João, o marido, arrastava-se até à cozinha e engolia, sem chegar a perceber bem como, uma caneca farta de café – era a única maneira de o fazer despertar. Já verdadeiramente acordado, corria a arranjar-se – nos seus 15 minutos já habituais – e depois terminava de arranjar os miúdos – tentando dar a Sofia a calma, possível, para a sua rotina e rituais de beleza da manhã. Uma hora depois estavam todos sentados à mesa a tomar o pequeno-almoço e a começar o dia juntos – faziam sempre questão disso. Depois dos casacos vestidos e bem apertados e muitos beijinhos de bom dia e de despedida, era Sofia quem levava os filhos à escola. Fazia questão de os deixar no portão e de lhes desejar um bom dia de aulas e que se divertissem. Naquele dia, os abraços foram mais apertados e, quando os filhos, a sorrir e ainda com carinhas de sono, lhe desejaram um bom dia de trabalho, ela acenou e sorriu enquanto o mundo, dentro dela, estremeceu – e quase lhe ruía. Naquela manhã, Sofia não ia trabalhar – e ninguém sabia. Há dois meses que andava com uma picada forte e persistente no peito – na mama direita. Sem ninguém saber tinha marcado consulta e feito exames – naquela manhã iria mostrá-los ao médico. Sofia já tinha ido ao laboratório buscar os resultados há dois dias, ainda não os abrira – mas não por falta de coragem. A sua avó morrera com cancro da mama e uma das suas tias também. A sua mãe fora diagnosticada há seis anos: ultrapassara, sobrevivera mas, nunca deixaria de ser uma doente oncológica, nem um caso de risco. Sofia tinha vivido, lado a lado, o processo com as três: conhecia bem os sintomas, a doença e tudo o que se seguiria. Já na sala de espera do consultório, muito inquieta, tremia: não de medo, mas com a certeza. Dispensava qualquer discurso motivacional; queria só um plano bem traçado, que a deixasse lutar, não por si, mas pelo seu bem maior: o amor – o marido e os filhos. De tão armada e preparada para, supostamente, a sua maior batalha, nem soube como reagir quando o médico lhe disse que tudo estava bem – tudo não passara de um problema hormonal, com fácil solução. Rapidamente Sofia pode despedir-se da guerreira e voltar a ser a rainha do seu próprio conto de fadas – com direito a castelo, rei, príncipe e princesa.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Coincidências.

Naquele fim de tarde, ainda bem quente, Pedro e Catarina, dois velhos amigos de infância, matavam saudades enquanto aproveitavam para se despedir do Verão que estava mesmo no final. Tinham estado longos anos sem se ver. Mudanças de escolas, depois mudanças de vida: afastaram-se e desencontraram-se sem se quer darem por isso. E sobretudo: sem se esquecerem. Há histórias e pessoas que nunca se perdem: por maior que seja a distância, por menor que seja o contacto – constroem-nos. São nossas e somos nós – e, por isso, nunca deixam de ser presentes. Pedro e Catarina tinham-se encontrado no dia anterior – depois de um século e várias vidas. Estavam os dois de férias e encontraram-se no supermercado, enquanto abasteciam dispensas. Andavam, os dois, sozinhos às compras, mas tinham ido de férias acompanhados: ele com um grupo de amigos e ela com o namorado. Já tendo coisas combinadas para aquela noite combinaram ir beber um copo ao final da tarde, no dia seguinte. Mal conseguiam acreditar no quão incrivelmente bom era aquele reencontro. Depois de passarem horas a relembrar mil e uma histórias e aventuras, começaram então a falar do agora. Ele – o maior mulherengo, irresponsável e sem grandes rasgos de consciência – estava noivo e perdidamente apaixonado, segundo ele, pela miúda certa e a mais incrível de todas. Catarina quase não conseguia acreditar no quanto o amigo tinha crescido e fez questão de lhe mostrar o quão feliz ficara por ele. Ela também estava muito feliz e tinha a certeza que encontrara a pessoa certa – “o tal”. E a conversa acabou por se centrar no amor. Pedro mostrou inúmeras fotos da sua princesa e não se cansou de dizer o quanto a achava linda e especial. Catarina não ia munida de fotos, como o amigo, mas, depois de explicar que João, o namorado, não a tinha acompanhado por estar surpreendentemente cansado tendo, por isso, preferido passar em casa para dormir um bocado e recuperar forças para ir ter com os dois depois, não se poupou nem cansou de o elogiar. João era realmente diferente e especial: um romântico incorrigível, sempre a preparar alguma surpresa que afastasse a monotonia e a deixasse – ainda – mais feliz. Além de ter um sentido de humor fora do comum – até mesmo surpreendente. Todos os seus amigos e família o adoravam e Catarina confessou a Pedro que isso lhe dava uma confiança que ela nunca pensara vir a ter em alguém. Pedro estava realmente muito feliz por ela e cheio de curiosidade para conhecer o rapaz que lhe fazia assim tão bem. Pedro confessou que adora pessoas divertidas e cheias de sentido de humor. Começaram então a falar de um casal gay, seu amigo, loucamente divertidos e muito fora do comum. Não conseguiam parar de partilhar histórias e de rir. Até que Catarina começou a acenar a alguém. “Finalmente! Ali… O João chegou!” – disse-lhe ela por entre gargalhadas. Ainda a rir e cheio de curiosidade, Pedro apressou-se a procurar por onde a amiga apontava. Logo petrificou. “Não. Não podia. Era coincidência.” – pensou Pedro. Forçou o olhar para ver se vinha mais alguém, quando a amiga se levantou e foi abraçar… o João. Mas… aquele João que a fazia tão feliz era o mesmo João que fazia feliz o André… o melhor amigo de Pedro.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Todos se lembravam bem do quão insuportavelmente chata era a antiga professora de Filosofia. Com manias de altivez e superioridade, tratava todos como uma ralé sem a mínima hipótese de futuro – pelo menos, de um futuro bom ou bem-sucedido. Dirigia-se a todos com desdém, como se todos se tratassem de meras pedras de tropeço. No meio disto, vivia com a mania de perseguição. Acreditava que todos ocupavam grande parte do tempo a conspirar contra ela e que não passavam de pequenos valentes traidores: como se no meio daquele cenário (que mais parecia de guerra) alguém lhe devesse algum tipo de lealdade – até amostras de respeito se tornava difícil encontrar. 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Carlos e Sofia estavam quase a terminar de mobilar a casa nova – comprada para condizer com as suas novas vidas de (recém) casados. Estava apenas a faltar o novo, e incrível, sofá que tinham escolhido. A entrega estava marcada para o meio-dia daquele dia e a campainha tocou apenas com uns pequenos minutos de atraso. Carlos desceu para, caso fosse preciso ou pudesse fazer alguma coisa, ajudar a transportar o sofá para casa. Quando chegaram, com o sofá ao interior do prédio, rapidamente descobriram que tinham entre mãos uma missão, praticamente e muito provavelmente, impossível. O imponente sofá, em forma de L, nunca passaria pelas escadas. Além de bastante grande tratava-se de um modelo que só na fábrica seria possível desmontar. A janela também seria, sempre, pequena demais. Gerou-se um impasse mas Sónia, como qualquer mulher, rapidamente encontrou a solução: o terraço, nas traseiras – cuja porta de acesso à casa era suficientemente larga. Único problema: como fazer subir o sofá para um primeiro andar? Por sorte, um vizinho ao passar apercebeu-se da situação e prontamente disponibilizou a grua que tinha guardada nas traseiras.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Rui perdera há muito a conta ao número de cromos com que já se tinha cruzado e privado. Cada um mais inútil e desinteressante que o outro: até dava pena de tão pouca piadinha que tinham – um tédio pegado. Ele tinha a segurança de saber, sem o mais pequeno receio ou a mínima dúvida, que era uma pessoa tremendamente incrível e inspiradora. Era sensível, mas determinado; dono de uma inteligência notável e admirável; com um porte elegante, a que ninguém ficava indiferente; naturalmente charmoso, educado e sobretudo cativante. Era orgulhoso de si e não conhecia limites - conquistava tudo o que queria e chegava sempre onde se propunha. Por isto tudo, percebia perfeitamente que nem todos podiam estar à sua altura – esse era um privilégio de muito poucos. Isto fazia-o acreditar que as pessoas, a quem ele se propunha dispensar um pouco do seu tempo e atenção, se deviam sentir tremendamente gratas por terem sido escolhidas e eleitas por si. Apesar de se achar sensível, Rui não era propriamente dado a relações. Saber que poucos poderiam estar, ou chegar, ao seu nível –ou perto dele – fazia com que não confiasse em ninguém: até porque dificilmente o entenderiam. Já aqueles que se prendiam ou ligavam muito aos afectos – aborreciam-no. Para Rui, tudo se baseava e girava em torno de interesses. Importavam-lhe aqueles que o podiam ajudar ou lançar – que lhe podiam servir de alguma maneira. Tudo o que passasse disso não passaria de uma grande perda de tempo. Todas as suas grandes amizades se haviam baseado, no fundo, nisto: o Bernardo, rapaz impecável e divertido, de boa aparência e de boas famílias, que lhe apresentava sempre as miúdas mais giras – até descobrir que afinal era gay. Posto isto, teve que lhe deixar de falar e de frequentar os sítios onde o pudesse encontrar. Ele era discreto, é certo – mas ninguém arrisca assim uma reputação. O Paulo, com que se cruzara inúmeras vezes desde que conseguira o trabalho na empresa e, a quem nunca tinha dado importância alguma – até lhe contarem que era filho do Presidente. Depois disto, bastou começar a ser simpático e não demorou até se tornarem bons amigos: tentava era que as saídas, com ele fossem sempre em grupo –Paulo era dos que gostava de desabafar e pedir conselhos e no que diz respeito a problemas com namoradas, era assunto que ele não dominava, nem queria. Havia o João, que tinha diversas casas de férias espalhadas pela costa do país, que adorava reunir os amigos e nunca dividia as despesas com o pessoal – um espectáculo de pessoa, sempre impecável! Recentemente aproximara-se de Luís, simpático e boa onda – sendo que, era irmão da miúda mais gira de sempre (ou, pelo menos, até ao momento). Assim que a vira foi impossível, para Rui, não se imaginar a seu lado, de mãos dadas e por aí adiante. Sabendo que a amizade com o irmão lhe conferia um estatuto, e proximidade, especial, Rui mostrava-se particularmente dedicado e interessado em cuidar da saúde daquela amizade. Também não era particularmente chato nem um sacrifício muito grande e acreditava, mesmo, estar bem encaminhado e assim pretendia continuar – desde que o maninho não se lembrasse de começar a chatear muito ou a miúda de se armar em difícil e começar a comportar-se como sendo a última bolacha do pacote - para ele estava tudo bem.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Vasco era estupidamente tímido e acanhado. Um simples “Olá”, mais inesperado ou efusivo, era suficiente para o desfazer em vergonha. Numa noite de verão saíra com os amigos e parecia ter sido escolhido como o alvo de chacota do grupo. Vasco sentia-se todo a tremer e a cara inteira a queimar de nervos e vergonha. Ao sentir-se observado, deu-se conta que Rita – a miúda mais incrível e por quem era perdidamente apaixonado, em segredo – o olhava com pena, de um canto, do lado oposto do bar. Em noite de karaoke, viu o microfone aberto e revoltou-se: mesmo aos tropeções, com tantos nervos, escolheu a música mais pirosa de que se lembrou, foi até ao microfone, no meio do palco – cantou-a e declarou-se.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Diante daquele cenário idílico de fim de tarde, digno de um perfeito final para qualquer filme de Hollywood, Bruna sabia que estava a léguas de conseguir desempenhar, de forma minimamente competente, o papel de uma protagonista completa, feliz e realizada numa cena de final de história. Aliás, tudo o que ela mais queria era ter a certeza de que a sua história estaria muito longe do fim – de preferência a léguas daquele final. Até em cenários perfeitos podem decorrer os momentos mais injustos e errados – e Bruna agora sabia-o, mesmo não conseguindo, nem querendo acreditar. Dali a poucas horas seria o seu aniversário e, tendo reunido todas as condições para que tivesse o melhor dia da sua vida, tudo o que lhe passava agora pela cabeça eram mil e uma maneiras de desaparecer ou fazer com que aquele dia nunca chegasse ou acontecesse – todas descabidas e, obviamente, impossíveis de concretizar. As horas iam continuar a passar – era muito provável até que corressem. A vontade de chorar e desesperar-se era muita e as razões intermináveis: o namorado, que já era quase noivo, e que terminara tudo porque, segundo ele, já não fazia sentido (e que a fizera ter ali certeza de que era, afinal, a grande parte do sentido da vida dela); o trabalho que estava muito longe de ser o ideal e a fazia quase esquecer-se dos sonhos e metas pelas quais tanto estudou e se sacrificou, por tantos anos; os pais que a apoiavam mas que, no fundo, também acreditavam que era ela a culpada por não ir além daquela vidinha mais ou menos (mais para menos); as amigas, todas estupidamente felizes, realizadas, casadas (ou quase), gravidas (ou praticamente); e por último, aquela viagem romântica onde ela tinha praticamente a certeza que seria pedida em casamento (que fora marcada um mês antes de tudo deixar de fazer sentido) e para onde acabara por embarcar sozinha. Não havia para onde fugir – e se calhar nem porquê. Podia esconder-se ou então virar a página e talvez descobrir, nas linhas logo adiante, uma nova vida – quem sabe completamente imperdível. E era isto que estava decidida a fazer e onde estava focada. Decidiu dar o último mergulho do dia e ir depois para o quarto pôr-se no seu melhor – afinal, mesmo estando sozinha, aquela era a sua noite. Jantou sozinha num restaurante reservado – e incrível – do hotel e, tendo terminado o jantar, ao atravessar o átrio do hotel, foi engolida por uma multidão animada que dançava ao ritmo de uma banda que estava a tocar ao vivo. Sem lhe apetecer resistir, deixou-se ficar a dançar, embalada por tanta alegria e entusiasmo, leve e solta – sem pensar em mais nada. Passou algum tempo até se voltar a lembrar do dia que estava por chegar. Curiosa, ainda que soubesse que ninguém ali saberia ou quisesse festejar com ela, afastou-se da confusão e pegou no telemóvel para ver as horas. 23h58 – faltavam dois minutos. Quando, por fim, o relógio marcou a meia-noite, Bruna sorriu e prometeu a si mesma só se permitir ser feliz durante as 24 horas seguintes - e de preferência, pelo resto da vida também. Arrumou o telemóvel na mala que trazia a tira-colo e, quando se preparava para dançar sem parar a música seguinte, sentiu alguém abraçar-lhe a cintura e uma voz, estranhamente familiar, sussurrar-lhe ao ouvido: “Já é hoje! Parabéns!”.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Jorge tinha arriscado demais: depois de o ter avisado, tantas vezes, para que não o repetisse - voltou a fazê-lo. Rita não aguentava mais: estava farta de ficar presa a alguém que não a respeitava e, mesmo que não mentisse, que lhe omitia demasiadas coisas. Disse-lhe isso mesmo – e que não o queria ver mais. Nem se lembrou que, dali a três dias, fariam anos de namoro. Manteve-se entretida, a tentar ocupar-se com tudo de que se lembrava, para calar e sufocar as saudades. Conseguiu e nem se lembrou – mas Jorge não se esqueceu: encheu-lhe o carro de flores. Assim que o viu, Rita só se conseguiu lembrar de tanta saudade que gritava e correu a abraçá-lo.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Depois de um dia cansativo, e de muito trabalho, Juliana foi – já sem grande vontade – ter com uma amiga, que não via há muito, para lanchar e por a conversa em dia. Combinaram encontrar-se num hotel muito renomado da cidade. Juliana chegou 5 minutos antes da hora combinada e sentou-se, à espera, no bar do hotel. Com 20 minutos de atraso recebeu um telefonema rápido da amiga que pedia desculpas, pois tinha ficado presa no trabalho devido a um imprevisto – sem ter qualquer previsão de hora de saída. Apesar de chateada pelo tempo perdido – logo depois de um dia tão exigente e que a deixara exausta – Juliana resolveu aproveitar para conhecer a famosa piscina do hotel, tão elogiada, em todo o lado, nos últimos tempos. Foi seguindo as indicações e não demorou a encontra-la. Era realmente incrível: uma piscina com a forma de uma guitarra. Nunca tinha pensado muito nisso mas, ali, aos pés da piscina-guitarra, Juliana viu-se sorrir enquanto se questionava de onde as pessoas conseguiam tirar ideias tão mirabolantes e ainda arriscar e ter a coragem para as fazer funcionar. Mas era de facto impressionante – não só a forma da piscina mas também o cuidado com cada pormenor que se ia descobrindo e percebendo: o recorte de uma forma de guitarra perfeita; as seis cordas desenhadas; a prancha e os três repuxos a jorrar água fresquinha… não era nada difícil, para Juliana, imaginar-se ali, num dia de descanso, entre uns bons mergulhos e a ter que decidir entre apanhar sol em uma das quatro espreguiçadeiras, que estavam ali à sua esquerda, ou refrescar-se, com uns bons e deliciosos cocktails, numa daquelas confortáveis cadeiras, à sombra de qualquer um dos três chapéus dispostos ao redor da piscina. Enquanto se perdeu, a imaginar-se numa tarde de descanso perfeito, deixou passar tempo demais e, quando se deu conta, já começava a ficar atrasada para chegar a casa a horas do jantar. Resolveu voltar à terra, acelerar o passo e pôr-se a caminho. Estava a chegar à porta de saída do hotel quando se assustou ao sentir alguém agarrar-lhe o braço. Ao virar-se deu de caras com a Ana, uma querida amiga de infância.  
- Ei, ei, ei, calma! Que pressa é essa? Vais toda lançada – como se tivesses uma fera atrás de ti, a correr para te apanhar…
– Oh, não te vi! Desculpa! Bom, a fera não se vê mas, anda aqui a marcar-me o passo… chama-se tempo: ando a tentar passar-lhe a perna e ganhar algum avanço – sem grande sucesso…
– Pois, geralmente quando nos lembramos e queremos saber acabamos sempre por dar conta que os ponteiros e o calendário funcionam mais a favor dele do que ao nosso. Mas estamos a falar de alguma coisa realmente importante ou estás só atrasada?
- Não, vou agora para casa – não estou com pressa nem atrasada… estou mais desassossegada! Sei lá… acho que me atrasei: na vida. Pelo menos, na vida que projectei e idealizei para mim… estou atrasada: falta e sobra-me, ainda, tanto caminho.
- E o desassossego inspira-te para a filosofia – está visto. Miúda, é normal parecer-nos que a vida está lá à frente e julgarmo-nos pouco para ela – para o que ela pede. Mas sonhar e pedir é mais fácil, e acessível, que realizar e ter. Nós não somos pouco: muitas vezes queremos é demais e ainda não está na hora.
- E como é que sabes que é demais? E se achares que não é? Parece que todos continuaram e que eu parei. Só eu. Parece que, algures, deixei de saber andar e continuar – fiquei só aqui. E agora, que me dei conta e quero seguir, perdi o meu caminho. Como se já não existisse lugar para mim – vi-o passar e não o soube ocupar. Pensei que ficaria guardado, à espera, mas enganei-me.
- Sim, acontece. Mas já pensaste que, entretanto, aquele lugar podia não te servir mais? Que isto dá-te a oportunidade de não teres de aceitar um lugar que, algures, passou –que, no fundo, nunca soubeste onde ia dar- e ires à procura de um que seja o certo. Que tenha a tua medida. E se não o encontrares, melhor: podes criá-lo tu – o lugar e o teu caminho.
- E se engordei tanto que já não encontre lugar que me sirva? E se continuar tão despassarada que já nem saiba seguir em frente?
- Oh, por favor! Se não fosses essa trinca-espinhas eu até te dizia que toda a gordinha tem e merece encontrar o seu lugar no mundo. E o caminho em frente é fácil: é focar e seguir, passo a passo, sem pressa – porque a paisagem inspira sempre.
- Isso dependerá sempre do tipo de paisagem…
- Ah, pára! Isso já és tu a fazer fita a mais! Cá para mim o lugar já está mesmo aí e tu também já sabes perfeitamente onde está o caminho certo a seguir. Esse teu desassossego todo és tu a guerrear entre a coragem e o medo – e até já sabes que é à coragem a quem tens de dar a vitória.
- Tens que me explicar onde e quando eu deixei que me conhecesses tão bem… Sei lá, só para ter a certeza que não deixo que aconteça com mais ninguém.
- Sabes tão bem quanto eu que já são muitos anos a conviver com as tuas inseguranças e incertezas – todas grandes demais e, na maioria das vezes, desnecessárias. Agora podias era contar-me o que anda para aí!
- Pois. Podia. Ai, mas dá-me tempo! Vamos deixar o baú fechado, por enquanto, que já me vandalizaram o tesouro muitas vezes! Deixa-me convencer, de vez, a confiança de que é –e deve sempre ser- maior que o medo. Depois conto-te. Depois logo se grita.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

O salto.

É isso mesmo, valentona! Podes tudo, não é? Ninguém manda em ti, porque tu és capaz de tudo o que quiseres - ainda mais daquilo que os outros duvidam que a tua coragem permita. Então vá – a hora é agora! Apostas-te com meio mundo que eras capaz de te atirar – sem medos! Aliás, porque terias medo? Medo de quê? Do ar? O ar é nosso – dá-nos vida. Há que o dominar. Mergulhar. Ele está a nosso favor: tem de estar, não é? E a água lá em baixo à espera? Deliciosa, claro! Fresquinha – gelada geladinha: com esse suor sufocante que te envolve agora é, de longe, o que mais precisas para relaxar. Vá lá, vá! Deixa-te de tretas agora! És sempre capaz de tudo: nunca te permitiste descobrir grande coisa sobre o que é desistir – vai ser agora? Por um passo que te vai levar segundos – a sério que te vais armar em uma menininha indefesa? Agora que tens toda a gente na expectativa lá em baixo? O que é essa canela de franguinha a tremer? Por favor, tem vergonha – recompõe-te, vá! Respira fundo. Vamos – com calma - outra vez: inspira e expira! Sorri: vá, não te dói nada – (pelo menos) ainda! Agora uns passinhos em direcção à borda da prancha: sem compromisso – só para ver o panorama! É bonito, vais ver! E não – voltar a descer as escadas não é opção! Tu detestas escadas – e és uma tropeçona: já viste se te espalhavas aqui ao comprido? Enquanto te acovardavas e desistias? É só um salto – a vista é incrível e a água deve estar um gelo de fazer estremecer o mais singelo ossinho do teu corpo: uma delicia, portanto. Na pior das hipóteses parte as perninhas ou o pescoço… Ah, pára!!! Já é divagação a mais! E nunca vai acontecer porque… porque…. vá, tu não mereces! E também não és estupida nenhuma! Sabes perfeitamente: balanço; um bom apoio; braços e pernas bem esticadas… e sim, o teu pescoço vai continuar inteiro, juntinho, perfeitinho – que raio de ideia! Já espreitas-te a piscina: sim, é funda o suficiente – se é para toda a gente, também é para ti. Vá, chega de pensar: é hora de recuares para dar balanço. Um passo e outro. Saltas-te!! SALTEI, CARAÇAS! O ar. A água. Fundo. E já voltei à tona! Meu Deus, quanto tempo durou isto? Um segundo ou uma vida? Outra vida? Eu fui capaz – sou capaz! Se mergulho – no ar e na água – só me faltar lançar na vida. De agarrar e ir fundo. E nos entretantos, mais vale ir saltar outra vez – só para manter a prespectiva que só a adrenalina é capaz de dar e convencer: não há limites e se alguém ousar em nos criar algum, cabe a nós fazermo-nos capazes e lança-lo ao fundo. Para voltar à tona basta acreditar: o ar está ali, à espera - nunca nos vai falhar; e na vida cabe-nos a nós acertar.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A sorte para quem a persegue e faz.

Eram 7 horas da manhã, de uma sexta-feira de início de verão: o despertador – velho e insuportável – arrancou numa chinfrineira capaz de estremecer a camada mais profunda da terra – tudo para acordar J., que tem a coragem de o suportar e ignorar por uns 10 minutos, mas que se deixa sempre vencer e acabar derrotada por ele. Aquele dia não foi diferente: eram 8 da manhã quando saiu de casa munida com o pequeno-almoço e de determinação vestida; com a certeza de que não voltaria a entrar, ao fim do dia, sem ter conseguido um trabalho – de preferência (e se dependesse do tamanho da sua vontade), com o melhor de sempre. Apanhou o comboio e meia hora depois estava no centro da cidade. De manhã tinha duas entrevistas marcadas num famoso centro comercial: uma para gerente de uma loja e a outra para vendedora num pequeno quiosque. Por volta da 1 da tarde o desânimo era tanto que a sopa leve que trouxera, numa merenda de casa, para almoçar, lhe embrulhava o estomago: enquanto a vaga de gerente deveria ser ocupada por alguém que tivesse o Ensino Superior concluído (o seu curso tinha ficado a meio), o dono do quiosque procurava alguém mais “jovem e desprendido” para o lugar – J. nem percebeu o que ele queria dizer com isto, mas era um não: mais um. Para a tarde não tinha conseguido marcar nada então, depois de se ter forçado a engolir a sua sopa, pôs-se na rua e foi percorrer a cidade – alguma coisa apareceria: ela sabia! Depois de ter palmilhado todos os cantos de, pelo menos, meia cidade, às 9 da noite apanhava o comboio de volta para casa. O tamanho do seu desassossego era tal que lhe era difícil segurar as lagrimas de frustração. NADA – estava disposta a sujeitar-se a qualquer coisa que aparecesse, mas em vão: parecia não caber nem servir para nada. Ao entrar em casa, encontrou na mesa da sala um bilhete da mãe que dizia: “J., amanhã tenho trabalho, de manhã, na casa da senhora S., por isso fui-me deitar. Tens um pratinho de massa no frigorífico. Como bem e descansa!!! Beijos da mãe.”. Depois de um profundo suspiro (de quem ansiava puder cuidar da mãe e dar-lhe o descanso merecido), atirou com mala e casaco para o sofá, apertou o cabelo e correu para o frigorífico – àquelas horas já não havia nó na garganta que lhe roubasse a fome. Ao tocar na porta reparou no papel que lá estava fixado – a mãe fazia sempre questão de deixar os números do Euromilhões visíveis, para que todos os confirmassem – não fosse Deus enviar-lhes um anjo que os salvasse e ninguém o ouvisse bater à porta. J. acreditava mais em Deus do que na sorte: não tinha grande – ou nenhuma - fé na sorte mas, mais para fazer a vontade à mãe, apostava nos seus “números especiais” todas as sextas (terça era a vez da mãe). Tirou o seu jantar do frigorífico, colocou-o a aquecer no velho micro-ondas, encheu um copo de água e foi então confirmar, mais uma vez, que a sorte também não lhe cabia. Encarou o papel - e gelou. Piscou os olhos, esforçou-se para focar melhor mas, não tinha dúvidas e nem precisava de talão que o confirmasse: ela não tinha visto o anjo mas ali, na sua frente, estavam os seus números especiais (jogados por anos, semana após semana). Era a vencedora. Preparava-se para comer um prato de esparguete com atum quando tinha na sua frente um papel - escrito com a letra tremida e insegura da sua mãe –que lhe dizia que existiam, algures, dezenas de milhões de euros a gritar por ela. A sua carteira – com umas miseras moedas e que nunca tinha visto uma nota maior que a de 20 euros – tinha um papel (ligeiramente amarrotado pelos dias) que a fazia valer milhões – milhares de notas. A vida, como ela a conhecia, acabava de acabar – nascera uma nova: naquele segundo. E ela não sabia se ria, se chorava: se ria a chorar. Já não fazia (assim tanto) mal não ter trabalho. Os pais já não precisavam de trabalhar fora de casa. E a sua casa brevemente já nem seria aquela. A culpa e os apertos já não a sufocavam. Estava livre para ser quem era – ou quem quisesse ser. Estava pronta para criar a vida certa – e para se criar nela.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

v. 2

Carlos não tinha conseguido dormir: dera voltas intermináveis na cama, e nada. Farto, resolveu levantar-se: vestiu uns calções, passou pela cozinha, onde pegou num pacote de leite e numa maçã, e dirigiu-se até à praia, do outro lado da estrada. Tomou o pequeno-almoço sozinho, junto ao mar. Quando terminou, decidiu correr, para contrariar o vento cortante que ainda se fazia sentir. Enquanto corria tentava, na sua cabeça, organizar todo o seu dia. Só parou de correr quando acreditou ter o dia inteiro planejado até à hora a que devia voltar a por a chave na porta de casa, para a abrir. No fim da corrida, atirou-se ao mar para tomar um banho gelado, que o deixasse – pelo menos com ar – desperto e pronto a enfrentar um novo dia. Voltou a casa, tomou um duche e mascarou-se com o seu fato chato de executivo sério. Terminou de organizar a sua pasta e deu um beijo carinhoso e suave às mulheres da sua vida: a mulher e a filha. Enquanto se despedia, com um último olhar, desejou, no coração, que elas soubessem o quanto as amava.

domingo, 28 de junho de 2015

v.1

Ali estava Carlos, com uma mesa incrível de pequeno-almoço, junto ao mar de uma praia paradisíaca: sozinho – como era sempre. Um homem bem-sucedido, de uma inteligência imensa e com uma perspicácia crua e astuta. Tinha o que queria e chegava sempre onde se projectava - Mas era nu em afectos. Simpático e sempre cordialmente bem-educado, era incapaz de gerar empatia por quem fosse. Ninguém era suficiente interessante ou inquietante: as mulheres eram sempre demasiado perto. Nenhuma o desafiava mais que as suas próprias metas; nenhuma valia mais do que um par de horas de atenção. Carlos era vazio de um coração, que para ele não passava de uma bomba: uma máquina que o mantinha vivo e que lhe permitia ganhar sempre mais e ir mais longe – isso chegava-lhe. Bastava-lhe olhar para aquela praia, deserta e inacessível, e sentir que podia comprar a sua paz. Ser alguém era ser superior. Ter paz era pagar por horas de silêncio. E ele perdia-se sem saber: e, sendo sozinho, nunca ninguém o iria procurar. Um dia aquela paz, seria o seu inferno.

sábado, 27 de junho de 2015

No último dia daquela lua-de-mel paradisíaca, Inês olhava a piscina - a que o quarto tinha acesso -, o mar ao fundo, e namorava o sol a pôr-se. Mal conseguia acreditar que tudo aquilo era real. O homem que amava estava a dormir, ali, a passos, na cama e era seu: seu marido. Orgulhosa, feliz, apaixonada, namorou-o com o olhar no embalo das suas respirações, serenamente profundas, de quem está a ter um sonho bom. Sem conseguir resistir mais, aproximou-se e enroscou-se nele. Descansava a cabeça junto ao peito de amor quando se sentiu observada. Trocaram um olhar completo, entrelaçaram-se num sorriso e perderam-se num beijo quente – que pode muito bem ter durado uma vida inteira. A vida do seu amor.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sempre teve o impulso dos voos: em criança quis ser borboleta colorida, quando cresceu passou a correr atrás de aviões – voos que a levassem até onde a novidade morava, quando a novidade acabava, voltava. Hoje ia realizar mais um sonho em voo: saltar de asa delta. Nervosa, mas feliz, ia com vontade de morder o mundo. Ia saltar com um amigo do irmão: o mais giro de todos, que nuca lhe tinha ligado nenhuma. Prepararam-se e correram a saltar. Em pleno voo, olharam-se e ela roubou-lhe um beijo, deixando-o sem fôlego. Surpreendentemente, de seguida, ele declarou-se dizendo-lhe: “o céu pode ser nosso. Fica comigo - acredita: podemos ser para sempre.” E, em meio à imensidão do céu, lançaram-se ao infinito - dispostos a fazerem-se donos dele.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Eram 7 da manhã quando o despertador tocou e a acordou: ainda se enrolou nos lençóis e afundou na almofada, mas sabia que não adiantava - 6 minutos depois já estava no duche. Assim que o terminou, engoliu o pequeno-almoço, vestiu uma roupa - usada já em algum dia dessa semana - que estava em cima da cama, e correu para o metro. Saiu na quarta estação, subiu as escadas e ao chegar à rua ouviu alguém a chamar o seu nome: João, o namorado, vinha a chegar de skate. Embalada pelo costume, ele mal precisou de parar: Rita subiu-se também no skate, deu-lhe um beijo de bom dia (acrobacias que só os dois sabiam fazer e manobrar) e seguiram juntos até à faculdade, ao fundo da rua.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Naquela tarde, Carlos chegou atrasado: bateu à porta e, assim que ouviu uma resposta afirmativa, entrou – bastante suado e muito vermelho - tendo tropeçado no caixote do lixo que está logo à entrada e ido também contra o quadro à direita. Pediu desculpa e, ao som de uma série de gargalhadas sufocadas dos colegas, dirigiu-se até ao seu lugar na mesa. De seguida, o director levantou-se e deu início à reunião. Carlos dava graças a Deus por ser o segundo e não o primeiro a ter que intervir: as suas pernas tremiam e a sua respiração estava ainda irregular. Para se acalmar procurava prestar atenção na exposição do colega e o facto de ir percebendo que este não respeitara, na sua proposta, os pedidos e desejos do cliente, ia-lhe aumentando a confiança. Por fim, chegara a sua vez: o frio na barriga aumentara e as suas mãos suavam. Abriu o power point, começou a expor o seu projecto e as suas ideias - e serenou. Os sorrisos, os acenos e os discretos murmúrios de exclamação dos seus colegas mostravam-lhe que, mais uma vez, tinha acertado. Ele mesmo estava orgulhoso do seu projecto: uma casa de férias com traços modernos e simples, ecologicamente viável e sustentável –tal como lhes fora pedido. E ao deparar-se com tantos sorrisos, de aprovação e admiração, da sala, deu-se conta de que, em si, o sorriso e o frio na barriga também permaneciam: mas agora eram de felicidade por um dever cumprido – e bem.

Dirigiu-se à cadeira que lhe pertencia e respirou fundo – o seu coração continuava a bombear ao ritmo de uma adrenalina acelerada. De seguida o director levantou-se – entretanto já tinha o nó da gravata solto e os primeiros botões da camisa desapertados – e, com um sorriso largo no rosto, disse que, embora fosse ainda necessária uma aprovação superior, à partida seria aquele o projecto escolhido e que Carlos ficaria, obviamente, responsável por ele. Carlos sentiu um calor, vindo do peito, avermelhar-lhe o rosto e libertar-se num generoso sorriso, enquanto os colegas iam batendo palmas e dando-lhe valentes palmadas nas costas. Tendo a reunião acabado, foram tomar um copo ao bar em frente ao escritório. Pediram cervejas para todos. Carlos foi brindando mas, cada gole ia afligindo-lhe cada vez mais a garganta – enquanto sonhava com alguma coisa sem álcool: um copo de água que fosse. Quando o primeiro colega decidiu ir embora, Carlos aproveitou e acompanhou-o para fora do bar. Como naquele dia não tinha levado carro, seguiu em direcção ao metro. Desceu as escadas, uma a uma, sem a pressa de ter que chegar a algum lado, picou o bilhete e deixou-se ficar a observar: a miúda de fones no ouvido - a ouvir um hip hop cru que devia ser percetível até ao fundo da estação – e com uma mochila, velha e rasgada, às costas; a mãe, carregada de sacos e mochilas, a segurar pelas mãos dois miúdos gémeos, idênticos (tanto na cara como no desassossego); o homem de negócios com o nó da gravata solto e de fato (e cara também) amassado… Quando chega o metro: Carlos entrou e, vendo que não havia lugar onde se sentar, deixou-se ficar junto à porta. Decidiu, entretanto, sair no Rossio. Seguiu, apanhando o ar fresco de fim de tarde, passando pelos mais diferentes tipos de pessoas. Fez uma paragem para comprar um gelado de duas bolas: uma de menta e outra de limão – fresco, refrescante e ácido, para fazer despertar bem em si aquele dia de vitória. Acabou sentado junto ao rio, no Terreiro do Paço: já quando o sol tocava na água, como que dando-lhe um beijo de despedida até ao dia seguinte. Carlos fechou os olhos, respirou fundo e sorriu: ansioso e esperançoso pelo amanhã que estava para chegar.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

João chegara a casa furioso: atirou casaco, sapatos, calças, camisa e gravata para o chão do corredor e enfiara-se debaixo de um duche gelado – não o suficiente para lhe apagar a raiva. Pensar em Jorge, o seu irmão mais novo, deixava-o fora de si: Jorge sempre fora o filho querido do seu pai – o caçula, o mais espontâneo e divertido – e isso nunca fora problema; enquanto o irmão ia vivendo as suas aventuras e divertindo todos com as suas mil e uma histórias, Jorge era o braço direito (e muitas vezes também o esquerdo) do pai e comandava, no fundo, todos os negócios. Mas, de há um ano para cá, uns cinco anos depois de ter terminado o curso, a criança inconsequente resolvera interessar-se pela empresa da família e, – extraordinariamente – aos olhos de seu pai, transformara-se na contratação mais promissora, competente e inovadora de sempre: causando náuseas insuportáveis a João. Pensar que o irmão começava a ganhar credibilidade e o respeito de todos era assistir na primeira fila à piada mais inconcebível e estapafúrdia da história. Ver aquele pirralho asqueroso a conquistar um espaço que lhe devia pertencer fazia-o perder a calma e o juízo; perguntava-se se o seu pai não estaria a ficar senil e se esquecera de quem fora por anos o seu homem de confiança. No meio de tanta raiva só lhe restava uma certeza: o pestinha ia ter que se espalhar – sozinho ou com ajuda, ia ter que estragar tudo. Era o que faltava – depois de tantos anos de esforço e dedicação, vir um insolente tirar-lhe o lugar e roubar-lhe tudo o que deveria ser seu.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Como eu sei que vais sempre passando por aqui…

Que estas saudades inacreditáveis, que guardo comigo, se transformem na força do aperto de mil abraços e cheguem até aí! Parabéns, meu amor! ❤️ #terassimtantassaudadesnãotemaminímapiada #achobemqueosaibas #fazesfalta

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Era uma menina de gostos simples, fino trato e com uma complexidade interior que camuflava por camadas. O seu coração chegava e encantava a todos os que perto se aproximavam – já a ela nem por isso. A ela, aquele coração tão meigo, generoso e acolhedor, incomodava-a; para lá das qualidades que tantos admiravam existia também um coração explicativo, que só se permitia sentir aquilo que entendia e, que lhe exigia uma explicação definida para qualquer tremor ou batimento mais forte. Qualquer sinal veloz de um possível encanto ou deslumbramento, que não fossem inteiramente racionais e justificáveis, o coração enrijecia; desconhecia qualquer tipo de paixão assolapada ou arrebatadora que o virasse do avesso ou lhe arrancasse o chão: só se permitia entregar a paixões terrestres – onde mantivesse pés e cabeça bem assentes, um ritmo cardíaco normal e onde dominasse e controlasse todas as respostas para cada pergunta que surgisse. Ela colecionava um número corredor de histórias e encantos que nunca tinham chegado a ser; todo o amor que dedicava a quem se aproximava fazia parte de tudo o que não se permitia sentir – porque se dar amor a quem nos rodeia liberta, guardar por dentro o amor de alguém pode prender: podemos perder-nos, para sempre, nessa prisão – sem volta. É um existir que nos atormenta; isto de não poder ser de ninguém quando se quer bem a tanta gente e quando tanta gente nos quer –bem- também. Ninguém suspeitava ou podia adivinhar o tamanho do dilema; e ainda bem – nem ela o conseguia entender: quanto mais explicar. É como se o cérebro bloqueasse um coração ferido, pouco cuidado e estimado; é o coração que se lança e fere mas é o cérebro quem processa, disseca e entende a dor – é natural que o cérebro queira proteger e preservar o coração, mesmo podendo ser egoísta – é por ele, e graças a ele, que (se) vive.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Aquela era a sua natureza desde que se conhecia por gente: sempre desinibido, muito extrovertido – quase sempre mais do que seria aconselhável – e um grande e desenvolto loquaz. Por onde passava gostava de ser o centro das atenções e de ser notado; não podia passar despercebido: precisava de ser visto, que reparassem, que o comentassem - mal ou bem, pouco lhe importava. Como se a sua alma só encontrasse vida nos olhares dos outros; quem era não lhe bastava: era muito longe de quem queria e imaginava ser - muito longe do que acreditava que os outros viam. Vivia iludido sem o ser e, no fundo, sem iludir mais ninguém: todos viam o quanto era perdido e o quão ansiava por se encontrar – ou que alguém o encontrasse e ele aí se ganhasse. Todos tinham mais ternura do que pena (ou, pelo menos, faziam por ter). É triste quando uma pessoa boa não se chega ou preenche; é triste quando alguém se faz um falhado porque quem não devia falhar falhou: logo no essencial e mais importante - no amor.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A noite chegara e o desespero tomava-lhes conta: do corpo e da esperança. Já tinham perscrutado tudo – todas as ruas, cantos e recantos – e tudo fora em vão; embora custasse era altura de aceitar: a sua menina desaparecera. Sem que pudessem perceber, ali, debaixo dos seus olhos, fintara-os e fugira; agora corria e lançava-se, de peito aberto, a todos os perigos de que sempre a protegeram – a tudo de que sempre a quiseram desviar. Sem que houvesse muito mais que pudessem fazer não conseguiam aguentar as tamanhas questões que, sozinhas – sem que perguntassem por elas –, se soltavam e cruelmente os torturavam: como pode alguém perder-se no meio de um amor criado para salvar? Como se pode salvar alguém que só se consegue encontrar perdido?

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Nem ela se conseguia encarar ou aguentar; a culpa consumia-a e começava a tirar-lhe o ar (todo, e cada restinho dele também). Elaborava, na sua cabeça, desde os mais simples aos mais mirabolantes planos a fim de se tergiversar; tendo perfeita noção de que tudo era em vão: ninguém aceitaria nenhum dos possíveis argumentos – quando nem a si traziam qualquer tipo de paz. Ela sabia que toda a desilusão e revolta que causara a deviam envergonhar e preocupar; mas, na verdade, aquilo que a torturava - sem qualquer condescendência ou intervalo - era toda a pena que sentia de si mesma: e era tanta! Tratava-se de uma personalidade incrível – digna de todo o respeito e admiração de muitos – mas sabia que a sua existência era das mas inúteis e tristes: tendo tudo, sem que algo lhe faltasse, exista sem nada. Não conseguia sentir afecto por ninguém e todo o amor - que não fosse o próprio – era a sua mais abstracta utopia. Ela sabia – no fundo, só ela o sabia –o quanto era triste e deplorável ser nada no meio de tanto (que para tantos outros seria tudo).

terça-feira, 5 de maio de 2015

Aquele era um sentimento estranho, nunca antes experimentado; e ele sabia que não existiria volta: estava encartado ao desconhecido. Sem nunca ter saído da bolha que criara e onde sempre vivera, via-se agora preso a uma arte: a música. E agora? Que fazer ao curso de direito, que nunca o fizera sentir vivo mas, que sempre encantara a família inteira? Parecia-lhe impossível desprender-se de sonhos alheios, que sempre sustentara, para passar a viver – a mover – os seus; como que uma culpa que o aprisionava e condicionava. Mas ele sabia que o grito urgia e que aquela culpa não era sua; ele era livre- era música.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Nada o fazia prever e isso deixou-a desolada. Júlia não contava com o fenecimento da empresa onde trabalhava desde sempre; era-lhe inconcebível imaginar-se noutro local. Encontrava-se dividida entre tantas saudades e todas as incertezas: incapaz de distinguir o que lhe doía mais. Às tantas decidiu ir comprar tabaco. Nunca tinha fumado um cigarro na vida, mas há alturas em que é preciso entreter o tempo (já que ele não para e só corre): aquela pareceu-lhe perfeita.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Era de natureza simples e trato fácil. Todos lhe conheciam a simpatia e gentileza; sempre pândego e com um sorriso imenso e envolvente, parecia impossível perturbar-lhe as convicções. Até uma paixão lhe tirar o chão e mudar o norte. Perdeu-se no coração e encontrou a incerteza. O amor pode ser tudo ou deixar-nos sem nada.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Mar em força.

O mar estava agressivo – como se gritasse – e a sua agitação era impressionante; forte, com alta capacidade destruidora, acalmá-lo era impossível: como se só conhecesse revolta. Tremendamente, sem se cansar, abrandar, arrastava o que ousava fazer-lhe frente – sem remorsos – afundando-o. O inverno começara: agora seria a doer! Ele não conhecia piedade, era duro, de natureza livre e independente – de carácter forte – nada o domava; até tentavam mas, como conseguir? Todos sabiam (ainda tentando negar), que ali era senhor – contra quem for… Ninguém, nem Deus, conseguiria fazer com que parasse. Ali era soberano: dominador de tudo quanto rodeava, era quem decidia, cabia-lhe a si; abrandar, escutar outras necessidades, saber daqueles cujas vidas dele dependiam – que sempre o respeitaram -, ou ir com o vento, seguir-lhe a força, a vontade: ninguém o poderia julgar, ele controlava. Ninguém o enfrentava. Não ousariam porque temiam-no – conheciam-se há muito – entendendo que só podiam respeitar; temperamental, mas presente e sempre provedor, nunca lhes falhara: garantia-lhes sustento e a sobrevivência. Imprevisível, por vezes revolto, inconstante, era com quem podiam contar – sem duvidar – sempre. Assim foram ensinados: o mar era vida! Lançavam-se nos seus braços, para que, quem amavam pudesse viver bem; aquele fora o destino traçado – não o questionavam – cabia-lhes assim viver; uma vez decidido, que temer? Tudo acalmaria (mesmo sem previsão), era questão de tempo – ou de fé… Sabiam, sem garantias, que o sol brilharia. Ainda que demorasse: a abundância havia de chegar, mesmo sem data, não podia tardar; confiavam, sem ansiedade ou medo, sem precisar de rosto ou nome – bastava-lhes a própria certeza-, nada falha quando se confia, quando se acredita, não pode: a esperança pode conquistar, ir além. Parar até tempestades.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Com a força da corrente...

Era quarta-feira e o último dia daquele mês. Havia já algumas semanas, a Rita e o João tinham combinado encontrarem-se para matar saudades de um hábito antigo. Os dois tinham, por norma, direito a um dia de folga por mês; numa conversa casual no facebook – acontecimento raríssimo há já uns pares de meses – combinaram ir fazer surf, como antigamente. Na verdade, tratou-se quase de uma intimação: a Rita, embora adorasse assistir e fosse até bastante apreciadora, não era propriamente dotada ou capacitada no que diz respeito a manter-se em cima de uma prancha; mas, sabendo que para o João a proposta de uma “surfada” seria irresistível (mesmo com uma companhia patética), não hesitou em alicia-lo com a proposta, ainda que com o seu tom autoritário. Conheceram-se na escola - há muito mais anos do que gostavam de admitir- mas a vida transformara-se em distâncias: até incompreendidas. A amizade manteve-se e com ela mantiveram-se também o carinho e o cuidado que se iam manifestando ocasionalmente; ainda que fosse com rápidas conversas, pequenas mensagens, trocas banais de bonecadas tontas, eram uma contante: mais como uma presença ausente ou não declarada. E, agora, o João não estava bem; mesmo sem que lhe dissesse nada, os sinais estavam lá, eram evidentes e a Rita sabia - daí ter-lhe proposto este encontro. Na verdade, até lhe custou acreditar quando ele o aceitara tão facilmente, sem desculpas, pendencias ou condições; mas também não se iludia, sabia bem o que podia esperar dali e uma resposta assim tão pronta só podia ter um de dois sentidos: ou se esqueceria do combinado mais rápido do que o aceitara, ou o caso era mesmo sério ao ponto do João precisar de um bom desabafo – coisa rara para alguém com aquele nível de feitiozinho. Para não lhe dar sequer qualquer manobra de escapatória, desta vez, a Rita combinou apanha-lo em casa. Estava a bater-lhe à porta cinco minutos depois do combinado – sabia que o amigo não era o maior exemplo ou fã de pontualidade e quis dar-lhe uma abébia -, ainda assim não se surpreendeu quando a figura lhe abriu a porta (depois de insistir em tocar umas três ou quatro vezes) de boxers e com o ar mais ensonado da história: quando já passava há muito do meio-dia. Esquecera-se – decerto na esperança de que ela se tivesse esquecido também-, nada de novo. Quantas e quantas outras coisas já tinham sido desmarcadas, tantas vezes em cima da hora: no último minuto. Mas desta vez a Rita estava decidida – não havia desculpas nem possibilidade de fuga. O João ainda se fez esquecido e ironicamente desentendido; mas era como se tivesse percebido a determinação dela- ou como se desta vez, ainda que de forma inconsciente, não quisesse de todo fugir. O João cedeu, arranjou-se rapidamente, e foram os dois à procura das ondas – do mar ou da vida: porque há alturas em que o destino se decide com a força da corrente.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Digam-me que é normal ficar a escrever até agora e ter o que fazer não tarda muito… vá, fui!

terça-feira, 14 de abril de 2015

Encontros tropeçados.

Há tantos encontros errados,
que mesmo sendo juntos,
nunca conseguiriam ter
o valor de um tropeço acertado.

Há encontros destinados
a ser desencontrados.
E há tropeços que nos acertam.
E que se acertam. A ser.

Em nós.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

quinta-feira, 2 de abril de 2015

o medo - no jogo.

O medo estava ali, presente - tal qual uma pessoa caminhava, lado a lado, com ela. Ela só pensava em gritar, em por cá para fora tudo o que a corroía compulsiva e insistentemente - por dentro, nas entranhas, onde mais ninguém alcança; onde até ela quase não pode chegar -, mas era como se a observasse de perto e lhe ordenasse silêncio. Fazia parte do jogo; um jogo com dois únicos jogadores – ela e o medo- e ela sabia-o bem. Todo o medo, receio e angustias que armazenou e alimentou por tanto tempo – tempo demais -, estavam agora ali, munidos de todas armas, diante dela, prontos a derrubá-la num só golpe, numa só jogada. Chegara a hora de ser mais forte, maior, mais capaz e vencer-se a si mesma; mesmo quando tudo em si gritava que não podia, não era capaz, nunca conseguiria – ela sabia que sim, tinha em si toda a força e ainda uma maior vontade, ia fazê-lo, ia conseguir vencer. Agora, o medo teria que ser apresentado ao silêncio - que o dominaria, se possível, por toda uma eternidade -, e conformar-se com a sua superioridade. Porque se o medo tinha como trunfo os seus pontos fracos, as suas falhas e vergonhas, as suas grandes armas seriam toda a coragem e toda a certeza; nem sempre o jogador mais forte vence o jogo, muitas vezes a persistência e a fé vão além, constroem o impossível. Aquele era o seu jogo, era ela quem o controlava e agora que percebera isso- ela acreditava.

quarta-feira, 25 de março de 2015

A casa, o lar – o último adeus.

Aquela era a casa que lhe lembrava um lar (antiga, tinha perto de quarenta anos) era ali que aprendera a ser quando ainda não sabia quem era. Olhava para aquele chão de madeira, velho e gasto (outrora alcatifado) e recordava cada brincadeira, cada riso e cada lágrima, cada amor. Agora mesmo vazia, sendo apenas chão e paredes, continuava a encontrar ali um aconchego que jurava não existir em mais lado nenhum. Em cada esquina, canto ou divisão era como se o pudesse encontrar ali, a qualquer segundo (mesmo sabendo que já não estava, que já tinha partido há mais de dez anos), entrar naquela casa era como se o pudesse abraçar para sempre. Ali, onde tinham vivido tão felizes, era como se as memórias pudessem viver para sempre ainda que fossem passado (eram como um degrau no presente que pudesse levar à construção de um futuro) como se não se visse um fim. Sentada no chão em frente à porta podia, por momentos ou horas, viver da esperança de o ver chegar (sabendo que não chegaria, era impossível) aos seus braços, só mais uma vez. Era ilusão e ela sabia, não era louca, mas era hora de se desfazer daquele lar e este, ela sabia-o, seria, de vez, o último adeus.

terça-feira, 24 de março de 2015

Às vezes é só preciso reajustar as estrelas que trazemos por dentro e fazer cada sonho brilhar. Fazê-los maiores do que aquilo que se consegue ver, coloca-los além, para que ninguém os entenda. São nossos, e ninguém precisa saber o tamanho de que somos feitos || May your choices reflect your hopes,not your fear. - As water reflects the face , so one's life reflect the heart. Proverbs 27:19 ||

terça-feira, 17 de março de 2015

O que era para ser –mais feliz e perfeito. Não foi.

O dia tinha nascido lindo com sol, um calor bom e ainda corria um vento fresco, docemente suave, tudo parecia perfeito; mas dentro dela só havia tempestade, trovões rasgavam-na por dentro e uma chuva miudinha, terrivelmente fria, não a deixa esquecer, nem parar de sentir, tudo a atormentava. Não era para ser assim e saber disso era o que a matava, segundo após segundo, sempre mais um bocadinho, tudo tinha sido programado para aquele ser o dia mais feliz e perfeito; não havia como prever que, um mês antes, tudo desmoronaria. Ela era a dona e princesa do seu tão sonhado conto de fadas; mas, agora que o dia mais esperado tinha chegado, já não era nada. Sempre soube que todas a histórias de princesas tinham a sua terrível bruxa má; nunca pensou que na sua história a bruxa estivesse no papel de melhor amiga. Sempre lhe dera o melhor que sabia ser, tinha bem noção disso; mas o seu melhor não lhe chegava, não era o tudo que ela queria. Arrancaram-lhe o coração, inteiro e a sangue frio, e com ele levaram todo o seu amor; nem no chão onde pisava conseguia confiar, desconfiava sempre, não estivesse ele pronto a abrir-se para a engolir. Perdeu a confiança em todas as certezas que a construíam e sustentavam; nem o próprio nome a fazia relembrar quem era, porque já não era quem tinha sido.

segunda-feira, 16 de março de 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

A tua verdade.

Um dia acordas e percebes que a rotina te anula. Que a locomotiva que te apanhou naquela tal estação, cuja morada apagaste do teu mundo, só te arrasta. E tu aceitas. Já nem tens aquele passo. Os teus passos já ganharam outra velocidade. Gritam e imploram, para que lhes dês outro sentido, mas não passam de gritos mudos. Porque tu não lhes dás voz. Formatas-te os ouvidos para só compreenderem o registro da monotonia. Para o teu cérebro a revolta, que te faz por dentro, é reconhecida como poluição sonora. É ignorada e abafada. Só não pode ser eliminada porque a verdade não se cala. Nem se esconde. Mesmo que seja tua. Só tua. E que mais ninguém saiba da sua existência. Mesmo que a camufles na tua parte mais recôndita. Ela não se fica. Ela luta. E grita a plenos pulmões. Ela não se abafa. Não desiste até superar todo e qualquer outro som. Se for preciso a verdade, sujeita-se a uma metamorfose e, torna-se no que for mais necessário. Num martelo, até. Sim, é ela que te martela na cabeça. Sim, há noite, quando queres dormir e não consegues. Quando a cabeça parece não saber parar. É ela, aquela verdade, que é tua, que não a deixa desligar. Ela não morre enquanto em ti houver vida. Ainda que a ignores é ela que sustenta o teu céu, e tu sabes. Ainda que fujas ela só te quer encontrar. Ela não vai descansar até que a encontres e a aceites. A tua verdade só quer ser real. Porque tu mereces. Porque tu a mereces. Contrariamente àquilo em que acreditas, não é o movimento que nos mantém vivos. É ter sentido. Saber para onde ir. A verdade é o melhor caminho. A tua verdade é o teu caminho. Mas só tu a podes seguir depois de a descobrires. Depois de a tornares, mesmo, tua.

terça-feira, 10 de março de 2015

Escrita até meio a quatro mãos. Depois fui. Deu-se isto.

Podia ser tudo, mas era o corpo. Era simples, de uma pureza comovente, mesmo sendo nada. E no entanto dava cabo de mim, como se a vida fosse aquilo, aquele conjunto de pele e de carne Eu não sabia, não entendia, o que era, quem era em mim. Tentei resistir, fazer de conta que não era comigo, mas fechava os olhos e outra vez a tentação, outra vez a vontade. Quanto mais resistia, mais forte ficava. Avancei, sem resistir, e fiz o que tinha de fazer, o que não podia deixar de fazer. Não me culpei, não me torturei, nem podia, por ser fraca. Entreguei-lhe alma e coração, como se fossem seus, quando já o eram. Eu sabia, no fundo sempre soube. De nada valeu, guardá-lo em mim, não dizer em voz alta, não me atrever a sussurra-lo. Aquele sentimento, meu, inquietante e dominador, éramos nós agora, ali, juntos. Já não o podia guardar, nem esconder. O sentimento deixou de se sentir, passou a ser vida. Vivemo-lo, como se fosse o nosso primeiro ar, como sendo o último fôlego. Era como se ali tudo acabasse, onde tudo podia começar. Ali tínhamos nascido, um para o outro, e ali podia ser morto tudo o que era nosso. E sabendo que, naquele momento, tínhamos tudo, nada nos interessava. Os dias, outrora perdidos, eram ganhos. As horas, que corriam a passar, alargavam. Dominávamos o mundo e ele era só nosso. Criámos um mundo nosso porque sabíamos que, para o mundo dos outros, juntos não poderíamos existir, teríamos que ser mentira. Mas, se a mentira é nossa, ela pode ser verdade. A nossa verdade. O impossível dos outros, o inimaginável, é, para nós, tão real quanto as suas verdades. E, o segredo que se guarda, não pode ser estragado. O que se ama, e se guarda, por dentro, dificilmente se estraga em segredo. Ainda que nunca possa, nem venha a, ser gritado. Mesmo que um dia se tenha que o matar. Que nunca nos mate, nem nos morra, em nós, por dentro.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Saudade em tpc.

A pior saudade é aquela que se tem, daquilo que se sabe que não vai voltar a ser. A pior das saudades é a que já se sabe ser impossível matar. Há saudades que precisam ser mortas e exterminadas, por nós, para não nos matarem. Para que não sejam elas a dar cabe do que somos. Há quem diga que as memórias são o bem mais precioso que se pode guardar. Mas memórias servem para construir e contar histórias. Memórias servem para que as nossas histórias nunca se percam. Mas nem todas as boas memórias fazem, necessariamente, parte de uma boa história. E as historias que não nos acrescentam, não se devem guardar. Porque, quando guardadas, fazem sempre questão de ser as mais vezes lembradas e recordadas. E o que não nos acrescenta e se faz presente, que insiste ser presente, só diminui. Só nos pode diminuir.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Incómodos feitos de âncoras.

Num mundo tão grande, é só imaturo pensar que todas as pessoas nos cabem. É impossível todas terem a nossa medida. Encaixarem-nos. Há pessoas que nunca nos vão caber. Porque há valores – esses sim, universais. De forma, universal – muito maiores e mais importantes que nós. Estes sim, que devem e deveriam caber, em todo o lado. Mas nem toda a gente os tem. Ou os quis aprender. Quando alguém custa a encaixar-se em nós, às vezes queremos tanto, que reviramos, contorcemos, esticamos, encolhemos… às tantas parece que pronto, já está. Serviu. Surge um incómodo, não está perfeito, mas dá para fazer de conta que sim. Não é nada que nos condicione ou que não se suporte facilmente. O tramado é que haverá sempre dois tipos de incómodos. E há incómodos que começam a magoar e acabam em ferida. E depois da ferida aberta é sempre quando se descobre do quanto há quem seja tóxico. Quem contamine os princípios e nos inunde com a lixeira que traz por dentro. São tão tristes e ocos que tudo o que querem é tirar-te tudo, para no final te deixarem vazia. São como âncoras, que te puxam para baixo, afundam-te e afogam-te, quando tu só estás a tentar flutuar no oceano da vida. Não passam de lixo, a nadar nos perfumes mais caros. Mostra-lhes que se podem salvar se, se limparem. Se lançarem todo aquele lixo para fora. Se lavarem a alma. Mostra-lhes, mas não te condenes. Se não o aceitarem, deixa-os ir. Ainda que te arranquem algum bem. Se, se deixou enganar, é porque nunca foi teu e nunca que te soube amar. Lá na frente ainda te ia fazer tropeçar. Deixa-os ir.

Depois há incómodos, que se desfazem. Desaparecem, como se nunca tivessem existido. Mas passam a existir, fazem-se existir, para sempre, em nós. Eles ajeitam-se e fazem-se perfeitos. Acrescentam-nos e ainda constroem tesouros em nós. Enriquecem-nos, enriquecendo-se, porque sabem que é partilha. É nosso. É crescente. É presente e futuro. Para sempre. Os incómodos devem-se sempre suportar. Porque não se sabe. Nem se adivinha. A ferida, a desilusão, a dor é que nunca se devem tolerar. São âncoras. Nunca vão deixar de o ser. É deixa-las ir. Se possível, de preferência, fazê-las correr.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Partes-te em nada.

Pobres dos que não se encantam. Dos que não se demoram. Não se encontram onde se deixam perder. Muitas vezes, perdermos partes nossas que se sabem encontrar em outros, e, ocupar os espaços por elas deixados vazios, em nós, com outras partes de alguém, que tão bem aprendem a fazer morada em quem somos nós, é vida. O que faz valer a pena. Não fomos feitos para sermos um. Somos feitos para ser com alguém. Feitos para sermos juntos. E o encanto é a cola que cola as partes e que as faz só uma. Uma que vale. Que é o que vale. Há partes nossas que são para serem só nossas e que – se forem coesas e fortes (que devem ser, coesas e fortes!) – nos estruturam, sustentam e alicerçam. Mas há outras que, em nós nunca serão nada, mas que, doadas a alguém podem ser um mundo. Inteiro. E nós só nos tornamos inteiros, quando alguém se deixa construir em nós. Se encanta e se demora em cada parte nossa. Pobres dos que não se encantam, não se demoram e não se perdem. Nunca se vão encontrar. Nunca vão descobrir o mundo. E outros mundos noutros. Não se perdem mas vivem perdidos. Vão sempre viver por partes. Partes que nunca serão inteiras. Pobre daquele que não se quer inteiro. Que não se faz inteiro. Não se encanta. Não se cola. É partido. E o triste que isso deve ser. Ser-se partido. Não se é nada. É-se partes de nada. No fim, partes-te em nada.